Eleições/Macau

Nova era na Assembleia Legislativa de Macau

Cidadãos de Macau a votarem para as eleições legislativas. 12 Setembro de 2021.
Cidadãos de Macau a votarem para as eleições legislativas. 12 Setembro de 2021. AP

Macau renovou a sua Assembleia legislativa neste domingo. A Associação dos cidadãos unidos foi a mais votada, num escrutínio marcado por uma abstenção recorde e pela exclusão de candidatos pró-democracia. 

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A lista Nova Esperança encabeçada pelo português José Pereira Coutinho surgiu na terceira posição, dados aqui realçados por Miguel Fernandes, advogado nesta região admnistrativa chinesa, para o qual "pouco vai mudar na Assembleia".

"Já era amorfa. Não vai mudar muito em termos de tom. No fundo, tudo acaba por ser uma questão de simbolismo também. Agora,  praticamente são quase todos da mesma cor, uma lista marcadamente pró-Pequim. É uma grande vencedora destas eleições, é uma lista representante de Fujian, tem marcado constantemente pontos no espectro eleitoral aqui da Região Administrativa de Macau (RAEM) até porque a comunidade de Fujian tem poder, não é só influência social", começou por dizer.

Miguel Fernandes falou depois sobre a componente económico-financeira, que tem bastante peso nas eleições.

"Depois, naturalmente, há uma componente importante nas eleições - a componente económica-financeira. É uma máquina que tem dinheiro. As forças tradicionais repartem-se entre os chamados moradores e a área dos operários. São essas duas forças as mais tradicionais que nós temos de Macau e, no meio disto tudo, surge a vitória do Pereira Coutinho que consegue eleger não só ele, mas com o seu companheiro de luta. Isto é uma vitória. Há que assinalar isto", complementou.

Oiça aqui um extracto do seu discurso:

Entrevista Miguel Fernandes eleições Macau 13/09/2021

As eleições foram marcadas por uma forte abstenção e pela exclusão de listas pró-democracia. Na óptica do advogado macaense Miguel Fernandes abriu-se uma nova era e não haveria volta a dar quanto à nova política determinada pela China.

"Não há volta a dar porque as coisas vêm ao de cima, isto é o interesse do povo chinês, o partido comunista chinês, naturalmente, não está só a acontecer em Macau. Está a acontecer em Hong Kong. A evolução das coisas é uma posição do regime central e é naturalmente adoptado pelo governo da RAEM. O que é importante é que apesar disto tudo haja uma participação cívica mais forte", disse ainda.

O advogado falou ainda sobre as consequências da abstenção: "Não conseguimos desta vez porque a abstenção deixou muito a desejar. Eu acho que as coisas se abalaram um pouco. A maneira como certos deputados, a determinada altura do campeonato, foram afastados, por exemplo, foi uma coisa repentina. Eu pelo menos não estava à espera que determinadas pessoas tivessem de ficar fora da corrida".

"De qualquer forma, seja como for, são as novas regras do jogo. Macau nunca foi uma terra de contestações. O contexto de Macau é um contexto muito especial, também ditado pela sua pequenez. Tem uma população pequena e as pessoas conhecem-se. Em Macau temos uma maneira de trabalhar, através do diálogo e não vale a pena entrarmos numa via mais bélica para resolver as coisas. Não se resolvem as coisas assim. Não há dramas aqui, se calhar  um caso difícil para um ocidental perceber", concluiu.

 

Oiça aqui a segunda parte da entrevista:

Entrevista a Miguel Fernandes eleições Macau 13/09/2021

De salientar que dos 323.907 eleitores, apenas 137.279 votaram  para a Assembleia Legislativa de Macau, o que representa a mais alta taxa de abstenção desde a criação da região especial administrativa chinesa.

Segundo dados divulgados, a  taxa de afluência foi de 42,38%, quando em 2017 se tinha estabelecido um recorde de participação de 57%.

A Assembleia legislativa, entre 2021 e 2025, será composta por 33 deputados (14 eleitos por sufrágio directo, 12  por sufrágio indirecto e sete nomeados pelo chefe do Executivo).

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