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"Eleição mostra maturidade" dos são-tomenses"

Áudio 07:52
Olívio Diogo, analista político são-tomense.
Olívio Diogo, analista político são-tomense. © RFI

Carlos Vila Nova, candidato da Acção Democrática Independente, vai disputar a segunda volta das eleições presidenciais com Guilherme Posser da Costa, candidato do MLSTP PSD. O analista político Olívio Diogo considera que a primeira volta das eleições presidenciais, que teve lugar no domingo, mostrou a maturidade do eleitorado são-tomense.

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RFI: Que análise faz dos resultados da primeira volta das eleições presidenciais?

Olívio Diogo: Foi uma eleição de lição, porque o povo são-tomense mostrou a sua maturidade, o povo são-tomense mostrou que está destinado a eleger aqueles candidatos que trazem alguma diferença para a sua vida e não aqueles que ao longo da campanha vêm oferecendo coisas.

A outra lição que se deve tirar desta eleição é que o fenomeno banho tem de desaparecer. O povo são-tomense demonstrou civismo, transformou a eleição numa festa.

Uma segunda volta com o candidato Carlos Vila Nova e Guilherme Posser da Costa era previsível?

Se formos analisar os resultados das últimas eleições legislativas era previsível. A ADI ficou em primeiro lugar, o MLSTP-PSD ficou em segundo lugar e em terceiro lugar ficou o MDFM-PCD. Mas se analisarmos os factos do desenrolar da campanha eleitoral não era previsível. Na campanha eleitoral o Delfim Neves mostrava muita mais pujança, mostrava muita mais gente em torno da sua candidatura, o que podia prever que uma segunda volta seria entre Vila Nova e Delfim.

O Candidato Vila Nova via-se claramente que, se houvesse uma segunda volta, ele estaria presente, porque ele pertencia a um eixo diferente de Guilherme Posser da Costa e de Delfim Neves.

O candidato Delfim Neves fala em fraude massiva e assegura que vai contestar os resultados. O que é que a lei eleitoral prevê nesta situação?

A contestação é um direito que assiste a qualquer candidato. A lei diz que a contestação deve ser feita na mesa de voto, são os candidatos dos partidos políticos que indicam os membros que estão na mesa, são eles que indicam os delegados.

O candidato Delfim Neves diz que como eram 19 candidatos apenas cinco delegados podiam estar na mesa e que não podia contestar uma mesa onde ele não estava presente.  

Fazia parte das regras do jogo. Tendo 19 candidatos, a lei prevê que só pode haver cinco delegados por mesa, não se podia fazer outra coisa. O Candidato Delfim Neves, sabendo de antemão que haveria os cinco delegados, tinha de criar outros mecanismos de segurança e vigilância das mesas onde ele não tinha delegados.

Ele deixou as coisas desenrolarem e agora está a catapultar para uma contestação que viola o que diz a Constituição no que refere à contestação.

A ver vamos, é um direito que lhe assiste, vamos ver até onde vai a sua contestação.

Delfim Neves é o grande perdedor das eleições presidenciais? 

Delfim Neves é o grande perdedor, tendo em conta a estratégia que ele apresentou para esta campanha. Apresentou uma proposta errada, apostou numa campanha de esbanjar dinheiro para pessoas que são de outros partidos, sobretudo pessoas do ADI. Ele foi comprar para pôr ao seu lado, dando dinheiro para votar nele.

A segunda estratégia errada de Delfim Neves foi ter distribuído cabazes. Nós passamos uma época de pandemia em que as pessoas precisavam, Delfim Neves não deu nenhum cabaz.

Delfim Neves perdeu essa eleição clara e inequívoca e é preciso que ele tire elações daquilo que foi o seu resultado nessas eleições daqui para a frente.

 

Que alianças políticas poderão ser feitas nas próximas semanas?Guilherme Posser da Costa pode vir a beneficiar dos votos que arrecadaram os outros candidatos do MLSTP-PSD?    

Não é certo que o candidato que vier apoiar Guilherme Posser leve consigo os seus eleitores. Os são-tomenses não são tão alinhados assim.

Agora se o Guilherme Posser da Costa vier a arrecadar o eleitorado que apoiou Delfim Neves [sairá beneficiado].

Outra coisa que é preciso perceber é como é que se vai posicionar a cúpula do MLSTP-PSD. O MLSTP-PSD partiu para esta eleição com vários candidatos (Maria das Neves, Elsa Pinto, Jorge Amado, Victor Monteiro e Aurélio Martins) é preciso saber como é que Guilherme Posser da Costa vai estabelecer laços, vai tentar negociar para obter apoio destes candidatos.

Nesta primeira volta Abel Bom Jesus obteve 2907 votos, ele é a grande surpresa destas eleições?

Abel Bom Jesus é a grande surpresa, outro grande vencedor dessas eleições. Foi a primeira vez que ele se apresentou nas eleições e obteve mais de 2 mil votos e nunca esteve na política.

O grande apoio de Abel Bom Jesus veio da diáspora. A disporá são-tomense mandou uma clara mensagem aos políticos para perceberem que realmente têm de dar atenção àquilo que eles não dão atenção. Isto é mostrar que há muita gente, sobretudo na diáspora, que não aposta mais nos políticos tradicionais.

Abel Bom Jesus poderá fazer uma indicação de voto?

É natural que Abel Bom Jesus vá fazer uma indicação de voto, não há grande surpresa. Abel Bom Jesus foi militante da ADI, tudo indica que ele vai fazer a sua indicação de voto a favor de Carlos Vila Nova.

Nesta primeira volta a abstenção rondou os 30%, este resultado indica que os são-tomenses estão desiludidos com os políticos?

Eu fiquei surpreendido com os números da abstenção. Este resultado demonstra que os são-tomenses declinaram o crédito que têm em relação aos políticos. Esta é outra lição que devemos tirar desta eleição.

Outro aspecto que queria deixar claro é que o candidato Guilherme Posser da Costa e o candidato Vila Nova têm de partir agora para o terreno para atrair um conjunto de eleitores para obter uma vitória nas eleições, sem vir com a mesma situação que está agora a levantar Delfim Neves, referindo que houve fraude. Em São Tomé e Príncipe não há fraude.

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