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Ulisses Correia e Silva: “Esta pandemia pôs em causa tudo”

Áudio 10:03
O presidente do MpD, Ulisses Correia e Silva. Cidade da Praia, Cabo Verde, 18 de Março de 2021.
O presidente do MpD, Ulisses Correia e Silva. Cidade da Praia, Cabo Verde, 18 de Março de 2021. LUSA - FERNANDO DE PINA

Ulisses Correia e Silva, actual primeiro-ministro de Cabo Verde e presidente do MpD, sublinha que a “pandemia pôs em causa tudo” e que apesar da forte dependência do turismo, o sector vai continuar a ser o principal motor da economia mas com “maior desconcentração” e “diferenciação de produtos”. Na corrida às legislativas de 18 de Abril, Ulisses Correia e Silva não exclui a nacionalização da Cabo Verde Airlines mas só “se houver necessidade disso” porque “em nenhuma circunstância” deixaria a empresa “ser destruída ou desaparecer”.

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Cabo Verde tem eleições legislativas a 18 de Abril. Na corrida eleitoral estão seis partidos - MpD, PAICV, UCID, PTS, PSD e PP – para eleger 72 deputados em 13 círculos eleitorais: dez no país e três na diáspora. MpD, PAICV e UCID concorrem em todos os círculos eleitorais; PP em seis círculos (Santiago Sul, Santiago Norte, Boa Vista, África, América, Europa e o resto do mundo); PTS em seis círculos (Santiago Sul, Santiago Norte, São Vicente, África, América, Europa e o resto do mundo) e PSD em quatro círculos (Santiago Norte, Santiago Sul, África e América).

“Esta pandemia pôs em causa tudo”, afirma Ulisses Correia e Silva que tenta a reeleição como primeiro-ministro. O presidente do Movimento para a Democracia (MpD) aponta como prioridade vacinar 70 % da população,  por uma questão de saúde e para a retoma da própria actividade económica.

Apesar da forte dependência do turismo, Ulisses Correia e Silva assegura que o sector vai continuar a ser o principal motor da economia mas com “maior desconcentração” e “diferenciação de produtos”. Economia azul, economia digital, transição energética, indústria transformadora e "agricultura mais resiliente" são as outras apostas.

O líder do MpD não exclui a nacionalização da Cabo Verde Airlines mas só “se houver necessidade disso” porque “em nenhuma circunstância” deixaria a empresa “ser destruída ou desaparecer”.

Ulisses Correia e Silva, 58 anos, lidera o MpD desde Junho de 2013 e venceu as eleições legislativas em Cabo Verde em 2016, assumindo desde então o cargo de primeiro-ministro. É licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa e é quadro do Banco de Cabo Verde. Já exerceu os cargos de presidente da Câmara Municipal da Praia, secretário de Estado das Finanças e ministro das Finanças.

RFI: “A economia sofreu com a pandemia. Que propostas para a retoma económica?”

Ulisses Correia e Silva, Presidente do MpD: “Primeiro a vacinação e atingirmos os 70% da vacinação dos cabo-verdianos de acordo com os grupos de risco porque isto é importante, em primeiro lugar, para a saúde, depois é importante para a retoma da actividade económica, particularmente o turismo.”

RFI: “A pandemia veio mostrar justamente que Cabo Verde está muito dependente do turismo. Como é que se pode diversificar a economia e não estar tão dependente do turismo?

Ulisses Correia e Silva: “Ora, em primeiro lugar é preciso dizer que esta pandemia pôs em causa tudo. Não só países que vivem do turismo, mas outras actividades económicas. É algo muito anormal e deve ser encarado como tal. Claro que nós temos uma dependência forte do turismo. O turismo irá continuar a ser o principal sector de actividade económica com maior desconcentração, aproveitando melhor as oportunidades e potencialidades de cada uma das ilhas e com maior diferenciação de produtos. Agora o eco-turismo, o turismo rural continua a ter uma importância acrescida até por causa da saída da pandemia, as pessoas irão procurar espaços com maior contacto com a natureza e nós temos todas as condições para o fazer.

Apostar fortemente na economia azul que é um outro grande potencial. Nós já estamos a trabalhar nesse sentido, não só no sector das pescas como aproveitar potencialidades para desenvolver a aquacultura. Temos um projecto já em andamento de uma empresa de referência norueguesa, a Nortuna, que vai criar 400 postos de trabalho mais 1200 postos de trabalho indirectos em São Vicente.

Temos a economia digital que tem um potencial grande, tendo em conta que depende muito, e apenas, de tecnologias, de sistemas bons de telecomunicações e internet e talento dos nossos jovens. É uma aposta muito forte.

E a transição energética que, para além de melhorar a eficiência da produção energética em Cabo Verde através de energias renováveis, também se constitui como um pólo de criação de actividade económica, emprego, formação, capacitação.

Ao mesmo tempo, iremos apostar no desenvolvimento de alguma indústria transformadora para podermos ter maior leque de possibilidades de actividades económicas que não estejam apenas dependentes do turismo.”

RFI: “Precisamente, em Cabo Verde, muita gente vive do campo que teve três anos de seca severa. Que propostas para modernizar o sector?”

Ulisses Correia e Silva: “A agricultura essencialmente é torná-la mais resiliente. O nosso problema da agricultura aqui em Cabo Verde é a água. Nós somos muito dependentes da chuva num país que chove pouco. Então, nós estamos a fazer fortes investimentos na dessalinização de água para a agricultura. Estou a falar de água salobra, a reutilização de águas residuais com segurança para utilização na agricultura.

Mais do que falar nós já temos processos em curso. Temos um investimento em arranque de 35 milhões de euros para investir em sistema de dessalinização para utilizar em lugares mais áridos para podermos potencializar o desenvolvimento da agricultura.

Ao mesmo tempo, massificação de rega gota a gota. Tomámos uma iniciativa de co-financiar em 50% o custo de aquisição de rega gota a gota para além de haver incentivos fiscais muito favoráveis à aquisição dos materiais e equipamentos porque aí fazemos ganhos com eficiência de utilização de água associados a energias renováveis para bombagem de água e baixar o custo da produção e mobilização de água para a agricultura. Portanto, são esses os nossos propósitos para podermos criar condições de uma agricultura mais resiliente, muito mais produtiva e que esteja menos sujeita a situações de choques extremos como nós já tivemos com os três anos de seca.”

RFI:  “A privatização da TACV avançou mas agora a companhia está a enfrentar sérias dificuldades. O doutor Ulisses Correia e Silva já disse que está disposto a nacionalizá-la. Porquê?”

Ulisses Correia e Silva: “Se houver necessidade disso, portanto, seria uma medida extrema. Primeiro porque a Cabo Verde Airlines significa um procedimento estratégico de Cabo Verde no Atlântico Médio, o conceito hub está associado à transportadora nacional. Segundo: representa a nossa relação com a diáspora. A terceira razão é que a Cabo Verde Airlines representa 300 trabalhadores e representa uma história de aviação civil e um capital e um activo para o país que, em nenhuma circunstância, nós iríamos deixar ser destruída ou desaparecer. É por isso que nós fazemos forte aposta no sentido de garantir as condições para que a companhia continue a existir...”

RFI: “Mesmo que isso implique vários avales? A líder da oposição, Janira Hopffer Almada, fala em 13 milhões de avales, vocês não estão de acordo com os números...”

Ulisses Correia e Silva: “Não, não são 13 milhões. São cerca de sete milhões. Aquilo é tudo publicado no Boletim Oficial, é só fazer as contas. À semelhança daquilo que está a acontecer em várias partes do mundo, os governos estão a intervir até injectando dinheiro para salvar as suas companhias aéreas. Não se pode analisar a situação de transportes aéreos como se a Covid não existisse. A Covid existe, afecta o sector de transportes aéreos fortemente. Aquilo que o governo tem estado a fazer é a emissão de avales para garantir financiamento e liquidez ao funcionamento da empresa. Caso contrário, a alternativa seria o quê? Liquidar.”

RFI: “Mas a empresa já estava com problemas antes da pandemia...”

Ulisses Correia e Silva: “A empresa saiu de problemas. Em 2016, a empresa estava numa situação de falência e de liquidação. Nós privatizámos, reestruturámos. A empresa em 2019 estava a voar - os aviões claro - para 11 destinos diferenciados, 48 voos semanais. O sector de transportes aéreos contribuiu para que o sector dos transportes tivesse um crescimento de 10% e uma representação de 8% do PIB, o que é inédito. A Cabo Verde Handling, que é o serviço de handling, também cresceu significativamente. As receitas da ASA cresceram e isso tudo tem a ver com o sector. Portanto, em 2019, não estávamos mal, estávamos bem.”

RFI: “A oposição também critica a política de transportes ao nível dos voos domésticos...”

Ulisses Correia e Silva: “A oposição critica tudo: a política de transportes, critica a política da agricultura, critica a saúde, critica tudo. Nós não nos podemos referenciar em função daquilo que é a crítica da oposição, ainda por cima a oposição que nós temos tido aqui em Cabo Verde. É por isso que a Transportes Aéreos Interilhas foi também uma opção que nós tomámos logo quando entrámos em 2016 que era garantir que as ligações interilhas pudessem ser realizadas. A Binter já estava em condições de operar, a Cabo Verde Airlines não tinha aviões porque os dois ATR estavam cedidos e criámos as condições para que a Binter pudesse operar, garantindo ligações diárias, seguras, com credibilidade e confiança e é isso que está a acontecer ainda...”

RFI: “Mas até há pouco tempo não podíamos reservar voos, por exemplo, para Abril...”

Ulisses Correia e Silva: “Sim, mas isso é só uma questão pontual. É a tal caracterização que a oposição faz. Por causa de um incidente de um momento, caracteriza todo o percurso e toda a acção da companhia. É um problema de relação entre a AAC, agência reguladora da aeronáutica civil, e a operadora. Já está resolvido o problema e continua-se a fazer os voos e as reservas a acontecerem.”

RFI: “O sistema de saúde também foi posto à prova com a pandemia. Quais são os principais investimentos para a saúde?”

Ulisses Correia e Silva: “Investimentos na saúde nós fizemos quase um investimento de dez milhões de euros em equipar todos os centros de saúde em equipamentos modernos para reduzirmos as assimetrias entre as ilhas, entre os concelhos e reduzirmos as evacuações internas. Todos os centros de saúde hoje estão equipados com equipamentos modernos de estomatologia, fisioterapia, oftalmologia, ginecologia, ecografias, raio-x digitais, laboratórios, o que dá uma certa garantia de estarmos com serviços de proximidade às populações e aos utentes de qualidade.

Segundo lugar: nós investimos fortemente no aumento do número de médicos, número de enfermeiros, para garantir uma prestação de serviços também de proximidade e de qualidade.

Estamos com um projecto que já foi lançado na Praia da construção de um hospital nacional de referência tecnologicamente avançado e com condições de reduzir o nível de evacuações externas que irá ser uma realidade nos próximos anos porque precisamos melhorar significativamente a prestação de serviços em algumas áreas, nomeadamente as áreas que exigem e que têm estado a provocar evacuações externas, nomeadamente para Portugal."

RFI: “Agora relativamente à regionalização: nas últimas legislativas o MpD comprometeu-se a avançar com este dossier se ganhasse. Como é que estão as coisas? Estão paradas...”

Ulisses Correia e Silva: “Claro, nós fizemos aquilo que devíamos fazer e fizemos. Apresentámos uma proposta de lei devidamente fundamentada. A lei da regionalização exige dois terços de votos favoráveis no Parlamento, o PAICV votou contra, a lei não foi aprovada, foi chumbada.”

RFI: “E agora, se conseguir nova legislatura, vai avançar com a regionalização?”

Ulisses Correia e Silva: “Vai depender. Vai depender daquilo que tivermos em termos de figurino parlamentar e dependerá sempre da oposição porque o governo sozinho, o MpD sozinho, não consegue passar uma lei de dois terços.”

RFI: “A questão da segurança em Cabo Verde, nomeadamente na Cidade da Praia, era uma das bandeiras de campanha nas últimas eleições. Como está a situação agora e o que promete?”

Ulisses Correia e Silva: “Melhorámos significativamente e os dados demonstram isso. A nível de ocorrências criminais, a taxa de homicídio por cem mil habitantes reduziu de 8,8 em 2016 para 6,4 em 2020, o que já demonstra um progresso significativo. Há mais tranquilidade. Nós investimos em mais e melhores condições para as forças policiais, meios, equipamentos, condições salariais, investimos em meios de videovigilância – o projecto Cidade Segura que já existe na Praia, no Sal, na Boa Vista e em São Vicente.

Temos estado a investir numa outra parte que é importante que é a segurança para a cidadania ou a cidadania para a segurança. Tem a ver com um conjunto de medidas que abarcam desde a redução do abandono escolar, maior permanência dos jovens e das crianças e adolescentes nas escolas, a reinserção dos ex-detidos, uma actuação muito forte sobre a lei e com a lei do álcool para reduzir  situações que estão muito prevalecentes, crimes ligados ao alcoolismo e à droga, um conjunto de acções que têm estado a ser desenvolvidas e que têm hoje reflexos na redução dos índices de criminalidade.”

As últimas eleições legislativas em Cabo Verde ocorreram a 20 de Março de 2016, com o MpD a vencer com maioria absoluta, ao eleger 40 deputados, o PAICV 29 deputados e a UCID três deputados. 

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