Convidado

Síria: “Não há inocentes nesta guerra”

Áudio 10:46
10 de Janeiro de 2021.
10 de Janeiro de 2021. AFP - DELIL SOULEIMAN
Por: Carina Branco
15 min

A Missão de Investigação das Nações Unidas para a Síria apresentou, esta quinta-feira, um relatório “sobre dez anos de crimes de guerra” no país, levados a cabo por todas as facções, com a ajuda da “negligência internacional”. “Não há inocentes nesta guerra” a não ser os civis, disse à RFI o presidente da missão, Paulo Pinheiro, numa entrevista que pode ouvir no programa CONVIDADO.

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Esta quinta-feira, a Missão de Investigação das Nações Unidas para a Síria apresentou um relatório sobre “dez anos de crimes de guerra” no país, levados a cabo por todas as facções e com a ajuda da “negligência internacional”.

"É preciso dizer que não há inocentes nesta guerra: tanto do lado das forças do governo sírio e dos países a ele aliados, como da parte dos grupos armados, dos grupos terroristas, como dos estados-membros que sustentaram, por exemplo, o armamento e o apoio financeiro a esses grupos armados", disse à RFI Paulo Pinheiro, presidente da Missão de Investigação das Nações Unidas para a Síria.

O responsável sublinhou, porém, que os únicos inocentes são mesmo os civis: "Os únicos inocentes são as crianças, mulheres, os idosos, as famílias tomadas no meio desse conflito."

Este é o 33.º relatório da missão de investigação e vai ser apresentado perante o Conselho de Direitos Humanos da ONU no dia 11 de Março, pouco antes da data que assinala os dez anos do conflito sírio.

O documento explica que a guerra obrigou metade da população do país a abandonar a sua casa, aponta a extrema pobreza que atinge seis em cada dez cidadãos e conclui que desde Março de 2011 a população sofreu abusos que em alguns casos constituem crimes de guerra, contra a humanidade e outros delitos internacionais, incluindo o genocídio no caso da comunidade yazidi.

"Os crimes são todas as violações de direitos humanos, como por exemplo a detenção arbitrária ao lado do uso sistemático da tortura, o que eleva ao nível de crime contra a humanidade", precisou Paulo Pinheiro, enumerando também os "ataques insdiscriminados à população", os ataques a escolas, locais de culto, hospitais, monumentos e cidades históricas como Palmira e os cercos às populações impedindo a passagem da ajuda humanitária.

Quanto à comunidade yazidi, Paulo Pinheiro contou-nos que não teve dúvidas que "o tratamento das mulheres escravas e o tráfico de mulheres yazidis do Iraque para a Síria pelo Estado Islâmico constituiram um crime de genocídio".

O relatório da ONU explica que o regime de Bashar al Assad, assim como a Rússia aliada, bombardearam indiscriminadamente alvos civis, incluindo hospitais, instalações médicas, escolas e tendas de refugiados. Os civis foram também os alvos do grupo radical Estado Islâmico, de milícias curdas, da aliança islâmica Hayat Tharir al Sham (a antiga Frente al Nusra) e da coligação apoiada pelos Estados Unidos.

"Todos esses crimes contra a humanidade, as violações dos direitos humanos continuaram a ser feitos com total impunidade lamentavelmente por causa da divisão entre os cinco membros permanentes que não permitiram levar o caso da Síria ao Tribunal Penal Internacional", sublinhou Paulo Pinheiro.

A ONU fala, ainda, em 38 ataques com armas químicas, 32 dos quais pelas forças governamentais sírias e um pelo grupo Estado Islâmico. O relatório enumera, também,  as execuções e mutilações de soldados, ataques, ameaças e assassínios de jornalistas e de pessoas que resistiram às imposições dos diferentes grupos.

Dos 22 milhões de pessoas que habitavam a Síria antes da guerra, mais de 11,5 milhões estão deslocados e cinco milhões estão refugiados noutros países.

O relatório termina com um novo pedido de cessar-fogo permanente, sob a supervisão do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e defende processos judiciais sobre crimes cometidos no país.

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