Atentados de 13 de Novembro: “Não há dia em que acorde sem pensar nisso”

Áudio 09:47
Sala onde vai decorrer o julgamento no Palais de Justice, em Paris. 4 de Junho de 2021.
Sala onde vai decorrer o julgamento no Palais de Justice, em Paris. 4 de Junho de 2021. © AFP - THOMAS SAMSON

No dia 8 de Setembro vai arrancar, em Paris, o julgamento dos atentados de 13 de Novembro de 2015. A RFI falou com algumas das vítimas portuguesas sobre o que esperam do processo e como estão hoje. Começamos com Patrícia Medeiros que era gerente do restaurante Comptoir Voltaire, um dos locais visados pelos atentados. Desde então, ela teve de mudar de vida, trocar de profissão e aprender a controlar o medo. Patrícia não vai depor no julgamento, mas vai ser representada pelo seu advogado.

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Depois dos atentados, Patrícia Medeiros passou meses e meses fechada em casa. Fez terapia e aprendeu a dar ordens a si própria para lidar com as lembranças e o medo que nunca a deixaram. Hoje, a antiga gerente do restaurante Comptoir Voltair - onde um jihadista se fez explodir na esplanada  na noite de 13 de Novembro - não parece a mesma pessoa que há uns anos nos dava uma entrevista com voz trémula e um olhar vazio de esperança. A conversa acontece ao lado do seu novo trabalho, uma loja num centro comercial nos arredores de Paris.

Patrícia decidiu que não vai depor no julgamento que arranca no dia 8 de Setembro, mas vai ser representada pelo seu advogado. Inicialmente, o objectivo era estar presente, mas à medida que o processo se aproximava, começaram “certos pesadelos” e o receio de se encontrar no tribunal e ver Salah Abdeslam, irmão do jihadista que se fez explodir no seu restaurante e que aí o teria deixado de carro.

Passados quase seis anos, Patrícia Medeiros ainda está a reconstruir-se: “Podia estar pior. Estive quase dois anos e meio fechada, mas decidi que esse tipo de monstros não iam decidir a minha vida, mesmo se ainda hoje não estou curada.

É um trabalho diário e sei que vai durar anos. Tenho de me falar a mim mesma e isso ajuda-me porque quando tenho crises de pânico, começo logo a tremer e a única maneira que tenho é falar-me a mim mesma e dizer que não há perigo. É um trabalho diário porque não há um dia em que acorde sem pensar nisso, não há uma noite que consiga ficar a dormir sem pensar nisso.

Para ultrapassar o que aconteceu, teve de se “desenrascar” porque “o Estado francês não estava preparado para isso”. Patrícia arregaçou as mangas e começou a fazer terapia, muita dela paga do seu bolso devido à falta de ajudas.

Sobre aquela noite, lembra-se “como se fosse ontem” e “não há nenhum detalhe” que lhe escape.

Os atentados de 13 de Novembro de 2015, junto ao Stade de France em Saint-Denis, em esplanadas de cafés e na sala de concertos do Bataclan, em Paris, provocaram a morte a 130 pessoas e foram reivindicados pelo autodenominado grupo do Estado Islâmico.

No banco dos réus vão estar suspeitos de envolvimento nos atentados, assim como o único elemento do comando jihadista dessa noite, ainda vivo, Salah Abdeslam. O seu irmão, Brahim, fez-se explodir na esplanada do Comptoir Voltaire e Salah Abdeslam abandonou o colete de explosivos durante a noite por razões desconhecidas. É descrito como um amigo de infância de Abdelhamid Abaaoud, o coordenador de vários atentados na Europa e o principal comandante operacional do 13 de Novembro que morreu durante uma operação policial dias depois.

Salah Abdeslam foi detido na Bélgica a 18 de Março de 2016 e aí foi condenado a 20 anos de prisão por ter disparado contra polícias dias antes da sua detenção. Ele deverá, também, ser julgado, provavelmente no final de 2022, pelo duplo atentado que fez 32 mortos em Março de 2016 no aeroporto e no metro de Bruxelas.

O julgamento arranca no dia 8 de Setembro e, de acordo com o calendário provisório, deverá prolongar-se até 25 de Maio de 2022.

Entrevista a Patrícia Medeiros

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