Ciência

Leguminosas: A chave para a segurança alimentar em Cabo Verde

Áudio 08:55
Os feijões, devido à riqueza nutricional, representam um dos recursos únicos em termos de segurança alimentar em Cabo Verde. (Imaguem de arquivo)
Os feijões, devido à riqueza nutricional, representam um dos recursos únicos em termos de segurança alimentar em Cabo Verde. (Imaguem de arquivo) CHRISTOPHE SIMON / AFP

As leguminosas, devido à riqueza nutricional, representam um dos recursos únicos em termos de segurança alimentar em Cabo Verde. As conclusões fazem parte do estudo CVAgrobiodiversity - Climate changes and plant genetic resources: the overlooked potential of Cabo Verde’s endemic flora”, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e pela Rede Aga Khan para o Desenvolvimento. Estudos idênticos estão a ser desenvolvidos em Angola e Moçambique.

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Maria Romeiras, investigadora do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa e coordenadora do projecto, salienta que o feijão, pelas suas capacidades de adaptação às terras áridas, encontra em Cabo Verde as condições perfeitas para se desenvolver.

RFI:Como é que surge este projecto? 

Maria Romeiras:Todos estes estudos estão integrados no âmbito de um projecto multidisciplinar, que tem a cooperação de várias instituições portuguesas: Instituto Superior de Agronomia; Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa; Universidade dos Açores; Universidade de Cabo Verde; Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário e Direcção Nacional do Ambiente. [Estes estudos] têm por base a valorização dos recursos genéticos vegetais e potencial das espécies nativas de Cabo Verde.

Este estudo recebeu financiamento de duas instituições. Quem é que se juntou a este projecto?

Este estudo tem por base um projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia portuguesa e a Rede Aga Khan para o desenvolvimento, que tem como objectivo principal financiar estudos que têm por base potenciar redes internacionais com África. O projecto CVAgrobiodiversity - Climate changes and plant genetic resources: the overlooked potential of Cabo Verde’s endemic flora” prevê vários trabalhos na área da valorização dos recursos naturais de Cabo Verde, entre elas a valorização do potencial das leguminosas, que são os tais feijões

Quais são as conclusões deste estudo?

Embora as ilhas de Cabo Verde sejam ilhas muito secas, com muita falta de água, os feijões, a nível local, representam um dos recursos únicos em termos de segurança alimentar. Este estudo vem revelar que, em termos de proteínas, minerais e da parte de adaptação às condições climáticas extremas, os feijões encontram em Cabo Verde condições únicas para se desenvolver. Mesmo espécies introduzidas encontram as condições climáticas necessárias para se desenvolver, bem como espécies nativas africanas.

Nos últimos anos assistimos, em Cabo Verde, a uma substituição desses alimentos. Quais os impactos na alimentação e saúde dos cabo-verdianos?

Dentro do trabalho foi feita uma análise não só química e nutricional, mas também uma análise a nível da parte agronômica, pelos professores da Universidade de Cabo Verde. Embora tenha havido uma certa preferência por um certo tipo de alimentos, a valorização dos feijões enquanto fonte única de proteínas, foi o ponto central deste estudo para chamar a atenção e valorização não só de variedades locais, que são únicas, como também a valorização de comidas como a cachupa, que tem o feijão como elementos principais, e que é um dos pratos mais característicos das ilhas de Cabo Verde.

De que forma é que pensam chamar a atenção para a importância destes alimentos?

Com a cooperação das instituições que fazem parte do projecto e que são, em Cabo Verde, as pessoas que melhor conhecem a realidade a nível local e que têm uma ligação muito grande à parte não só dos produtores como à parte da investigação. É tentar promover o seu cultivo e a sua contínua distribuição a nível dos mercados locais.

O país está muito dependente da importação de alimentos, o caso da pandemia de covid-19 veio mostrar esta vulnerabilidade?

Com as alterações climáticas, que é um dos trabalhos que está a ser desenvolvido no âmbito deste projecto,é através da delimitação de áreas ou de spots de diversidade destas espécies, em que identificamos, ao nível das ilhas, quais são as áreas importantes para cultivo destas e de outras espécies. É um estudo que ainda está a ser desenvolvido e coordenado pela Universidade dos Açores.

Em relação à covid-19, todas as dificuldades a nível transportes, a supressão de muitos voos para Cabo Verde leva a que as populações se virem mais para dentro e valorizem os seus produtos, as espécies que podem ser cultivadas sob situações climáticas extremas e os feijões constituem um recurso genético único. Os feijões constituem, ainda, uma parte tradicional dos alimentos que sempre foram usados pela população de Cabo Verde.

Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura mostram que Cabo Verde não atingiu, ainda, o objectivo de erradicação da fome e que cerca de 5,3% da população sofre de insegurança alimentar. As leguminosas podem ser a chave da fome em Cabo Verde

Penso que sim. Penso que as leguminosas são das famílias de plantas mais importantes, mas há outras famílias que também têm uma grande capacidade de adaptação às condições climáticas extremas de Cabo Verde. É o caso das gramíneas e das poáceas, em que outro estudo chamou a atenção para a valorização desses recursos naturais. Todos os cereais encontram em Cabo Verde óptimas condições para se desenvolverem.

Ambas as famílias, que são das famílias mais numerosas de plantas a nível mundial, encontram em Cabo Verde condições ideais para se desenvolverem e são excelentes fontes para combater a insegurança alimentar. 

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