Artes

Feu! Chatterton consolidam “mundo novo” da pop francesa

Áudio 24:19
O músico Sébastien Wolf, em Paris, 19 de Fevereiro de 2021.
O músico Sébastien Wolf, em Paris, 19 de Fevereiro de 2021. © RFI/Carina Branco
Por: Carina Branco
38 min

O grupo francês Feu! Chatterton vai lançar o terceiro disco - “Palais d’Argile” - a 12 de Março. Um trabalho em que anunciam um “mundo novo” e dizem “adeus ao velho mundo adorado” até porque a Saudade é um "acorde central" dos Feu! Chatterton, de acordo com o músico Sébastien Wolf. O tema já percorria os álbuns anteriores, mas neste há uma despedida de "sorriso triste" ao passado. As letras ecoam com o tal “mundo novo” da pandemia e lamentam os ecrans que iludem em tempos de distanciamento social. Porém, tudo foi escrito e composto bem antes da Covid-19.

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Formado há dez anos por cinco amigos, Arthur Teboul, Sébastien Wolf, Clément Doumic, Antoine Wilson e Raphaël de Pressigny , os Feu! Chatterton desempoeiraram a pop francesa com "Ici le jour (a tour enseveli)" e "L’Oiseleur".

Em Março, eles lançam "Palais d'Argile", uma ode retro-futurista ao mundo de hoje que desperta saudades de um passado sub-valorizado e que promete deixar "palácios de argila" às futuras gerações.

Os textos, em francês, são cantados e declamados por Arthur Teboul e acompanhados por melodias pop-rock-electro que flutuam do assobio ao crescendo apoteótico, da balada acústica de veludo às estridências nervosas de um rock enraivecido. A liberdade formal volta a ser a regra nas letras e no som de "Palais d'Argile", desta vez com a parceria do 'guru' dos novos tempos da música electrónica francesa Arnaud Robotini. A revista Les Inrockuptibles já descreveu o novo disco como “a obra de arte do grupo rock mais letrado por terras francesas”.

Em todos os discos dos Feu! Chatterton transpira um sentimento de Saudade e é essa a palavra que falta na língua francesa, na opinião de Sébastien Wolf. O guitarrista e compositor franco-brasileiro considera mesmo que a Saudade é um dos "acordes centrais" - o sétimo maior- da música dos Feu! Chatterton.

Sébastien abriu-nos as portas de sua casa para nos dar um pouco de esperança sobre o regresso dos concertos e para descrever estes"palácios de argila" que construímos em tempos de pandemia e não só...  

RFI: "Un monde nouveau/On en rêvait tous” ["Um mundo novo, sonhávamos todos com ele"] ... O primeiro single do "Palais d'Argile" - Monde Nouveau" - tem um refrão que ecoa com este "mundo novo" da pandemia. Foi de propósito?

Sébastien Wolf, Feu! Chatterton: "A gente escreveu essa música em Julho de 2019, bem antes da pandemia. Nessa época, já havia esse conflito com telemóveis, com redes sociais, com o facto de se ficar muito tempo em frente dessas telas. Eu e o Arthur [Teboul] estávamos no sul da França, numa região que se chama Les Cévennes e que é bem isolada, no meio do mato. Eu acho que a natureza falou connosco. Foi a primeira música que a gente escreveu para esse disco e ela tenta contar esse confito que muita gente tem de sentir que se está numa sociedade que está colapsando.

A colapsologia é um tema que as pessoas falam hoje e já em 2019 era assim. Muita gente perguntava-se 'Vamos achar uma solução para construir outra coisa'. As pessoas falavam desse colapso do mundo e com a pandemia isso amplificou-se. Não é profético porque nesse tempo já muita gente sentia que havia muitos problemas na sociedade, mas eu acho que com o vírus toda o mundo vê que é uma realidade, que hoje a sociedade pode morrer, pode desaparecer. É isso que conta o "Monde Nouveau", com ironia também porque diz 'on se mouillait mollemment' que é uma expressão francesa para dizer que a gente se queria investir a fazer mais coisas mas ninguém o fazia realmente."

RFI: "Escolheram para título do disco 'Palais d’Argile' ['Palácio de Argila'], algo que remete para uma aparente força que é frágil, para um gigante com pés de barro. O que significa este título?"

Sébastien Wolf: "Um palácio é uma coisa que é linda, mas é muito frágil. Eu acho que a Terra, em geral, pode representar bem esse Palácio de Argila. Palácio de Argila também é uma imagem: imagina que daqui a mil ou dois mil anos alguém chega nesta Terra, com uma sociedade que desapareceu, mas fica uma arqueologia do nosso mundo de hoje (...)

O que fica são palácios, coisas bonitas que as sociedades construiram, mas a argila é a base da construção de toda a Terra e ela pode desaparecer. É essa a imagem que a gente queria dar para o disco, mas a gente tenta dar uma proposta de esperança também. Não é só dizer que o mundo está ruim. Não, vamos tentar um caminho porque há um mundo novo, 'un monde nouveau', vamos todos nessa direção. Pode ser que tenha um palácio de argila que a gente possa reconstruir."

RFI: "Mas a música 'Monde Nouveau' avisa que não sabemos fazer nada com as mãos..."

Sébastien Wolf: "Sim, a ironia é essa. Todo o mundo sente que o caminho que se tem de seguir é respeitar mais a natureza, respeitar mais as outras populações do mundo que são mais frágeis, mas para conseguir construir coisas com a natureza é preciso saber fazer coisas com as mãos e isso mais ninguém sabe fazer. A canção fala: 'A gente não sabia mais fazer coisas com as mãos, a única coisa que a gente sabe fazer é apertar o bluetooth'. É a ironia da coisa, do mundo de hoje."

RFI: "O disco é produzido por um dos nomes da nova música electrónica francesa Arnaud Rebotini que fez, por exemplo, a banda sonora do filme '120 Batimentos Por Minuto'. Porquê esta escolha e o que é que ele vos trouxe?"

Sébastien Wolf: "A gente escolheu o Arnaud Rebotini porque a gente gosta muito do trabalho dele em vários discos, em particular 'Music Components' que é um dos primeiros discos tecno que ele fez. Antes, os discos que a gente fez foi com o Samy Osta que é um produtor de música francesa e que foi genial e é um amigo agora.

Com este disco quisemos controntar-nos com novas técnicas e pArnaud Rebotini é um dos padres da música tecno e electrónica francesa e ele tem uma tecnicidade de saber perfeitamente controlar velhos teclados que são típicos dos anos 80 e 70 e a gente queria dar essa sonoridade para o nosso disco. Ele tem também uma grande capacidade de trabalhar as baterias, que são uma coisa muito importante para a nossa banda.

E foi realmente um encontro por acaso porque no início a gente queria trabalhar com pessoas do exterior, produtores de Inglaterra, mas com a Covid não dava. Então, a gente pensou: 'Quais são os artistas franceses que a gente gosta?'. E o Arnaud Rebotini é um dos melhores na música electrónica aqui. A gente queria, no início, fazer uma coisa retro-futurista, que usasse sonoridades dos anos 70,80 e tentando falar sobre o futuro, como o David Bowie, como várias bandas dos anos 70 queriam fazer. O Arnaud Rebotini era a pessoa perfeita para isso." 

RFI: "As letras nos três discos sao quase todas - creio - obra do Arthur? Como é que depois vocês criam as melodias?"

Sébastien Wolf: "Em geral, a letra e a música escrevem-se no mesmo momento. A gente encontra-se a dois ou três, eu, o Arthur, o Clément - a base na composição em geral somos nós os três. Neste disco, a gente foi para o sul de França e ficou um tempo lá.

Eu começo a improvisar música, umas harmonias no teclado ou na guitarra e, ao mesmo tempo, como o Arthur tem ideias e anotações mas não uma canção escrita, com essa improvisação ele tenta cantar um pouco em cima das ideias melódicas que eu posso tocar e a coisa constrói-se assim.

É um momento bem particular que é um momento um pouco de transe. A gente entra num processo de total liberdade e nesse momento vai ter dois, três, dez minutos mágicos em que a gente sente que tem uma coordenação perfeita entre a letra, os acordes e a melodia. Tem uma evidência. Os dois sentimos isso e é assim que a gente sabe que vai ser uma música boa e vamos guardá-la. 

‘Monde Nouveau’, por exemplo, foi a primeira música que a gente escreveu e foi assim. A coisa vem e esse acidente é o que a gente espera. É isso a fase de composição. Às vezes, você pode esperar semanas e não se sente essa electricidade. Mas quando a electricidade vem, os dois sabemos que acabámos de viver uma coisa forte e então vai ser uma música boa. Tem uma coisa mística.”

RFI: “Uma epifania?”

Sébastien Wolf: “Uma epifania, exactamente.”

RFI: “Vocês são animais do palco, os concertos pararam há um ano com a pandemia. Quando é que os concertos vão “ressuscitar” e como têm sobrevivido económica e mentalmente enquanto músicos e sem o teste e o apoio do público?”

Sébastien Wolf: “A gente teve sorte porque a gente ia fazer duas semanas de concertos em Abril [2020] e isso foi cancelado por causa da pandemia, mas  não estávamos numa fase de ‘tour’ - que se quebrou para muitos amigos que lançaram discos em Março, Fevereiro do ano passado. Foi bem pior para eles. A gente estava numa fase de criação que não é a fase em que se está esperando o retorno do público. Então foi muita sorte.

Agora, o nosso disco estava pronto no Outono e a gente pensava lançar o disco um pouco antes e começar a ‘tour’ em Janeiro deste ano de 2021, o que não é possível. Então, estávamos um pouco zangados com a pandemia, como vários músicos, mas agora estamos a deixar as coisas acontecerem. A gente não pode controlar esta pandemia, então os artistas e os músicos têm que aceitar as coisas como elas vêm e acalma pensar as coisas assim porque olhar as curvas nos hospitais e essas coisas só pode ser ruim.

A gente está agora numa fase mais meditativa porque o disco vai sair em Março e depois esperamos que em Setembro, Outubro possamos começar a fazer o ‘tour’ que este disco merece porque a nossa banda é realmente uma banda de palco e a maioria do trabalho que fazemos é fazer concertos. Vamos ver, estamos a tentar acalmar-nos sobre isso.”

RFI: “Até porque na última música do ‘Palais d’Argile’ – ‘Laissons Filer’ – vocês falam em “dançar e valsar na linha do horizonte’. É um sinal de esperança?

Sébastien Wolf: “É. A última canção do disco realmente tem um sinal de esperança. ‘Laissons Filer’ é uma expressão para dizer ‘aceita as coisas como elas vêm”. Uma das coisas da nossa sociedade também é querer tentar controlar tudo, tudo, tudo, tudo, tudo. Isso é uma coisa...

RFI: “Humana?”

Sébastien Wolf: “Humana mas é um problema de Prometeu. Nós não somos Deus, então vamos parar de querer fazer isso. A última canção acaba assim ‘Là-bas, espère ce qui t’attend. C’est sous l’hiver qui couve le printemps’, ou seja, ‘Lá, espera as coisas que vêm, é debaixo do Inverno que nasce a Primavera’. Então, é realmente a esperança. A gente tem essa ideia que no futuro vai ter uma coisa melhor.”

RFI: “Vocês chegaram como um ‘Boeing’ [canção do primeiro disco] à cena pop francesa. A liberdade formal e textual parece ser o vosso credo e não têm medo de juntar pop, rock progressivo, música electrónica e 'chanson française'. Como é que define os Feu! Chatterton?

Sébastien Wolf: “Eu gosto da palavra Canção Francesa porque acho que isso resume bem o que a gente faz. A gente dá uma importância grande ao texto, à poesia porque gostamos muito de poesia e literatura francesa e não só -  temos [no ‘Palais d’Argile’], por exemplo, um texto de William Butler Yeats. A gente gosta do trabalho de texto e de contar histórias. Com a música a gente faz a mesma coisa. A canção francesa são histórias contadas com quaisquer instrumentações. As nossas influências são o rock, a música electrónica, o jazz e a mistura dessas influências com a poesia resume bem o grupo.”

RFI: “Sentem que tiveram algum peso na efervescência de uma nova música pop francesa nos últimos anos, com o aparecimento de nomes como Juniore, Flavien Berger, Clara Luciani, Malik Djoudi, Cléa Vincent, Rone, entre tantos outros? Dá ideia que eles surgiram todos ao mesmo tempo, mas que vieram atrás de vocês...”

Sébastien Wolf: “Obrigada. Não sei, a gente chegou um pouco antes das bandas que citou, mas a gente também chegou depois de La Femme, Fauve, Lescop, Odezenne... Eu acho que a gente faz parte de toda uma geração que criou uma nova canção francesa. Uma canção francesa com instrumentações modernas, com influência da música electrónica, do rock...

RFI: “O Serge Gainsbourg já fazia isso tudo...”

Sébastien Wolf: “Exactamente. Gainsbourg e o Alain Bashung, até o Léo Ferré, o Aznavour, nos anos 60, 70, eles misturavam poesia com instrumentações rock, arranjos de orquestra lindos. Então, a gente está a tentar, nos anos 2000, fazer isso com essa nova geração de músicos franceses."

RFI: “O Sébastien é franco-brasileiro, conhece largamente a palavra Saudade. Esta palavra parece percorrer os vossos trabalhos, seja em ‘Souvenir’, em ‘Monde Nouveau’ e tantas outras canções... A Saudade é mesmo um dos temas da vossa música?"

Sébastien Wolf: "É uma palavra que falta na língua francesa - Saudade. É uma palavra que resume perfeitamente o sentimento que a gente tem. Há também um acorde em música que é a sétima maior e em ‘Monde Nouveau’ e em ‘Souvenir’ é um acorde central. Porque é melancólico, triste, mas é maior. Daria um sorriso triste. A nossa música é muito inspirada nesse tema, tanto na letra quanto na música, e a música brasileira, em particular a bossanova, usa muito esses acordes. Eu acho que a saudade é central na poesia francófona, só que o termo aqui usado é melancolia, mas não tem nada a ver. Saudade é um termo perfeito para a França.”

RFI: “Então a Saudade é o Sétimo Maior da música?”

Sébastien Wolf: “Exactamente. A Saudade é o sétimo maior da música e da música dos Feu! Chatterton é central!”

 

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