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"Temos um povo sofredor que está à nossa espera para mudar de vida"

Áudio 06:35
Abel Bom Jesus é candidato independente às eleições presidenciais de São Tomé e Príncipe marcadas para o próximo dia 18 de Julho.
Abel Bom Jesus é candidato independente às eleições presidenciais de São Tomé e Príncipe marcadas para o próximo dia 18 de Julho. © Abel Bom Jesus

Abel Bom Jesus é candidato independente às eleições presidenciais de São Tomé e Príncipe marcadas para o próximo dia 18 de Julho e nas quais participam 19 candidatos. Em entrevista à RFI, o candidato admite ter "um povo sofredor que está à nossa espera para mudar de vida".

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Porque é que decidiu candidatar-se ao cargo de Presidente da República de São Tomé e Príncipe?

Eu sou agricultor de profissão e empresário, mas por ser uma pessoa que também é activista social e que tem trabalhado muito em questões sociais, vejo o grito da sociedade a pedir-me socorro em diversas áreas que têm enfermado o país.

Vendo o grupo de candidatos que estão a concorrer, eu vi que lá não têm o candidato que pode trazer esperança e coisas novas. São os mesmos candidatos que estão à frente do poder político ao longo dos 46 anos.

Precisamos de alguém que possa trazer coisas novas e fazer a diferença. Isto conduziu-me a concorrer às eleições presidenciais.

O senhor diz que “quer promover o crescimento de São Tomé e Príncipe”. Qual é que é o seu projecto para o país e para a diáspora?

O meu projecto é um projecto vasto porque no meu manifesto eleitoral tem lá a participação dos filhos de São Tomé e Príncipe em 12 países do mundo. Se eu quiser ajudar a construir o país, eu preciso de ter a ajuda de todos os são-tomenses, de todas as religiões, de todas as forças políticas e da sociedade civil.

Essa é a razão pela qual eu fui buscar os são-tomenses que estão fora, que estão cá para me ajudar na preparação deste manifesto eleitoral. Nós vamos, numa primeira fase, dar ênfase ao desenvolvimento de São Tomé e Príncipe com aquilo que são os primeiros recursos que nós temos e que estão disponíveis. É o caso da agricultura, pescas, pecuária, turismo e também os outros serviços que podemos prestar a outras pessoas ao nível da costa, tendo em conta a localização geoestratégica de São Tomé e Príncipe.

O abuso sexual, a violência doméstica, o consumo de droga e álcool e a corrupção são flagelos que atingem o país. O que pode fazer o chefe de Estado para resolver estes problemas?

Para resolver estes problemas nós temos de promover uma governação mais servidora dos mais desfavorecidos porque nós temos um país onde temos uma taxa de desemprego muito elevada.

Nós temos estado a andar nas comunidades com um grupo de vinte jovens, em que cinco estão empregados e quinze estão desempregados. Temos de encontrar forma de ocupar esses jovens com emprego, mas acima de tudo motivando-os a empreenderem para poderem criar o seu próprio negócio e empregarem outras pessoas.

Ao nível da corrupção, nós sabemos que a corrupção está ao mais alto nível, o que também acaba influenciando a camada baixa. Hoje em dia, temos de procurar ter um sistema de justiça funcional para começar a penalizar essas pessoas que têm estado com essas más práticas, que têm prejudicado o nosso país. A melhor forma de fazê-lo é envolvendo todas as partes, desde os tribunais, o governo e a assembleia para podermos sentar juntos e ver como é que podemos combater isso porque é uma das questões que tem atrasado São Tomé e Príncipe.

São Tomé e Príncipe é considerado como um dos países mais pobres do mundo e também como um dos mais endividados, sendo que 50% do Produto Interno Bruto (PIB) é assegurado pela comunidade internacional. A situação agravou-se com a pandemia da Covid-19. Que papel deve exercer o chefe de Estado para reduzir esta dependência?

Eu não partilho a ideia de que São Tomé e Príncipe é um país pobre. O país tem muitos governantes que não conseguem valorizar a sua riqueza porque nós temos água e terra. Essa é a maior riqueza que um país pode ter, para além da primeira riqueza que é o povo. O povo é que é a maior riqueza que um país tem.

Se nós não temos bons gestores para conseguirem fazer a gestão desses grandes recursos que o país tem, este é o momento. Eu acredito porque sou agricultor e valorizo a terra. Na minha trajectória na agricultora, eu vim lá de baixo e hoje sou um empresário de sucesso no ramo agrícola. Eu quero levar o meu exemplo a outros são-tomenses.

Desde que nós comecemos a produzir o nosso próprio produto interno e a exportar, nós vamos começar a dar os primeiros passos para o desenvolvimento.

Agora, o país vive de mão estendida, só a pedir. Nós pedimos e não temos nada para dar, em contrapartida. Este é o atraso que o país tem tido. Temos de promover o ambiente de trabalho e gerar oportunidade para as pessoas poderem vir aqui para São Tomé e Príncipe, para poderem investir.

O investidor chega a São Tomé e Príncipe e é barrado porque os são-tomenses, sobretudo pessoas da elite, querem ser sócios sem meter dinheiro. Também é corrupção e isso tem estado a prejudicar-nos muito.Muitos empresários vêm com a ideia de construir uma fábrica, uma loja e é só burocracia e eles são obrigados a ir embora.

Eu na presidência acabarei com isso porque sempre pressionarei o governo quando for necessário para que seja mais transparente nessa política.Temos um povo sofredor, que há 46 anos está à nossa espera para mudar a vida dele.

Em São Tomé e Príncipe, muitos dos poderes estão na mão do primeiro-ministro. Se for eleito chefe de Estado, a sua presidência será marcada pelas boas relações com o chefe do executivo, mesmo na eventualidade de este poder ser de outra família partidária?

A ser eleito Presidente da República, a primeira coisa que farei é colocar acima de tudo o interesse do meu povo, do povo que me elegeu. Eu não estou lá para poder fazer a minha vontade e de governo nenhum.

Eu trabalharei com o governo de modo que o povo conheça resultados, mas quando der conta que o governo não está lá a trabalhar para o bem-estar colectivo do povo, eu chamarei o primeiro-ministro à razão e, se for necessário, tomarei medidas porque o Presidente da República também tem algumas prorrogativas que lhe dá esse direito porque ele é o chefe de Estado. Ele é a pessoa que regula as instituições do Estado. Nós não podemos ter um governo que não está lá para servir o povo.

Acredita que será o próximo Presidente da República de São Tomé e Príncipe?

Acredito sim porque sou um candidato que representa 85% da população de São Tomé e Príncipe e, como tal, se o meu povo está a gritar pela mudança e quer realmente ter essa mudança, eu sou o candidato ideal.

Eu não venho de nenhuma força política. Normalmente, aqui na nossa sociedade, temos casos de Presidentes que são eleitos pelos partidos políticos e quando chegam lá têm de fazer a vontade dos partidos políticos. Eu não serei esse Presidente.

Eu serei um Presidente que trabalharei sim com os partidos políticos, mas estarei lá para defender o povo que me elegeu. É uma das vantagens que eu tenho relativamente aos outros candidatos. Eu acredito que serei vencedor, aliás, só pelo facto de ter concorrido a estas eleições, já me sinto vencedor.

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