“Carlos Vila Nova terá a obrigação de devolver a confiança aos são-tomenses”

Carlos Vila Nova venceu a segunda volta das eleições presidenciais com 57,54% dos votos, segundo os dados provisórios da Comissão Eleitoral Nacional.
Carlos Vila Nova venceu a segunda volta das eleições presidenciais com 57,54% dos votos, segundo os dados provisórios da Comissão Eleitoral Nacional. © Neidy Ribeiro

Carlos Vila Nova venceu a segunda volta das eleições presidenciais com 57,54% dos votos, segundo os dados provisórios da Comissão Eleitoral Nacional. Ainda de acordo com os dados da Comissão Eleitoral Nacional, Guilherme Posser da Costa, candidato do MLSTP-PSD, apoiado nesta segunda volta pelo PCD e o UDD/MDFM, obteve 42,46% da votação e a abstenção foi de 34,68%, superior à registada na primeira volta, que decorreu a 18 de Julho. 

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O sociólogo e analista Olívio Diogo considera que estes resultados eram previsíveis.

Estes resultados eram previsíveis?

O que torna previsível este resultado é o facto do terceiro candidato, Delfim Neves, mais o cúpula do MLSTP-PSD - que tinham sido candidatos- estamos a falar da Maria das Neves, Aurélio Martins, Vitor Monteiro, do Jorge Amado, nunca declararam claramente o seu apoio ao Posser da Costa.

Não tendo este grupo declarado claramente o seu apoio a Posser da Costa, sem o apoio garantido daquela gente, não conseguiu ultrapassar Carlos Vila Nova.

Nesta segunda volta, pode dizer-se que era Carlos Vila Nova contra todos. Como é que o candidato, apoiado pela ADI, se consegue impor nesta eleição?

Estou de acordo consigo, era uma eleição da ADI contra o resto. O resto é a nova maioria, que se instalou e hoje governa o país, contra Carlos Vila Nova e o ADI. Tanto é que, durante toda a campanha eleitoral, o discurso que mais se ouvia, desde Guilherme Posser da Costa, passando por Jorge Bom Jesus, até mesmo o ex-Presidente Pinto da Costa, era: salvar a democracia; salvar o país. Era uma ideia de todos contra, na perspectiva deles o mal, Carlos Vila Nova e o ADI. Mas ele consegue-se posicionar e vencer as eleições.

Esta maioria sai fragilizada?

A maioria que governa neste momento está completamente fragilizada. Devo dizer-lhe que não sei que arranjo esta maioria vai fazer, que forças anímicas vai buscar, para que dentro do próximo ano consiga obter um resultado positivo. Mesmo a coligação por si só, para aquilo que foi o desenrolar da campanha, daquilo que foram as confusões entre o candidato Delfim Neves e o governo. Portanto, sai fragilizada institucionalmente e politicamente.

Que tipo de relação terá Carlos Vila Nova com este governo?

Esta  pergunta é fundamental para este momento. Carlos Vila Nova deve ter noção que ele é um estadista, acaba de ser eleito Presidente de todos os são-tomenses. É verdade que a relação de Carlos Vila Nova com este governo tem alguns antecedentes, quando tentou viajar este governo e a justiça impediram-o de viajar, colocaram-o em prisão domiciliária, portanto ele tem este problema com essa liderança. Eu espero que Carlos Vila Nova consiga ultrapassar esta situação e que veja o país como o seu todo. 

Ele tem o direito de exigir e cobrar deste governo as acções que eles vão desenvolver, mas também é importante que Carlos Vila Nova não caia no erro de deixar cair este governo. 

Se ele o fizer, ele estará a quebrar um juramento que fez durante o debate [da segunda volta da campanha eleitoral] onde disse que nós tínhamos inaugurado um novo ciclo. Um ciclo onde os partidos que ganhassem as eleições ficariam os quatro anos [no poder]. Espero que seja essa a relação que Carlos Vila Nova venha a ter com este governo. 

Que chefe de Estado será Carlos Vila Nova? Quais serão as suas prioridades? 

Por aquilo que vimos ao longo da campanha, será um Presidente muito prudente. Será um estadista que, no meu entender, vai contribuir para que haja coesão nacional.

Carlos Vila Nova é um estadista com algum conhecimento internacional e, se conseguir criar alguma relação com o governo, irá ajudar a encontrar algumas melhorias que o país tanto precisa.  

Esperam-se reformas no sector da justiça?

Aí é que começa outro problema que ele tem nas mãos. Porque como sabe, quando esta nova maioria entrou no governo, houve muitas alterações na justiça. Houve o desmantelamento daquilo que é o Tribunal Constitucional, houve alterações no Tribunal de Justiça. Eu estou convencido que Carlos Vila Nova para ver a justiça funcionar- ele próprio pode não ter poder sobre a justiça, mas ele fará tudo possível para que haja reformas na justiça. São precisas algumas reformas no aparelho da justiça para torná-la mais credível e igualitária para todos os são-tomenses.  

Guilherme Posser da Costa é o grande derrotado nestas eleições. Muitos eleitores acusaram Posser da Costa de ter passado a campanha de Patrice Trovoada, em vez de apresentar as suas propostas ao eleitorado. Esta narrativa acabou por prejudicá-lo nesta corrida eleitoral?

Guilherme Posser da Costa foi o grande perdedor, especificamente por causa dessa narrativa. Durante toda a campanha, Guilherme Posser da Costa centralizou o seu discurso em Patrice Trovoada, que Carlos Vila Nova era um candidato imposto por Patrice Trovoada.

Esta narrativa em nada ajudou Guilherme Posser da Costa, contribuindo para que perdesse votos. Quando eu estava à espera que o Presidente do MLSTP-PSD, o primeiro-ministro Jorge Bom Jesus, viesse aglutinar com Guilherme Posser da Costa aquilo que são as acções do governo, ele opta pela mesma narrativa, contribuindo para a derrota de Posser da Costa. 

É preciso dizer que Patrice Trovoada tem um amor declarado com uma parte da população que continua vendo Patrice Trovoada como D. Sebastião, como os portugueses vêm.  

A abstenção foi de 34,68%, superior à registada na primeira volta que decorreu a 18 de Julho. Que mensagem quiseram enviar os eleitores são- tomenses?

Por um lado, tem a ver com o facto das pessoas dizerem que estão cansadas- já tinham ido votar na primeira volta- porque há muita gente que tem de se deslocar para ir votar. Por outro lado, é preciso dizer que São Tomé tem um aspecto configurativo específico e quando chove os são-tomenses não saem de casa.

No entanto, o que contribuiu para a abstenção são aquelas pessoas que já não acreditam nos políticos, não acreditam que eles vão fazer alguma diferença e por isso preferiram fazer outras coisas e não foram votar. 

Houve ainda os seguidores do candidato Delfim Neves que decidiram não votar.

Uma das missões do novo Presidente será devolver a confiança política à população?

Esta é uma obrigação que tem Carlos Vila Nova. Ele deve devolver a confiança política, mostrar à população que os políticos não são só aqueles que nós temos visto em São Tomé e Príncipe, que existem políticos que querem fazer bem.

Há um outro factor a ter em conta, que aconteceu nestas eleições; é a intervenção da diáspora. A diáspora são-tomense está muito activa, está a acompanhar com fervor tudo aquilo que se passa em São Tomé e Príncipe e os políticos devem começar a respeitá-la .

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