Irão / Arábia Saudita

Sauditas e iranianos encetaram conversações secretas este mês em Bagdade

O primeiro encontro entre responsáveis iranianos e sauditas, de relações cortadas desde 2016, aconteceu no passado dia 9 de Abril em Bagdade.
O primeiro encontro entre responsáveis iranianos e sauditas, de relações cortadas desde 2016, aconteceu no passado dia 9 de Abril em Bagdade. AFP - AHMAD AL-RUBAYE

De acordo com uma notícia publicada neste domingo pelo jornal britânico "Financial Times", responsáveis iranianos e sauditas mantiveram conversações no Iraque no passado dia 9 de Abril, contactos que para já não desembocaram em nada de concreto. Segundo as fontes citadas pelo jornal, durante este diálogo entre os dois rivais que estão de relações cortadas desde 2016, foi designadamente abordada a situação do Iémen, cujo governo apoiado pela Arábia Saudita está em conflito há mais de seis anos com os rebeldes Hutis, por sua vez apoiados pelo Irão.

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O Irão "sempre acolheu favoravelmente" o princípio de um diálogo com a Arábia Saudita, declarou nesta segunda-feira Saïd Khatibzadeh, porta-voz do Ministério iraniano dos Negócios Estrangeiros, acrescentando que essas negociações são sempre "benéficas para os povos de ambos os países e para a paz e estabilidade regionais", sem contudo confirmar a veracidade das informações divulgadas pelo "Financial Times".

Citando um responsável iraniano e duas fontes regionais, o jornal britânico deu conta da realização no passado dia 9 de Abril em Bagdade de um encontro, o primeiro desde 2016, entre os dois rivais regionais que deveriam tornar a marcar uma nova reunião nos próximos dias, segundo indica ainda o "Financial Times".

Durante estas conversações das quais, para já não resultou nada de concreto, foi abordada a questão do Líbano sem governo e mergulhado numa grave crise económica, tendo sido igualmente evocada a situação do Iémen cujo exército governamental, apoiado por forças regionais chefiadas pela Arábia Saudita, está envolvido desde 2014 num conflito contra os rebeldes xiitas Hutis, apoiados pelo também xiita Irão, que segundo a ONU causou dezenas de milhares de mortos e uma das mais graves crise humanitárias do mundo.

Ao dar conta do seu cepticismo sobre as possibilidades deste tipo de encontros surtir efeitos no que tange ao conflito no Iémen, Djenirah Couto, especialista do Médio Oriente ligada à Escola Prática de Altos Estudos em Ciências Sociais aqui em Paris, sublinha que "o esforço de guerra, o que se está a passar no terreno é de tal modo impressionante que para baixar um pouco a tensão actual, era necessário um processo de negociação muito mais equilibrado, muito mais agendado e sobretudo muito mais reflectido". Na óptica da investigadora, tratou-se "apenas de uma reunião para tactear o terreno, para saber até que ponto é que cada uma das partes está empenhada em continuar o esforço de guerra".

Djenirah Couto, especialista do Médio Oriente ligada à Escola Prática de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris

O facto é que estas conversações aconteceram numa altura em que aumentam as pressões internacionais com vista a encontrar uma solução política ao conflito. As Nações unidas propuseram no passado mês de Fevereiro um plano de paz incluindo um cessar-fogo nacional, a abertura de estradas entre o norte e o sul de modo a deixar transitar as pessoas e a ajuda humanitária, bem como o lançamento de um processo político de reconciliação. Até agora, esta via não foi explorada.

De referir por outro lado que este primeiro contacto entre o Irão e a Arábia Saudita, aconteceu igualmente num contexto em que Teerão tem estado envolvido em esforços juntamente com os seus parceiros internacionais e especialmente os Estados Unidos no intuito de ressuscitar o Acordo Nuclear Iraniano enquadrando as actividades desse país nesse domínio. Assinado em 2015, este tratado foi enterrado durante a era Trump, mergulhando o Irão numa grave crise económica. Um figurino que Teerão tenta agora alterar, perante um contexto a priori mais favorável, com a chegada de Joe Biden à Casa Branca.

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