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Comunidade afegã em França entre "terror" e "medo" do regime talibã

Áudio 09:33
Refugiados afegãos chegam ao aeroporto Hamad, em Doha, mo Qatar, após o final das evacuações que aconteceram até ao final do mês de agosto.
Refugiados afegãos chegam ao aeroporto Hamad, em Doha, mo Qatar, após o final das evacuações que aconteceram até ao final do mês de agosto. KARIM JAAFAR AFP

Centenas de milhares de afegãos abandonaram o seu país nos últimos meses devido ao regresso do regime talibã ao poder. Em França, a comunidade afegão está aterrorizada como relata o realizador Joel Cartaxo Anjos, que realizou uma curta-metragem premiada com a actriz afegã Marina Gulbahari, obrigada a deixar o seu país em 2015 devido a não usar véu.

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Nos últimos dois meses centenas de milhares de pessoas deixaram o Afeganistão com receio do regresso do regime talibã. Após um período de evacuações auxiliadas por países como Estados Unidos ou França, saiu hoje do aeroporto de Cabul o primeiro voo comercial, num ambiente descrito como calmo pelos observadores internacionais.

Um contraste com o que se passou no final de Agosto, quando centenas de pessoas se aglomeraram à frente do aeroporto de Cabul para tentarem escapar do país antes da saída definitiva das tropas ocidentais do Afeganistão e da ascensão  efectiva dos talibã que voltaram a tomar as rédeas no país.

Em França, a comunidade afegã tem assistido "com terror" a esta ascensão temendo o ressurgimento da lei islâmica levada ao extrema e o fim dos direitos das mulheres e das crianças conquistados nas últimas duas décadas, tendo agora como prioridade tentar retirar as suas famílias do país e trazê-las em segurança para solo francês.

Joel Cartaxo Anjos, realizador português instalado em Paris, realizou uma curta-metragem premiada sobre a actriz Marina Gulbahari, obrigada a sair do Afeganistão em 2015 devido a não usar véu, e que desde aí está em França.

O realizador português continua a filmar com Marina Gulbahari e aproximou-se da comunidade afegã em Paris.

"É um momento absolutamente terrível que estão a viver. Não há sequer palavras para traduzir uma pequena percentagem daquilo que eles estão a viver. É o terror, é o medo, é a luta que para alguns resultou, para conseguir trazer a família ou parte dela. Houve alguns casos de sucesso, que vi à minha volta, mas a maior parte das pessoas não conseguiu chegar a esse ponto", descreveu o realizador em entrevista à RFI.

A curta-metragem "Si loin de Kaboul" realizada pelo cineasta português foi largamente premiada, tendo sido difundida no canal público de televisão France 3.

De forma a acompanhar a saga desta comunidade em França, especialmente os desafios de Marina Gulbahari, muito conhecida no Afeganistão, mas que tem de reconstruir a sua carreira e a sua vida a milhares de quilómetros, Joel Cartaxo Anjos está agora a filmar uma longa-metragem onde tem acompanhado os mais recentes desenvolvimentos da família da jovem afegã que continua no país.

"A Marina queria trazer uma parte da família para França, as irmãs, a mãe, os irmãos e havia efectivamente um irmão que até tinha uma autorização de acesso ao aeroporto. A questão foi que a dada altura o irmão estava no aeroporto de Cabul com a mãe e a mulher, mais seis mil afegãos que tinham a mesma autorização. Houve pessoas que morreram à volta dele, que não tinham ar, em situações absolutamente trágicas", descreveu o realizador português.

De forma a  realizar esta longa-metragem, Joel Cartaxo Anjos foi premiado com duas bolsas de escrita: Lab Doc de Meditalents, em Marselha, e Les Petites Cameras, em Besançon.

A França está a negociar com os talibã a possibilidade de evacuação de mais nacionais que desejem deixar o país, com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, a pedir que a comunicação com o regime talibã se mantenha aberta.

O novo Governo no Afeganistão já anunciou que as mulheres vão poder continuar a ir à universidade, mas sob condições rigorosas. Só podem assistir às aulas mulheres que usem véu e vai deixar de haver aulas mistas, voltando a haver segregação de sexos na academia.

Uma segregação entre homens e mulheres que pode generalizar-se nos próximos meses.

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