Ciência

"Estamos a sofrer o mal que fizemos à atmosfera durante décadas"

Áudio 08:42
As temperaturas no Vale da Morte, na Califórnia, continuam a subir, tendo atingido 56 graus no início de julho.
As temperaturas no Vale da Morte, na Califórnia, continuam a subir, tendo atingido 56 graus no início de julho. AP - John Locher

Dos 50ºC no Canadá às chuvas diluviais na Europa que causaram mais de 200 mortos, os fenómenos extremos climáticos multiplicam-se por todo o globo, havendo, na maior parte, uma ligação directa às alterações climáticas causadas pelo Homem. O cientista Ricardo Trigo diz que "estamos a sofrer o mal que fizemos à atmosfera durante décadas".

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Ricardo Trigo é Professor Auxiliar do Departamento de Engenharia Geográfica Geofísica e Energia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e também coordenador do grupo de Variabilidade e Extremos climáticos do Laboratório Associado Instituto Dom Luíz, em Lisboa. 

Reconhecido pela Reuters como um dos cientistas mais influentes no estudo das alterações climáticas, o académico português disse em entrevista à RFI que há uma correção directa entre os fenómenos meteorológicos extremos e o aquecimento global.

"Isso é particularmente evidente na onda de calor do Canadá, que bateu o anterior recorde não por 1ºC ou 0,5ºC, mas praticamente 5ºC. E isso não é a forma usual com que as ondas calor afectam os máximos históricos. Trabalho há quase 30 anos em extremos climáticas e estamos habituados a recordes que são batidos por 1ºC", explicou o académico.

Se, por um lado, temperaturas mais quentes têm uma correlação directa com o aquecimento global motivado pelo Homem, outros fenómenos como as cheias, são mais difíceis de determinar, mas a ligação é inevitável.

"Há muitos anos que sabemos que a atmosfera mais quente vai facilitar a ocorrência de situações extremas", sublinhou.

Quanto à previsibilidade destes fenómenos, Ricardo Trigo, considera que as previsões meteorológicas são exactas, mas é mais difícil prever a sua frequência, a não ser com a utilização de estudos e modelos.

No caso das recentes cheias na Alemanha, o cientista considera que "o Centro Europeu de Previsão previu muitíssimo bem o que ia acontecer", mas houve por parte das autoridades locais "uma incapacidade de perceber o perigo que se aproximava". 

Os impactos destes fenómenos extremos são também já visíveis na vida do dia a dia de todos os habitantes do planeta. Se, por vezes, como no caso das inundações, os danos são materiais com vítimas mortais imediatas, noutras regiões do mundo, o aquecimento global provoca secas extremas que ameaçam a segurança alimentar.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, uma organização criada em 1988 no âmbito das Nações Unidas, prevê que entre 2030 e 2052 as temperaturas subam em média 1.5ºC.

Uma caminhada que dificilmente conseguirá ser travada a tempo, segundo Ricardo Trigo.

"Há uma enorme inércia climática, nos agora estamos a sofrer o mal que fizemos à atmosfera durante décadas. E estas coisas no clima não se conseguem reverter de um ano para o outro. nós podemos parar todos de andar de carro e de avião e atmosfera vai continuar a aquecer", concluiu o cientista.

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