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Régio Conrado: “Moçambique não tem capacidades para aniquilar terroristas sem ajuda externa”

Áudio 14:30
Pessoas no quintal de uma casa superlotada no bairro de Paquitequete, em Pemba, um dos pontos de chegada de deslocados.
Pessoas no quintal de uma casa superlotada no bairro de Paquitequete, em Pemba, um dos pontos de chegada de deslocados. © LUSA - RICARDO FRANCO
Por: Marco Martins
48 min

A crise em Cabo Delgado no norte de Moçambique preocupa não só os moçambicanos mas também a comunidade internacional com reacções por exemplo de eurodeputados pedindo para uma intervenção da União Europeia em Moçambique para ajudar o país a lutar contra os ataques terroristas.

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Esta situação provoca mortos, mas também milhares de deslocados que ficam sem telhado e sem comida. Aliás segundo dados oficiais do Governo, há 500 mil deslocados devido às violências e ao conflito.

As diferentes associações humanitárias tentam ajudar as pessoas que abandonam as áreas palco de violência, algumas como o Programa Alimentar Mundial admitiam começar a ter dificuldades em dispor de bens alimentares suficientes.

Régio Conrado, investigador doutorando no Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Bordéus, explicou-nos a situação que está a ocorrer em Cabo Delgado, admitindo que o Governo moçambicano não tem meios suficientes para aniquilar os terroristas, tendo até agora contido os ataques no Norte do país.

Há duas coisas que se podem dizer a propósito dos fenómenos que estão a ocorrer na Província de Cabo Delgado. A primeira coisa é que todas as situações que temos conhecimento na Província de Cabo Delgado mostram a degradação da situação securitária. O que mostra uma determinada confiança por parte dos grupos terroristas que estão envolvidos naquele contexto. O segundo aspecto é o facto que estamos a constatar que o Estado moçambicano não tem as capacidades estruturais para poder combater por si próprio estes grupos. No entanto apesar das fragilidades estruturais, o Estado moçambicano tem demonstrado algum tipo de capacidade. Se não tivéssemos numa circunstância de um Estado e de um Exército totalmente ineficiente, eu acredito que este conflito já podia ter atingido o Sul da Província de Cabo Delgado, porque neste momento está tudo concentrado na parte central e no Norte. Penso que a estratégia tem sido conter o máximo possível”, frisou o doutorando.

Para Régio Conrado, Moçambique precisa de uma ajuda externa:É complicado que um Estado como o moçambicano consiga de forma estrutural aniquilar este tipo de grupos. O grande problema é que estes grupos têm uma estratégia de guerra que é uma novidade no contexto moçambicano. O Estado não tem capacidade material para aniquilar estes grupos. As capacidades militares estão aquém dos desafios que se mostram no terreno. O Estado moçambicano pediu à União Europeia, à comunidade internacional, para fornecer formações ao nosso Exército, às nossas forças de defesa e segurança. A Região da África Austral não se está a mostrar pro-activa: era preciso que a África do Sul se envolvesse, era preciso que Angola se envolvesse, e também a República Democrática do Congo. Estes três países, do ponto de vista militar, são os países mais importantes da Região.  O Estado moçambicano de uma forma geral não pretende uma intervenção directa de forças estrangeiras. Talvez seja necessário como os americanos estão a fazer com a República Centro-Africana que é de apoiar de forma estrutural com formações, do ponto de vista do armamento e da inteligência militar”, realçou.  

O investigador doutorando admitiu ainda que o Estado moçambicano não tem capacidade para resolver o problema dos deslocados, necessitando a ajuda externa, mas não apenas com sacos de arroz e de milho que atenuam o problema mas não o resolvem: “O drama dos refugiados internos em Cabo Delgado é uma consequência imediata da situação da insegurança na Província. O Estado moçambicano não tem capacidade para resolver o problema dos refugiados internos. A crise humanitária é tão profunda que só pode ser resolvida através de uma articulação internacional. Por enquanto estão aquém dos desafios daquela região. A comunidade internacional tem tido pouca compreensão do que está ali a acontecer. A Província é profundamente pobre e o Governo local não tem capacidade para resolver os problemas. Grande parte das organizações das Nações Unidas estão com dificuldades financeiras para poder alimentar acima de 500 mil deslocados internos, mesmo se são muitos mais. E as famílias deslocadas não têm também capacidades. O Estado está ainda por cima em crise financeira. No entanto as ajudas não podem ser em forma de assistência, porque não é sustentável. É preciso que se procurem mecanismos internos para as famílias terem a capacidade de reprodução social autónoma. Moçambique é um conjunto de problemas, não só de deslocados de Cabo Delgado, mas de deslocados climáticos e também há o problema da fome. A comunidade internacional pode continuar a fazer assistência oferecendo sacos de arroz e de milho, mas isto não resolve o problema. O conflito em Cabo Delgado ainda vai levar tempo. A situação é extremamente explosiva”, concluiu Régio Conrado.

Régio Conrado, investigador doutorando no Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Bordéus

Moçambique. Imagem de Ilustração.
Moçambique. Imagem de Ilustração. © AP - Tsvangirayi Mukwazhi

 

CONVIDADO 19-11-2020 MM

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