Portugal/Vandalismo

Portugal: Relançado debate sobre símbolos coloniais após vandalização de monumento

O Padrão dos Descobrimentos, em Belém, foi vandalizado com um "graffiti" numa das laterais do monumento, com uma extensão de cerca de 20 metros e escrito em inglês, Lisboa, 08 de agosto de  2021.  ANTÓNIO COTRIM/LUSA
O Padrão dos Descobrimentos, em Belém, foi vandalizado com um "graffiti" numa das laterais do monumento, com uma extensão de cerca de 20 metros e escrito em inglês, Lisboa, 08 de agosto de 2021. ANTÓNIO COTRIM/LUSA LUSA - ANTÓNIO COTRIM

O emblemático Padrão dos Descobrimentos, um dos mais famosos da capital portuguesa, foi vandalizado no início da semana por uma suposta turista francesa que, entretanto, deixou Lisboa. A autarquia limpou já o monumento, situado na margem ribeirinha, na zona histórica. O caso reabre o debate em torno dos símbolos coloniais.

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O Padrão dos Descobrimentos situado em Belém, junto à Torre do mesmo nome, e ao Mosteiro dos Jerónimos é um dos mais célebres monumentos da capital portuguesa.

Inaugurado em 1960 para celebrar os 500 anos da morte do Infante D. Henrique, grande impulsionador das descobertas portuguesas, ele faz referência aos padrões que os descobridores colocavam para marcar a pertença dos novos territórios à coroa lusa.

No topo da caravela figura, precisamente, o Infante D. Henrique seguido por 32 outras figuras marcantes da expansão portuguesa no mundo.

No domingo um grafitti em azul e vermelho foi pintado por uma suposta turista francesa que teria assinado a obra com a inscrição "Lia" após uma frase em inglês.

As autoridades investigam o caso, mas a turista teria deixado Portugal.

Segundo a imprensa lisboeta tratar-se-ia de uma estudante de arte em Paris, uma francesa de origem norte-africana que já teria protagonizado actividades do género, tendo colocado numa rede social um vídeo do monumento vandalizado com a mensagem "It's a wrap. Bye Lisboa" (É o fim. Adeus Lisboa). 

A tradução portuguesa da mesma seria "Navegar cegamente em prol do dinheiro, a humanidade afunda-se num mar escarlate".

A Câmara municipal de Lisboa concluíu nesta terça-feira a limpeza do monumento, orçado em 2 300 euros, mais o Imposto sobre o valor acrescentado.

O caso suscito interesse por parte de muitos populares que se deslocaram de propósito ao local. O acto ocorre após a estátua do Padre António Vieira, também na capital portuguesa, também já ter sido vandalizada, na sequência de um vasto movimento internacional de contestação das figuras coloniais.

No caso trata-se de um clérigo português, evangelizador jesuíta do Brasil, mas figura próxima dos indígenas, autor de uma obra literária importante, incluindo mais de 200 sermões.

O sociólogo e professor universitário luso João Teixeira Lopes realça a ampla disputa em torno da memória, embora denunciando a covardia do acto de vandalismo que o despoletou.

João Teixeira Lopes, sociólogo português, 12/8/2021

"O vandalismo, por si só, eu diria que é muito pouco interessante, como acto de protesto político. Ainda por cima quando ele não é assinado, quando há uma acção, digamos covarde como foi o caso desta pretensa activista francesa. De qualquer maneira é interessante verificar que há hoje uma intensa disputa. E disputa é, mesmo, o termo ! Política, simbólica, sobre aquilo que são os símbolos do nosso passado e da nossa história [de Portugal]. E isto para um sociólogo é interessante porque leva-nos a perceber que o passado... ou, melhor, a ideia que nós temos do passado, a memória que construímos sobre ele é alvo de ideias muito distintas, de visões muito diferentes. "

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