Artes

O Cerejal, Tiago Rodrigues orquestra um baile de personagens

Áudio 10:01
"O Cerejal" de Tiago Rodrigues, na Cour d'Honneur do festival de Avignon.
"O Cerejal" de Tiago Rodrigues, na Cour d'Honneur do festival de Avignon. Christophe Raynaud de Lage

O encenador português Tiago Rodrigues vai suceder à direcção do festival de Avignon e apresentou na edição deste ano uma encenação sensível d’O Cerejal de Tchekhov.

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Em palco todos os personagens assumem o mesmo protagonismo, numa encenação orquestrada por Tiago Rodrigues que dirige actores como se de um baile de tratasses. Em cena, os personagens transformam-se em fantasmas tristes e alegres, conduzidos pelas perturbações do mundo, onde se distinguem Isabelle Huppert, Adama Diop, Isabel Abreu. Os músicos portugueses Manuel Azevedo e Hélder Gonçalves dão um ritmo musical à peça do dramaturgo russo.

"O trabalho de actor tem que ver com o facto de Tchekhov escrever para actores que conhecia muito bem e conhecer muito bem a mecânica teatral. Tchekhov, embora médico de formação, era um apaixonado de teatro e dessa mecânica. De alguma forma tinha em si um encenador, não era apenas um poeta do palco que conhecia todos os sons, os movimentos e sabia quanto tempo demora um actor a atravessar um palco", lembra o encenador português.

Como acontece em todos os trabalhos de Tiago Rodrigues, os actores têm espaço para criar e procurar uma autenticidade na complexidade dos personagens criados por Tchekhov.

Isabel Abreu é a única atriz portuguesa no elenco e interpreta a personagem Charlotte Ivanovna, mas quem é esta personagem?

"Quem é Charlotte é uma pergunta muito difícil porque foi uma pergunta que esteve na minha cabeça durante muito tempo. Ela faz magia em cena, isto está escrito, no entanto ela surge, nas indicações das personagens, não como mágica, mas como a preceptora", conta Isabel Abreu.

"Este encontro entre o Firs e a Charlotte dá-me a noção de que a Charlotte é alguém que não pertence aqui e a lado nenhum. Houve um lado que o Tiago foi desenvolvendo comigo que é o lado da personagem-observadora, que está sempre em cena e que diz o que quer e não quer. Ela não tem ligação a nada nem a ninguém, nem à casa ou ao cerejal e não tem sítio para estar. É aqui que a magia e os números da magia são uma forma de procura do real, através do doar da ilusão aos outros encontra um pouco do seu real", descreve.

"O Cerejal é uma partitura em que cada nota é fundamental para partilhar a composição com o público", explica Tiago Rodrigues. 

Os músicos portugueses Hélder Gonçalves e Manuela Azevedo dão esta nota fundamental ao jogo que se cria entre a música e o trabalho dos actores em cena.

"Uma das funções que o Tiago procurava na música desta peça era que ela não fosse uma personagem com um nome ou um rosto, mas que houvesse uma participação ou um jogo com os actores e a dramaturgia em que a música tivesse essa qualidade de participar como uma personagem", explica Manuela Azevedo.

A música d'O Cerejal assume outras funções mais ilustrativas e que se transforma num diálogo com as personagens. "Numa primeira fase, o encenador queria que a música entrasse em palco como um comboio, que tem que ver com a cenografia", descreve Hélder Gonçalves, questionando o papel desse comboio "se ficava parado e se ligava a alguma personagem e essa procura foi feita nos ensaios, o que para nós foi muito diferente do que costumamos fazer. Diria que mais de metade do trabalho foi feito com os actores em cena", admite.  

O cerejal de Tiago Rodrigues esteve em cena até sábado, 17 de Julho, no Pátio de Honra do Palácio dos Papas no Festival d’Avignon.

Isabelle Huppert nos ensaios das peça O Cerejal, encenado por Tiago Rodrigues na abertura do Festival de Avignon.
Isabelle Huppert nos ensaios das peça O Cerejal, encenado por Tiago Rodrigues na abertura do Festival de Avignon. AFP - NICOLAS TUCAT

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