Filho de vítima dos atentados vê julgamento como “circo mediático”

Áudio 07:30
Placa de homenagem a Manuel Dias. Stade de France, Saint-Denis. 13 de Novembro de 2016.
Placa de homenagem a Manuel Dias. Stade de France, Saint-Denis. 13 de Novembro de 2016. AFP - PHILIPPE WOJAZER

Esta quarta-feira, 8 de Setembro, arranca o julgamento dos atentados de 13 de Novembro de 2015 na região de Paris. Michaël Dias, filho da primeira vítima dos ataques dessa noite, não pretende assistir ao processo porque o vê como “mais um circo mediático” que não vai despertar qualquer reflexão global sobre as origens do terrorismo.

Publicidade

Foi durante a homenagem ao pai, um ano depois dos atentados de 13 de Novembro de 2015, que Michaël Dias surpreendeu com um discurso em que defendia a tolerância e em que não disseminava palavras de vingança contra os terroristas que mataram o pai. Manuel Dias foi a primeira vítima mortal dessa noite, junto ao Stade de France, em Saint-Denis, nos arredores de Paris. 

Nesse discurso, Michaël dizia que os que perpetraram os atentados são apenas “carne para canhão ao serviço de interesses obscuros”, “incapazes de pensar e exprimir a exclusão social” de que são alvo. E deixou a mensagem, que herdou do seu pai, que para viver sem medo e em liberdade, é preciso parar de estigmatizar o outro e dar acesso ao conhecimento a todos.

Hoje, é com olhar imperturbável e palavras duras que Michaël Dias remata o assunto logo nas primeiras respostas: não, não pretende assistir ao julgamento dos atentados de 13 de Novembro de 2015 porque o vê como “mais um circo mediático”. Acima de tudo, não acredita que o processo desperte qualquer reflexão global sobre as origens do terrorismo para o travar e impedir que a história se repita.

“Não. Porque estou um bocado desligado de tudo o que pode estar a acontecer na actualidade em relação a essa temática e também não acho que vá mudar seja o que for. Porque será um circo mediático durante uns quantos dias, umas quantas semanas e depois - mesmo que haja condenação, que deverá haver – não vai mudar nada nem vai iniciar uma reflexão sobre as origens do terrorismo, o que é que esteve na origem do que aconteceu ao meu pai e dos outros actos terroristas”, começa por explicar.

Michaël preferia que em vez de se falar de "dever de memória" e de "histórias de sofrimento ligadas ao terrorismo”, as pessoas tivessem “um sentimento mais crítico em relação ao terrorismo”. “O que me interessava era que houvesse mais essa genealogia, essa procura pelas origens, pelos interesses que estão por detrás de tais actos de terrorismo”, reitera.

O jovem de 36 anos avisa que não se vai sentir “aliviado pelo tipo de condenação que será aplicado” e que não está “à espera de nada” por parte da justiça. Quanto a ele, quer apenas fazer o seu luto “como qualquer pessoa” porque, seja qual for o desfecho do julgamento, isso “não vai trazer de volta” o seu pai. 

Michaël acrescenta que obviamente ninguém sai intacto de um atentado, mas que se tem simplesmente de “tentar reconstruir a vida quando isso é possível”. 

Oiça a entrevista neste programa.

Entrevista a Michaël Dias

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Acompanhe toda a actualidade internacional fazendo download da aplicação RFI