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Bispo de Pemba denuncia “afronta aberrante aos direitos humanos”

Áudio 12:23
Passageiros e carga embarcam na praia dos pescadores do bairro de Paquitequete em Pemba, este tem sido um dos principais pontos de chegada de deslocados da violência armada em Cabo Delgado. Pemba, Moçambique, 21 de Julho de 2020.
Passageiros e carga embarcam na praia dos pescadores do bairro de Paquitequete em Pemba, este tem sido um dos principais pontos de chegada de deslocados da violência armada em Cabo Delgado. Pemba, Moçambique, 21 de Julho de 2020. LUSA - RICARDO FRANCO
17 min

A cada dia que passa a situação na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, ganha contornos cada vez mais alarmantes. Os ataques já provocaram a morte a cerca de 2.000 pessoas e mais de 435.000 deslocados. O Bispo de Pemba, Dom Luíz Fernando Lisboa, denunciou uma “afronta aberrante aos direitos humanos” com a factura da “guerra” a ser paga pelos inocentes. 

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Ainda esta sexta-feira a Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, pediu medidas urgentes para proteger civis na província de Cabo Delgado. Pemba continua a receber diariamente os que fogem das aldeias atacadas.

Ao microfone da RFI, Dom Luíz Fernando Lisboa começou por descrever o afluxo massivo dos deslocados: “desde 16 de Outubro que entraram em Pemba cerca de 250 embarcações com pessoas dos distritos vizinhos e das ilhas. Cerca 13.000 pessoas chegaram estes últimos dias, sem contar os que chegam por terra”. 

Muitos fogem porque foram atacados e outros fogem preventivamente, antes de serem atacados. As pessoas estão com muito medo”, acrescenta o eclesiástico. 

Sobre o acolhimento dos deslocados em Pemba, o representante local da Igreja Católica sublinha que “está a ser feito o possível. Muitos voluntários, organizações da sociedade civil e Governo tentam fazer alguma coisa para acolher estas pessoas, mas não é fácil porque é um número muito grande [de deslocados]. Pemba já estava superlotada. Calcula-se que são quase 100.000 pessoas a mais em Pemba”. 

Além do apoio de comida, água e roupa aos deslocados é-lhes proposto apoio psicossocial, desenvolvido por várias organizações em conjunto com a Cáritas Diocesana de Pemba. Desde há três meses que 60 activistas coordenados e preparados por duas psicólogas vão aos acampamentos e bairros reúnem grupos de 10 a 20 pessoas que incentivam a contar a sua história. “Eles contam os traumas e os dramas e isso tem ajudado muito a levantar a cabeça”. “Depois de vários encontros já começam a conseguir cantar e até dançar”.

Os casos mais difíceis ficam a cargo das psicólogas, como por exemplo casos de “uma mulher que viu decapitar o marido e a minha filha foi raptada ou de uma mãe que tem dois filhos desaparecidos, crianças, que não sabe se estão vivos ou mortos”.

Desde 5 de Outubro de 2017 que a região tem sido palco de ataques que se têm intensificado nos últimos meses. Na base dos ataques, investigadores apontam a disparidades entre sul e norte do país, a descoberta de gás, as reservas de pedras preciosas, etc, a estes factores acrescenta-se o desemprego, pobreza, falta de perspectiva e pouca escolarização. Condições que fazem com que jovens sejam “presas fáceis para estes grupos radicais que oferecem dinheiro, promessa de futuro e até o céu”.

No início da semana, notícias davam conta de um ataque em Muatide no qual 50 pessoas teriam sido decapitadas. As autoridades moçambicanas não confirmam os números. Porém o Bispo de Pemba garante que as decapitações aconteceram, embora seja impossível contabilizar as mortes, na medida em que os habitantes das aldeias atacadas fugiram: “Houve nesses dias muita violência e decapitações. Sim. Houve. Agora, quantos não sabemos porque o povo saiu todo de lá”.

Os relatos que chegam do terreno dão conta de ataques de uma violência extrema, “é uma afronta aberrante aos direitos humanos. Essa guerra tem usado de muita violência. Os inocentes é que estão a sofrer, é que estão a pagar. Homens, mulheres, jovens perdendo a própria vida”. 

A residir em Pemba desde 2001, Dom Luíz Fernando Lisboa vê esta situação com muita preocupação: “a guerra tem-se aprofundado, tem aumentado. Os requintes de crueldade têm aumentado, a estratégia de ataque tem aumentado”, com a multiplicação de “ataques concomitantes” ou “seguidos”. “Das 26 aldeias do distrito de Muidumbe, 24 foram atacadas”. 

Questionado sobre o diálogo inter-religioso, o Bispo de Pemba sublinha que a nível local e nacional “há um bom relacionamento entre as religiões, nunca tivemos problemas”. “O que está acontecer agora não é uma guerra religiosa. Trata-se de um extremismo. Nenhuma religião que seja verdadeira propõe, propaga ou incita a violência. Pelo contrário são pela paz”, conclui o prelado.

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