Atentados de Paris: “Com estas pessoas, que justiça se pode fazer?”

Áudio 09:26
Paula Vieira, vizinha do Bataclan. Paris, 8 de Junho de 2021.
Paula Vieira, vizinha do Bataclan. Paris, 8 de Junho de 2021. © Carina Branco/RFI

Paula Vieira mora ao lado do Bataclan e ainda não superou os atentados de 13 de Novembro de 2015. Perante o arranque do julgamento dos ataques, a portuguesa não tem qualquer expectativa que se faça justiça porque “com estas pessoas, que justiça se pode fazer?” 

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Quase seis anos depois dos atentados de 13 de Novembro de 2015 em Paris, e na véspera do arranque deste julgamento histórico, como estão as pessoas que viveram de perto os ataques e o que esperam do processo? 

Paula Vieira ainda não ultrapassou o que aconteceu e admite que isso nunca irá acontecer. “Acho que me marcou para a vida. Ainda não superei isso e não sei se algum dia vou superar”, resume. 

A portuguesa mora ao lado do Bataclan, no Boulevard Voltaire, num prédio que também tem uma porta para a ruela Passage Saint-Pierre Amelot, por onde dezenas de pessoas tentaram fugir da sala de espectáculos na noite de 13 de Novembro.

“Ele estava aqui, em frente à minha porta, e matava. Ele teve uma senhora pelos cabelos um pouco de tempo, ela a gritar para ele a soltar e ele deu-lhe um tiro na cabeça aqui no passeio. Eu ouvia tudo, a minha casa abanava, os vidros, a televisão, as portas. Eu disse para o meu marido: ‘Eles vão entrar e vão-nos matar a todos…”

 “Ainda hoje me custa muito falar do que aconteceu e mesmo a dormir tenho a sensação que oiço as sirenes das ambulâncias e dos carros de bombeiros. Custa-me a falar. É muito difícil para mim. Parece assim um nó aqui no peito…”

Nessa noite, a portuguesa, que é porteira no prédio, abriu as portas do edifício à polícia que procurava suspeitos e que usou a entrada como retaguarda para o tiroteio com os terroristas. Sob as ordens dos polícias, e depois de estes lhe terem apontado uma arma, Paula teve de se fechar em casa com o marido, onde ouviram tudo. Tudo... No final, saiu à rua e, devido ao que viu, nunca mais conseguiu voltar a passar por ali. 

Com o julgamento prestes a arrancar, Paula Vieira não tem grandes expectativas. “Com estas pessoas, que justiça é que se pode fazer? Não consigo ver como é que se poderá fazer justiça. Para mim não são pessoas, são monstros que vêm matar pessoas inocentes, pessoas que se estão a divertir. Como é que é possível isso? Não consigo entender.”

 

Entrevista a Paula Vieira

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