Afeganistão

Regresso dos Talibã ao poder abre novas incertezas para as mulheres afegãs

O regresso dos Talibã ao poder no Afeganistão abre um novo período de incerteza para as mulheres afegãs.
O regresso dos Talibã ao poder no Afeganistão abre um novo período de incerteza para as mulheres afegãs. © AP/Rahmat Gul

Desde o regresso dos Talibã ao poder no Afeganistão, com a conquista de Cabul no dia 15 de Agosto, aumenta o receio sobre o destino do povo afegão e em particular das suas minorias e das mulheres que, já no passado, foram as primeiras vítimas da interpretação rigorista da lei islâmica imposta pelo Emirado Islâmico do Afeganistão, que os Talibã chegaram a instaurar entre 1996 e 2001.

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Perante esta situação, a ONU avisou na passada terça-feira que “uma linha vermelha fundamental será a forma como os Talibã tratam as mulheres e as meninas e respeitam os seus direitos à liberdade, liberdade de movimento, de educação, de expressão e direito ao emprego, em conformidade com os padrões internacionais em matéria de Direitos Humanos”.

Á imagem da história recente do seu país, a situação das mulheres afegãs conheceu diversos percalços. Apesar de conhecerem um período de emancipação durante as décadas de 1960 e 1970, após séculos de um sistema arcaico e patriarcal, as mulheres vêem a sua progressão ser travada pelos sucessivos conflitos que vão dilacerar o Afeganistão. Depois da intervenção soviética de 1978 a 1992, será a guerra civil entre as diferentes facções de 1992 a 1996 e, em seguida, a tomada do poder naquele ano pelos Talibã.

Estes últimos acabam por instaurar um regime repressivo, particularmente em relação às mulheres que, naquela altura, ficam sujeitas aos limites muito rigorosos da Sharia, a lei corânica, deixando de ter liberdade de movimento, acesso à educação e ao mercado de trabalho.

A partir da intervenção da NATO em 2001 no país, na sequência dos ataques do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, os Talibã perdem o controlo do país. Apesar de se encetar um novo período de incerteza política e militar no Afeganistão, algumas iniciativas de desenvolvimento dão um impulso à emancipação das mulheres e das jovens.

A eternização do conflito, todavia, vai levar a NATO a desinvestir-se gradualmente a partir de 2015. No ano passado, ao concluir um acordo com os Talibã em que se comprometia a mandar retirar as tropas americanas do Afeganistão, a administração Trump deu conta da vontade de os Estados Unidos colocarem um ponto final nesta guerra, uma decisão que acabou por ser confirmada pelo seu sucessor, Joe Biden, que estabeleceu o fim da retirada americana para o próximo dia 31 de Agosto.

No passado mês de Maio, os Talibã encaminharam a reconquista do Afeganistão e surpreenderam os serviços de inteligência internacional pela velocidade com que retomaram o controlo do poder.

Apesar de os insurrectos garantirem que as meninas serão autorizadas a ir para a escola e que as mulheres poderão trabalhar nos limites estabelecidos pela Sharia e logo que as condições de segurança estejam reunidas, numerosos são aqueles que expressam dúvidas sobre as suas reais intenções, à luz do que aconteceu no passado. É por conseguinte um novo período de incerteza que se abre para as mulheres afegãs.

Este é nomeadamente o estado de espírito de uma jovem juíza que preferiu dar o seu testemunho à RFI de forma anónima. Magistrada há 10 anos, ela exerceu designadamente em Mazar-I-Sharif e em Balkh, no norte do Afeganistão. À semelhança das restantes 300 juízas que exercem no país, esta jovem magistrada vive doravante com medo de não poder mais exercer a sua profissão.

Juíza afegã sobre o receio de não poder trabalhar mais
Juíza afegã sobre o receio de não poder trabalhar mais

“Eu era um exemplo para muitas meninas do país. Elas diziam para elas próprias que um dia também poderiam ser juízas. Trabalhei, entre outras coisas, como juíza nos assuntos familiares.

Eu lembro-me que frequentemente as mulheres ficavam aliviadas com o facto de o juiz também ser uma mulher. Organizava igualmente workshops e dei aulas sobre Direitos Humanos, Direitos da Mulher e Direitos da Criança.

O que é realmente difícil para mim, é que os Talibã nos ameaçaram primeiro à distância, nós as juízas, e agora eles tomaram o controlo das instituições. A outra ameaça vem dos prisioneiros que nós, juízas, condenamos e que foram libertados pelo Talibã.

Há dois dias, o porta-voz dos Talibã disse que as mulheres não poderão mais trabalhar como juízas. Foi uma muito má notícia para nós. Esta também é a principal razão pela qual quero deixar o país. Já não há possibilidade de trabalhar aqui e de exercer a minha profissão de juíza", diz.

Também apreensiva, Shkula Zadran, que está a fazer um mestrado em Relações Internacionais em Cabul e foi representante da juventude afegã nas Nações Unidas em 2020, dá conta do receio que as jovens têm de não poder mais estudar.

Shkula Zadran sobre receio de as jovens afegãs não poderem mais estudar
Shkula Zadran sobre receio de as jovens afegãs não poderem mais estudar

“Ninguém quer deixar de estudar. As mulheres adorariam poder continuar a estudar, mas isso vai depender da situação do país.

Se os Talibã não permitirem que elas frequentem a universidade, qual é a alternativa para elas? Se calhar, para já, seja melhor continuar a acompanhar as aulas online, como temos feito nos últimos semestres, por causa da covid.

Isso pode fazer com que as meninas continuem os seus estudos em casa até que a segurança e a situação política melhorem.

O acesso à educação é um dos nossos direitos fundamentais e ninguém pode retirar-nos isso", declara.

Shkula Zadran não perde todavia a esperança.

Shkula Zadran sobre a evolução das mulheres afegãs nos últimos tempos
Shkula Zadran sobre a evolução das mulheres afegãs nos últimos tempos

“Recentemente, uma mulher afegã obteve a nota mais alta no exame nacional de admissão à universidade. Isto mostra que as mulheres afegãs já não são o que eram há 20 anos. Elas têm talento, estão empenhadas, têm grandes sonhos e ninguém pode travá-las.

Por conseguinte, é evidente que se os Talibã quiserem restringir-nos, será impossível para eles. Eles têm que nos enfrentar, eles têm que enfrentar essas jovens e corajosas afegãs, essa jovem geração corajosa.

Claro que temos medo. A protecção dos direitos, liberdades e vitórias das mulheres afegãs fazem parte das suas grandes preocupações. Mas, desta vez, a diferença é que não deixaremos ninguém limitar-nos ou colocar obstáculos no nosso caminho", conclui.

Igualmente combativa, Zarifa Ghafari que foi a primeira e mais jovem mulher afegã a ocupar o cargo de autarca no país, na cidade de Maidan Shar, perto de Cabul, acabou por fugir do país por sentir que sua vida estava em perigo. A jovem autarca que chegou à Alemanha esta semana diz pretender levar a voz das mulheres afegãs para o exterior.

Zarifa Ghafari, antiga autarca de Maidan Shar
Zarifa Ghafari, antiga autarca de Maidan Shar

“Estou muito, muito agradecida ao governo alemão e a todas as pessoas que me salvaram a mim e à minha família.

Em segundo lugar, gostaria de dizer que conheço a problemática em torno dos refugiados e migrantes na Alemanha. Mas eu e a minha família não viemos como migrantes.

Estamos aqui para trazer as vozes de 99% das afegãs que estão actualmente escondidas nas suas casas. Seremos a voz de todas aquelas que não podem mais trabalhar. E de todas aquelas que não podem mais elevar a voz.

Nos próximos dias, vou avistar-me com muitas pessoas e falar em nome de todas as mulheres afegãs silenciadas”, garante.

O contexto em que os Talibã regressam ao poder não deixa de ser diferente em comparação à situação vivenciada há 20 anos atrás. Segundo dados da ONU, em 2001, nenhuma menina estava matriculada na escola pública. Em 2018, eram 83%. De acordo com a mesma fonte, actualmente, das cerca de 19 milhões de mulheres do país, 37% das adolescentes e 19% das adultas sabem ler e escrever.

Apesar da pobreza e da violência, algumas mulheres afegãs conseguiram tornar-se advogadas, médicas, funcionárias, engenheiras e empresárias. Muitas chegaram a ingressar na polícia ou no exército. De acordo com dados oficiais, no início de 2018, havia mais de 4.500 mulheres nas forças de defesa e as mulheres ocupavam 27,3% dos assentos no Parlamento afegão.

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