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EUA: Os desafios da administração Biden

Áudio 13:42
O presidente eleito dos EUA Joe Biden e a vice-presidente eleita Kamala Harris à chegada ao Capitólio.
O presidente eleito dos EUA Joe Biden e a vice-presidente eleita Kamala Harris à chegada ao Capitólio. REUTERS - MIKE SEGAR
24 min

Olhos postos em Washington DC. Dia de tomada de posse de Joe Biden como Presidente dos Estados Unidos da América, numa cerimónia quase sem público. A investidura do 46° presidente norte-americano decorre debaixo de fortes medidas de segurança, devido às ameaças de ataque de opositores depois da invasão do Capitólio.

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Biden chega à Casa Branca no meio de uma pandemia que já matou mais de 410 mil conterrâneos, além disso recebe de Donald Trump um país fragmentado e de relações cortadas com o Acordo de Paris para o Clima e com a Organização Mundial de Saúde. 

Desde hoje, que o novo presidente vai tentar reverter as políticas do antecessor. Biden vai assinar uma série de decretos, sobre clima, migração, saúde, etc. Podem os americanos esperar algum “milagre” por parte desta nova administração? Esta foi a pergunta de partida para Boaventura Sousa Santos, sociólogo português, ligado ao Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. 

Milagres não. Penso que não vai haver milagres. O único, talvez, seria uma certa pacificação dos ânimos neste momento, porque basta olhar para o aparato de segurança à volta da Casa Branca e de todo o espaço da tomada de posse, para mostrar que estamos em tempos extraordinários nos Estados Unidos. 

O que os americanos talvez possam esperar um pouco mais, como milagre, é uma certa reconciliação que, no entanto, passará pela destituição de Trump. 

O maior milagre para a democracia norte-americana é que ele seja destituído e punido de maneira a não poder voltar.

Fora disso, penso que os Estados Unidos vão entrar num período de regresso a uma certa anormalidade que é a da pandemia [da covid-19] e portanto uma das grandes prioridades de Biden vai ser para implementar, finalmente, um programa nacional de vacinação muito mais ágil do que aquilo que estava a ser feito e começar a olhar para economia que está de rastos.

Biden tem ainda pela frente a difícil tarefa de unir um país completamente desfragmentado, e isso não é apenas uma consequência de Trump, essa divisão, essas desigualdades já existiam antes. Como é que o novo presidente pode voltar a colar e a encaixar as diferentes peças deste puzzle?

Tenho muita dificuldade em vê-lo. Trump não foi o produtor de toda esta fragmentação. Trump é um produto dessa fragmentação. Chegou ao poder porque vivemos, nos Estados Unidos, numa sociedade completamente dividida entre aqueles que tiveram algum êxito no sonho americano e de ascensão social e aqueles, muitos, que foram deixados para trás. Perderam o emprego e o nível de vida que tinham. 

Como é um país que criou uma expectativa completamente exagerada, levou a uma frustração também enorme. É a frustração dos americanos que vêem uma realidade completamente dissonante dessas expressões e sonhos. Essa enorme frustração não cabe na política institucional e cria essas forças de extrema-direita, de supremacistas armados, etc.

Não penso que seja fácil a Biden fazer essa reconciliação, que obrigaria a uma redistribuição da riqueza muito muito grande, que o obrigaria a tributar os ricos. O que ele [Joe Biden] não vai fazer certamente. É um homem muito dentro do sistema, da ala moderada do partido Democrático. Por enquanto, vai ter uma política simbólica nos primeiros 100 dias. Vai tomar medidas importantes, também no plano internacional, que é de alguma maneira para disfarçar algumas medidas que Trump tomou in extremis

Os EUA continuam a ser indispensáveis na política internacional, mas não haverá um regresso ao passado, nem serão apagados os anos de administração Trump. Qual será a política internacional de Biden?

A política internacional será certamente uma continuação de [Barack] Obama, porque na sua equipa há muita gente que vem do tempo do Obama e portanto vão começar por ter uma atitude de maior diálogo, nomeadamente, com a Europa.

Ainda agora António Costa [primeiro-ministro de Portugal], no Parlamento Europeu, referiu exactamente essa expectativa que Europa tem de um diálogo e de uma cooperação mais intensa com os Estados Unidos e que deixe de fazer ameaças contra a Europa no que respeita às relações com a China. Isso obviamente vai melhorar.

Sobre a ‘guerra fria’ com a China, é algo que supera a questão Biden ou Trump. É uma luta entre gigantes, entre o império ascendente (chinês) e o descendente (norte-americano). Portanto isso vai continuar.

Os Estados Unidos são realmente importantes nas relações internacionais, mas muitas vezes são problemáticos. Têm criado muitos problemas nas guerras no Médio Oriente e na desestabilização das democracias da América Latina. Os latino-americanos estão preocupados em saber qual vai ser a atitude de Biden e, provavelmente, vai ser tão intervencionista quanto a de Trump.

No que respeita a Israel, certamente, que vai haver uma diminuição desta lealdade quase patológica de Trump às causas israelitas que levou a extremos absolutamente inconcebíveis. Talvez aí possa haver uma certa moderação porque o lobby israelitas esteve demasiado envolvido com Trump, para que Biden agora lhe queira fazer os favores.

Todavia continua a ser um lobby fortíssimo nos EUA?

Absolutamente. Apesar da comunidade judaica estar dividida a respeito disso, sobretudo quando vemos a questão dos colonatos, o colonialismo, o ‘apartheid’ da vacina. Nem os cidadãos árabes, nem os palestinianos estão a ter o acesso à vacina que têm os judeus israelitas.

Portanto é um Estado de ‘apartheid’ de facto, com a União Europeia a “assobiar para o lado” e os Estados Unidos têm estado sempre com eles [israelitas]. Claro que o 'cordeiro do sacrifício' é povo palestiniano.

E as relações com o continente africano? Continente desprezado por Trump. Vai existir uma mudança de atitude?

Penso que sim. Isso tem sempre um lado positivo e um lado negativo. Há muitas bases militares norte-americanas em África. Onde continuam a ter interesses económicos, embora tenham que os partilhar com Europa e com a China. Como é o caso de Cabo Delgado, norte de Moçambique, onde são muitas as empresas europeias que aí estão envolvidas.

Mas a África chegam tarde. Também chegaram de alguma maneira tarde à América Latina, tanto assim que o Brasil está, neste momento, a importar as vacinas da China. A China continua a ser o seu maior importador de produtos agrícolas, mas no entanto é obrigado a uma retórica anti-chinesa por imposição dos Estados Unidos.

No que toca à imigração, há imensa esperança depositada neste novo chefe de Estado. Exemplo disso é a caravana de milhares de imigrantes das Honduras a caminho dos EUA. Todavia a equipa Biden já avisou que a “fronteira não será aberta”. O que é que se pode esperar de Biden neste campo?

Vai continuar a política migratória que vinha de [Barack] Obama.

Segundo os dados mais recentes, Donald Trump apenas construiu 10km novos de muro, o resto foi aumentar a segurança do muro que já estava feito. A política vinha de trás.

Dá-me a impressão que não vão ter grande flexibilidade neste caso. Podem evitar, aqueles aspectos mais grotescos, mais desumanos, como meter as crianças em jaulas como vimos no Texas ou separar as famílias, etc. É natural, em meu entender, que acabem com isso. Mas não vão, de maneira nenhuma, abrir as fronteiras. Vão manter a política que sempre tiveram: abrir [a fronteira] quando convém, para os trabalhos sazonais no sul e na Califórnia, na agricultura e depois voltar a fechar [a fronteira] e impedir que haja uma regularização generalizada.

Olhando para o elenco governativo de Biden, há significativas mudanças face aos antecessores. Este executivo ainda tem de ser confirmado pelo Senado, todavia contempla, por exemplo, Kamala Harris a primeira mulher na vice-presidência, Lloyd Austin o primeiro afro-americano como secretário de estado da Defesa… uma mulher na secretaria do Tesouro, a primeira também… a primeira índia-americana a ocupar o Interior. Miguel Cardona, de origem porto-riquenha, na Educação e os transportes a cargo da primeira pessoa assumidamente LGBT. Este elenco é mais representativo da sociedade americana?

Sem dúvida, é um acto que chamamos de política simbólica. Não estamos a falar das políticas substantivas que essas pessoas vão realizar, mas da pessoa em si mesmo. Significam um certo simbolismo de tolerância pela diversidade ou até celebração da diversidade que há nos Estados Unidos.

Portanto, é de esperar que isto signifique também alguma mudança política, mas as mudanças de género ou de identidade racial podem não significar muito, vamos ver quais serão as suas políticas no concreto. Não é um sinal inequívoco de políticas substantivas, mas é sem dúvida um acto de política simbólica.

O presidente que hoje cessou funções, não vai sair facilmente de cena. A poucas horas de terminar o mandato, 140 indultos foram concedidos por Donald Trump. Entre eles o antigo conselheiro Steve Bannon. O que é que estes perdões de Trump significam?

É miserável. Considero isso uma atitude dele [Donald Trump] tão igual a ele próprio. Fez aquele discurso de despedida, não mencionando Joe Biden, mas desejando felicidade à nova administração e criticando a invasão ao Capitólio, quando foi ele próprio que o incitou.

Neste caso concreto, só não chegou ao extremo de se perdoar a si próprio e à sua família. Mas é evidente que há muito dinheiro envolvido nos perdões e há certos crimes que não deveriam ter sido indultados como por exemplo violação e outros.

O Steve Bannon um dos homens mais perigosos para a promoção da extrema-direita no mundo. Este homem tinha acabado de ser acusado de um crime de fraude e Trump recompensou-o, porque Steve Bannon foi muito importante na sua candidatura.

Trump fala na criação de um novo partido. Pode essa nova força política destruir os Republicanos?

Pode. É muito difícil nos Estados Unidos furar-se o bipartidarismo, mas dizíamos o mesmo na Inglaterra e noutros países da Europa e acabou por ser esvaziado.

Acho que ele [Donald Trump] tem condições para o fazer, mas pode ser banido da política se for condenado depois da destituição.

Pode vir a causar muito dano ao Partido Republicano. Só Trump é que pode ser o chefe de fila, tal como acontece nos populismos na Europa. Pode ser uma perturbação da política norte-americana, sem dúvida.

 

 

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