27 de Maio: Sobreviver “ao inferno” do Campo da Calunda

Áudio 11:51
Luanda, 14 de Julho de 2021.
Luanda, 14 de Julho de 2021. © Carina Branco/RFI

Moisés Marçal é um dos sobreviventes do 27 de Maio de 1977,em Angola, e esteve três anos no Campo da Calunda. Ali estariam 5.000 homens, 900 teriam sobrevivido. Uns “morreram a tiro”, outros “à fome”, outros quando tentavam “ir à lavra procurar mandioca”. O antigo militar faz hoje parte da direcção da Fundação 27 de Maio e vê como conquistas as medidas iniciadas e prometidas pelo governo, mas quer ver para crer.

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Comeu camaleão e não sabe muito bem como saiu dali vivo. Moisés António da Silva Marçal é um dos sobreviventes do Campo da Calunda, “um inferno” onde estariam 5.000 homens e apenas 900 teriam sobrevivido. Hoje, o antigo militar é membro da direcção da Fundação 27 de Maio, diz que perdoou aos que o torturaram e vê como conquistas da fundação os passos dados pelo governo angolano em memória das vítimas.

Onde é que estava no 27 de Maio de 1977?

“Aquando do 27 de Maio de 1977, na altura eu era militar da 1ª Região Político-Militar, fui o chefe de operações do segundo batalhão da 1ª Região. Em Março de 1977, sofro uma emboscada e fui evacuado para o hospital militar de Luanda, onde fico internado durante o mês de Maio, e no dia 9 de Junho tive alta. Devido aos acontecimentos do dia 27 de Maio, como obrigação, todo o soldado vindo das regiões do interior, ao regressar à região teria que passar pelo ministério da Defesa com o objectivo de visar a guia. Tendo tido alta no dia 9, no dia 10 de Junho dirigi-me ao ministério e dali acabei por ir preso pelo simples facto de pertencer à 1ª Região Militar. Isto porque Nito Alves, que se considerava o cabecilha da intentona, como lhe chamavam...”

Há quem fale em “inventona”...

“Pode ser, sim senhora, 'inventona' do 27 de Maio. O Governo pejorativamente utiliza 'intentona golpista do 27 de Maio' mas, na verdade, coisa nenhuma era porque num acto de um golpe de Estado não participam civis, não participam mulheres grávidas. Um golpe de Estado é preparado por um punhado de oficiais, sejam eles superiores, subalternos ou generais de forma restrita, e executam a missão. O que aconteceu não foi isso.”

Mas estava-me a contar que pertencia à 1ª região político-militar de Nito Alves...

“Sim, era a região do Nito Alves. Nito Alves é filho da província do Cuanza Norte, que depois passou a ser Bengo, a chamada 1ª Região Político-Militar. Nito Alves andou por aqueles maquis, formou-se ali,  foi um grande dirigente e, portanto, quando aconteceu o 27 de Maio, todo o indivíduo que pertencia à 1ª Região era logo conotado. Eu naquela altura, como chefe das operações de um batalhão, estando aqui em Luanda... Aliás, ali nem havia escolha: todos os militares que não se encontravam aquartelados, fossem dispensados ou não, aquilo havia uma recolha que foi uma coisa terrível. No dia 13 de Junho, fui levado para Luena, em Moxico, onde fico durante três anos.”

Em que campo é que ficou, em que prisão?

“Eu fiquei no Campo da Calunda, praticamente aquilo não se considerava prisão como tal porque uma prisão é uma coisa com quatro paredes. Nós ficávamos assim ao relento. Eu fiquei durante três anos em condições deploráveis.”

Quantas pessoas estavam lá?

“Repare que no Campo da Calunda éramos cerca de 5.000 homens e voltámos em vida menos de 900 indivíduos. Dos 900 indivíduos que voltámos em vida, devo-lhe dizer seguramente que hoje, se calhar, nem 500 pessoas vivem por causa dos vários sofrimentos. Porque nós passámos de tudo.”

O que é que se passou lá? O que é que você viveu?

“Nós passámos de tudo, as mortes ali era horrível, os colegas morreram a tiro, à fome... Tu passas quatro dias sem comer nada, quatro dias, e ao quarto dia vão-te dar um copo de leite aguado, o que provoca automaticamente uma disenteria. O pouco dos alimentos que o organismo ainda conservava, acaba por eliminar e tu vais à vida.

Os que tentavam, pela calada da noite – porque obviamente com a fome não se brinca – para irem à lavra dos povos roubarem mandioca, de regresso eram abatidos pelos militares.

Deixe-me regressar um bocadinho atrás: eu chego no Campo da Calunda precisamente no dia 4 de Setembro de 1970 e no dia 6 de Setembro realiza-se um comício presidido pelo chefe do campo em que estavam todas as populações dos bairros circunvizinhos para nós sermos apresentados e com a seguinte mensagem: 'Estes indivíduos é que mataram o Dangereux (...) Por essa razão eles vieram aqui para morrer. O camarada Agostinho Neto mandou-os aqui não é para voltar. Estão 25% debaixo de um cão morto.'

Fomos considerados assim e passou-se logo a mensagem à população que não tivesse medo: qualquer um de nós, onde fosse encontrado, podia ser morto, trazer um dos membros e se não tivesse coragem de cortar um dedo, uma orelha, que tirasse a roupa (...) que trouxesse uma das camisolas e tinha direito a um prémio.

Para simbolizar, pegaram em três colegas nossos, três, cada um é que cavou a sua sepultura. Cada um cavou a sua sepultura. Vai cavando, vai deitando-se na sua sepultura e lhe perguntam: 'Está à tua medida?' Depois disso, perfilaram os três cada um em direção à sua sepultura, a população toda lá perfilada, todos os presos que eram uma multidão, o chefe proferiu as palavras de ordem aos guardas do campo. Dividiram dez por cada indivíduo para fuzilar. Dez armas apontadas no indivíduo. Quando o chefe fez o primeiro disparo de pistola, deu ordem ao disparo, cada dez indivíduos apontavam num só. Mesmo assim, como se não bastasse, cada dez correram até ao buraco onde o indivíduo caiu para descarregar todas as munições. Aquilo é horrível e nenhum de nós podia deitar uma lágrima. A partir dali começou o nosso inferno, começou o nosso inferno...”

Que episódios mais o marcaram física e psicologicamente?

“Só de ver tantos colegas a morrer, cada um esperava a sua hora, éramos mais mortos que vivos porque não sabíamos a que hora vais viver e a que hora vais morrer. Isso até hoje deixou-me marcas psicologicamente. Muitas sequelas.

Eu comi camaleão, o camaleão que é altamente venenoso. Eu comi como? Porque nós comíamos de tudo o que nos aparecesse, de tudo mesmo. De tudo.  Raiz, bastava saber que esta raiz é mole e tu comes só para beber água. Aquele campo não sei se foi um campo onde já se matava gente na era colonial mas havia muitas ossadas dispersas e, ao princípio, era procurar aqueles ossos para meter no fogo de aquecer e tentar mastigá-lo para beber um bocadinho de água. É horrível, é horrível.

Aliás, foi-nos dito assim: vocês vieram aqui, quem sair daqui em vida e voltar a ver a sua família é porque vai estar com uma nova vida, vai levar uma nova certidão de nascimento escrita com tinta branca e em papel branco. Já imaginou: num papel branco, a escrever com tinta branca, era o recado da morte. O que mais me marcou não é o sofrimento em si, é a morte dos outros.”

Como é que sobreviveu a três anos de tortura?

“Deus escreve direito em linhas tortas. Até hoje devo dizer que não sei como foi possível sair vivo no meio daquelas mortes todas. Mas a verdade é que aguentei aquele sofrimento, comi de tudo, a ponto de comer até o camaleão, tentando manter a vida.”

Sente-se culpado por estar vivo?

“Não, não me sinto culpado coisa nenhuma. Pelo contrário, dou graças a Deus, consigo dar o testemunho dos outros que morreram inocentemente e procuro forma de honrar as suas memórias. Por essa razão é que hoje sou membro activo da direcção da Fundação 27 de Maio. A vida não se compra mas, pelo menos, que haja um pouco de dignidade para aqueles que estão em vida, como é o meu caso,  para os familiares que perderam os seus parentes e muitos dos órfãos que hoje não sabem nem o A, B, C no tamanho das suas cabeças porque foram mutilados dessa vontade e desejo de se poder formar por causa da morte dos seus pais praticada pelo governo de então liderado por Agostinho Neto.”

Faz parte da Fundação que integrou a Comissão de Reconciliação, a CIVICOP. Significa que perdoou os seus algozes?

“Estão perdoados, nos perdoamos ambas as partes. Não há mal que dure. Não foi muito fácil, repare que a fundação foi fundada em 2001, a fundação foi tentando na base dos seus princípios estatutários negociar com o governo, chamar o governo à razão para se encontrar a solução do problema.

Conseguimos muitos dos pontos por nós apresentados. Hoje, já se emitem certidões de óbito; o Komba, que será o último elemento, também está garantido. Temos o problema dos ex-militares, como foi o meu caso e outros, para a sua inserção na caixa de segurança social; o Presidente no dia 26 [de Maio] anunciou a entrega das ossadas dos nossos ex-companheiros, dos nosso comandantes e comissários. À parte isso, os elementos também da UNITA que morreram nos confrontos pós-eleitorais.

Para nós foi uma grande satisfação porque é a nossa preocupação, é o nosso desejo, é o nosso objetivo para que aquelas ossadas sejam entregues à família, que se cumpram os nossos rituais, um óbito só termina com o enterro do cadáver. Não havendo corpo como tal, mas a entrega das ossadas à família sob auspício da fundação, para nós já é muito bom.

Esperamos que o governo não faça isso para inglês ver porque nessa altura, desde a realização da homenagem no dia 27 de Maio, estávamos notando que o comboio estava parado e fomos recebendo várias críticas da sociedade pensando que nós nos vendemos.”

Moisés Marçal acredita que Angola se vai, finalmente, conseguir reconciliar:

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