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Vacinação em França contra a Covid-19: "Somos alvo de piada internacional"

Áudio 08:34
França vacinou 516 pessoas nos últimos sete dias.
França vacinou 516 pessoas nos últimos sete dias. Sameer Al-DOUMY AFP/File

O governo francês quer acelerar o processo de vacinação contra a Covid-19, depois de ter sido alvo de críticas pela lentidão da campanha, comparando com outros países europeus.

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"Estamos perante um escândalo de Estado", afirmou esta segunda-feira, 4 de Janeiro, Jean Rottner, do partido d'Os Republicanos, exigindo que a vacinação "mais acelere" no país.

"Somos alvos de crítica. Hoje é mais complicado sermos vacinados do que comprar um carro", criticou Jean Rottner, presidente da região Grande Leste, uma das mais afectadas pela pandemia.

A França começou a vacinar a 27 de Dezembro nos lares. Até esta segunda-feira, apenas 516 pessoas tinham recebido vacina, contra as mais de 200.000  na Alemanha ou mais de 85.000 em Itália, no mesmo período, e quase um milhão no Reino Unido, que começou a vacinação a 8 de Dezembro.

Segundo o autarca socialista na Câmara Municipal de Paris, Hermano Sanches Ruivo, existe uma elevada preocupação quanto à vacina, "claramente, estamos perante um cenário que marcou o ano passado: existe uma grande diferença entre os meios que temos e a utilização e distribuição dos mesmo, tal como aconteceu com as máscaras agora acontece com as vacinas".

"Nesta altura, com a informação que temos da vacina, já não faz sentido estamos numa distribuição a este ritmo. Os números parecem ridículos. Existe uma reticência à vacina, no país de Pasteur parece incrível, mas há pessoas que não querem ser vacinadas. Estamos perante uma falta de adaptação à realidade", descreve Hermano Sanches Ruivo.

"Somos alvo de piada internacional (...) É vergonhoso", criticou o vice-presidente do partido de extrema-direita Rassemblement National, Jordan Bardella.

O eurodeputado ecologista Yannick Jadot disse que a estratégia de vacinação da França era um "fiasco" e que o presidente Emmanuel Macron é o único responsável.

Diante da polémica, o Presidente francês convocou para esta segunda-feira uma reunião para analisar a campanha de vacinação com os principais membros do gabinete. O ministro da Saúde francês, Olivier Véran,  defendeu a estratégia do governo. "

A França recebeu 560.000 doses da vacina Pfizer/BioNTech desde o final do mês de Dezembro e a partir desta semana vai receber meio milhão de doses por semana para os quase 68 milhões de habitantes.

O Executivo decidiu vacinar a partir desta segunda-feira os profissionais da saúde com mais de 50 anos, prevista inicialmente numa segunda fase, em Fevereiro. Para muitos analistas, estas mudanças continuam a ser insuficientes e alguns pedem vacinação para outras profissões essenciais, como professores ou trabalhadores em caixas de supermercado.

Segundo a publicação Le Journal du Dimanche, o Presidente expressou nos últimos dias descontentamento quanto à lentidão da campanha de vacinação contra o vírus, que matou mais de 65.000 pessoas na França.

Sobre a vacinação contra a covid-19, "estamos a um ritmo de passeio em família, o que não está à altura nem do momento nem dos franceses", indicou a publicação, que citou palavras de Emmanuel Macron pronunciadas em reuniões privadas.

A que se deve o atraso?

A França é um país conhecido por ser tradicionalmente anti-vacinas, uma das explicações para o início lento da campanha deve-se ao fato do processo de vacinação acontecer em várias etapas.

Antes da vacina ser administrada, os franceses devem comparecer a uma primeira consulta para detectar possíveis contra indicações e dar o seu consentimento.

"Não podemos continuar neste ritmo. Os cálculos sugerem que seriam necessários 3.000 anos para que estejamos todos vacinados", lamentou o director do serviço de reanimação do hospital Lariboisière em Paris, Bruno Megarbane.

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