Carlos Vila Nova teme fraude eleitoral

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Carlos Vila Nova, apoiado pela ADI, é um dos dois candidatos que concorre à 2ª volta das eleições presidenciais de São Tomé e Príncipe.
Carlos Vila Nova, apoiado pela ADI, é um dos dois candidatos que concorre à 2ª volta das eleições presidenciais de São Tomé e Príncipe. LUSA - NUNO VEIGA

Carlos Vila Nova, apoiado pela ADI, é um dos candidatos à 2ª volta das eleições presidenciais de São Tomé e Príncipe. Em entrevista à RFI, o candidato mostra-se confiante, mas receia fraude eleitoral.

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O senhor afirma que a sua candidatura representa a ruptura com o estado actual do país. Quais é que são as suas principais prioridades para São Tomé e Príncipe?

As minhas principais prioridades são romper com essas más práticas que acabou de anunciar que grassam a nossa sociedade e devolver a esperança aos são-tomenses que clamam por ela. Eu sinto isso todos os dias e isso move-me. Faz com que eu tenha esse sentimento de lutar com elas para que nós almejemos esse objectivo de romper com essas prácticas e combater a miséria, a injustiça, as perseguições, o ódio, ao devolver a esperança e trazer às pessoas um formato mais inclusivo: estarmos mais próximos delas, ouvi-las, preocuparmo-nos com elas e respeitá-las.

Uma das suas prioridades é a reforma do sector da justiça. De que forma é que pensa implementar esta reforma?

Eu tenho dito que o sector da justiça é o denominador comum em termos de transversalidade da nossa sociedade, dos males que nos grassam. É por isso que empenhar-me-ei afincadamente com todos os actores porque no sistema da justiça há bons actores. Os actores não são maus, mas o sistema não funciona, não tem tranquilizado os cidadãos, não tem servido o povo.

Com todos os actores e todas as instituições, mesmo com os órgãos de soberania, nós estabeleceremos, por iniciativa do Presidente, um diálogo que leve a uma análise e a uma reforma profunda que possa reverter e fazer da justiça algo que sirva e que tranquilize os cidadãos, em que eles possam voltar a confiar para o bem do nosso país e do nosso povo.

Considera que a política externa está sem rumo. Qual é que será a sua estratégia para relançar o país?

Aí, tratando-se de um sector partilhado pelo Presidente da República e pelo Governo, pelo estado actual das coisas, de facto é preciso parar, redefinir, redimensionar e traçar uma estratégia. Eu tenho dito que essa estratégia não será uma estratégia única do Presidente, mas ela será definida em parceria/conjunto para que possamos levar a imagem do país, de facto, além-fronteiras, mas uma imagem positiva.

O que está a acontecer é que as próprias pessoas que representam o Estado, as instituições, através delas vê-se o país. Se as suas imagens são negativas, elas podem, de forma pejorativa, também ser transmitidas para o país.

Há um imiscuir de funções que ninguém percebe no que é área do Governo, que são as outras instituições, as nomeações de funcionários altos ao nível consular que ninguém percebe como é que estão sem conhecimento do chefe do governo, portanto, essas coisas todas vão parar. Nós temos de ver também ao nível da nossa diplomacia.

O senhor aposta numa diplomacia económica?

Uma diplomacia económica, claro, mas num conceito de win win. O mundo hoje tem blocos. Nós sabemos que já não há aquele mundo de há uns anos. Hoje há um conceito diferente. Veja-se o caso da União Europeia ou da União Africana. Portanto, o parceiro hoje é um parceiro globalizado, ao mesmo tempo que se dirige a alguém, mas tem de se enquadrar naquele conceito ou da sub-região, ou da região ou de uma região.

O senhor defende a reforma do sector das forças armadas. Alega que estas têm de estar preparadas para as novas ameaças globais. Que ameaças são essas e que reforma é que é preciso ser feita?

Hoje, no mundo em que vivemos, há alguns fenómenos que nos preocupam e que temos de nos virar para eles. O terrorismo é um deles, a pirataria marítima, sobretudo na zona onde nos inserimos, e o fluxo migratório que serve para tráfico e é um grande problema que eu acho que todos os países se devem orientar e dirigir as suas forças armadas para isso.

No caso de São Tomé e Príncipe, nós temos uma extensão marítima que é, muitas vezes superior à extensão terrestre, e aí também nós temos de redefinir a estrutura de composição do que têm sido as nossas forças armadas.

Nós não vamos acabar com este ou aquele sector, mas vamos sentarmo-nos e estabelecer uma estrutura que sirva melhor os interesses do país, face a esse mundo globalizado e às novas ameaças que existem.

São Tomé e Príncipe tem um regime semipresidencialista com pendor parlamentar. Este regime ainda se adequa à realidade do país?

Com sinceridade, pelo que se tem ouvido de retorno das pessoas dessas andanças, é discutível, mas eu candidato-me numa circunstância em que é este regime que está em vigor.

Eu tenho consciência de que não há um modelo de regime perfeito pelo mundo fora. Caber-nos-á a nós, caso exista, caso eu sinta que há uma maioria disponível para discutirmos este assunto e melhorarmos esta situação, eu terei todo o prazer em colaborar, dirigir este trabalho para que nós encontremos um modus vivendi melhor,que nos sirva e que seja menos polémico.

Há uns tempos, numa outra ocasião similar, não estava sozinho. Havia outros candidatos, na 1ª volta, e alguns até mencionaram pontos obscuros que é preciso clarificar. Estou de acordo. Se eles existem é melhor eliminá-los, é melhor resolvê-los e estou disponível para isso.

A crise política atrasou a marcação da 2º volta. Acredita que esta crise política pode, de certa forma, contribuir ainda para um aumento da abstenção?

Acho que não e digo-lhe porquê: os erros corrigem-se. Eu acho que todos nós tivemos consciência destes erros. Eles foram cometidos, se calhar, de alguma maneira premeditadamente por algum sector, mas não nos serviu de nada, só complicou a situação e criou mais clivagens. Só deu origem, no fundo, a mais revolta popular. Hoje, eu sinto por parte das pessoas, novamente neste período de campanha, uma espécie de revolta contra este facto e uma vontade maior de irem votar.

Também nos cabe a nós candidatos, no meu caso candidato, reverter esta situação com novas mensagens porque, embora a mensagem da 1ª volta tenha surtido efeito porque vencemos as eleições claramente, é preciso perceber o que aconteceu para que essas pessoas não votassem e trabalhar este sector que não votou. Temos estado a fazer esse trabalho e estou esperançoso de que se consiga reverter a situação.

Receia fraude nesta segunda volta?

Lamentavelmente, os meus opositores já nos fizeram pensar que sim porque pela vontade popular não parece que consigam chegar ao resultado que pretendem. É uma tentativa frustrada, má porque vencer umas eleições no gabinete ou por outras vias não é de todo correcto em democracia. É a voz do povo que fala mais alto, é a vontade do povo expressa nas urnas é que conta.

Eu estou muito confiante nessa vontade e nos alertas que temos feito a todas as nossas populações para seguirem de perto, para acompanharem, nas estruturas que apoiam a minha candidatura, para que elas estejam muito vigilantes porque, de facto, pelos rumores que temos sentido ultimamente, que têm circulado nas redes sociais, estamos de alguma forma apreensivos, mas sabemos que é algo que temos de trabalhar para evitar porque achamos que a única forma em democracia de ganhar eleições é pela expressão do povo nas urnas, no caso das eleições presidenciais, em sufrágio directo universal.

O senhor foi o candidato mais votado na 1ª volta. Acredita que vai ser o próximo Presidente da República de São Tomé e Príncipe?

Estou cada vez mais confiante pela forma como tenho sentido o calor dos nossos eleitores, pelo modo como as mensagens têm passado e também pela forma como nós temos estado a desmantelar as mentiras que têm sido feitas.

Vai aceitar os resultados?

Sempre aceitei os resultados. Repare que, quando no dia seguinte às eleições reclamei que haveria possivelmente votos em falta, tinha razão. De 39% passei a mais de 43%. Nunca, em nenhum momento, irei fazer afirmações que não tenha dados em que me possa sustentar. Por isso continuo a dizer. Não vou estar obcecado com a questão, mas estamos preparados, estamos apreensivos, com alguma preocupação em relação à tentativa de inverter a vontade do povo por outras vias, seja no gabinete ou por fraude.

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