Atentados de Paris: "Não espero nada da justiça francesa"

Áudio 06:31
Patrícia Correia, mãe de vítima dos atentados de 13 de Novembro de 2015. Paris, 22 de Junho de 2021.
Patrícia Correia, mãe de vítima dos atentados de 13 de Novembro de 2015. Paris, 22 de Junho de 2021. © Carina Branco/RFI

Quando se perdeu tudo, o que é que ainda se pode esperar? É com este estado de espírito que Patricia Correia encara o arranque do histórico julgamento dos atentados de 13 de Novembro de 2015 em Paris. A sua filha, Precilia Correia, na altura com 35 anos, foi uma das 90 pessoas que morreu no Bataclan. Patricia vai depor no processo mas não espera “nada” da justiça francesa.

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Patricia Correia é mãe de Precilia Correia, uma jovem francesa com origens portuguesas que morreu no atentado ao Bataclan. Desde então, Patricia tem lutado para manter viva a memória da filha e de todas as vítimas dos ataques terroristas de 13 de Novembro de 2015, sendo vice-presidente da Associação 13onze15.

Patricia Correia não tem grandes expectativas com o julgamento, mas faz questão de depor em memória da filha e do seu namorado que também morreu no ataque ao Bataclan.

Não estou à espera de nada do processo. O processo é muito importante porque vai ficar na história de França e para escrever a memória de todas as pessoas que foram assassinadas e para proteger a memória de todos (…) A justiça vai servir para a nossa história, mas para mim não vai servir para nada. Não espero nada da justiça francesa porque a prisão perpétua não existe em França. São 30 anos e depois os jihadistas saem da prisão. E depois, o que se passa?”, questiona.

Patricia lamenta que tenha sido necessário esperar seis anos para que o julgamento arranque e admite que “ninguém está preparado” para um processo tão doloroso em que se vai “reviver outra vez” tudo. Porém, é uma etapa necessária para o luto e para a memória. Questionada sobre se não receia confrontar os alegados cúmplices dos atentados, a mãe de Precilia resume: “Não tenho nada a perder. O mais precioso que perdi foi a minha filha.”

 

Entrevista a Patrícia Correia

 

Os atentados de 13 de Novembro de 2015, junto ao Stade de France em Saint-Denis, em esplanadas de cafés e na sala de concertos do Bataclan, em Paris, provocaram a morte a 130 pessoas e foram reivindicados pelo autodenominado grupo do Estado Islâmico.

No banco dos réus vão estar suspeitos de terem planeado os atentados, assim como o único elemento do comando jihadista dessa noite, ainda vivo, Salah Abdeslam. O seu irmão, Brahim, fez-se explodir na esplanada do Comptoir Voltaire e Salah Abdeslam abandonou o cinto de explosivos durante a noite por razões desconhecidas. É descrito como um amigo de infância de Abdelhamid Abaaoud, o coordenador de vários atentados na Europa e um dos principais comandantes operacionais do 13 de Novembro que morreu durante uma operação policial poucos dias depois.

Salah Abdeslam foi detido na Bélgica a 18 de Março de 2016 e foi aí condenado a 20 anos de prisão por ter disparado contra polícias dias antes da sua detenção. Ele deverá, também, ser julgado, provavelmente no final de 2022, pelo duplo atentado que fez 32 mortos em Março de 2016 no aeroporto e no metro de Bruxelas.

O julgamento arranca no dia 8 de Setembro e, de acordo com o calendário provisório, deverá prolongar-se até 25 de Maio de 2022.

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