Arranca Assembleia Geral da ONU em altura de "reposicionamento das alianças"

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Antonio Guterres, secretário geral das Nações Unidas.
Antonio Guterres, secretário geral das Nações Unidas. John Minchillo POOL/AFP

A abertura oficial da 76ª Assembleia Geral das Nações Unidas acontece hoje em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América. O encontro conta com mais de 100 chefes de Estado e de governo.

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Para Maria Ferreira, professora de Relações Internacionais do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa, existem vários temas em cima da mesa, nomeadamente, a questão dos submarinos nucleares e as alianças geoestratégicas que se poderão começar a formar doravante no mundo.

A docente não acredita porém que a situação no Afeganistão tenha uma resposta clara dos líderes mundiais neste encontro.

"Eu penso que o que se pode esperar é uma resposta muito limitada por parte das grandes superpotências, cujos discursos têm ressonância na Assembleia Geral das Nações Unidas. Apesar de muitos estados ou de todos os estados com assento na Assembleia Geral poderem usar da palavra, apenas os discursos das grandes potências acabam por ter ressonância mediática", começou por defender a docente universitária.

"Neste momento, as grandes potências seguraram um consenso sobre aquilo que se deveria passar no Afeganistão e que era a retirada das forças externas, nomedamente, das forças norte-americanas. Não me parece que essa seja uma questão a que se vá dar muita atenção até porque existem outras questões que vão estar agora na ordem do dia, nomeadamente, o regresso àquele que, já desde a administração de George W. Bush tinha sido o inimigo, digamos assim, dos Estados Unidos da América que é a China", defendeu Maria Ferreira.

A especialista em assuntos internacionais falou ainda sobre o acordo militar tripartido entre Washington, Londres e Camberra no Indo-Pacífico."A Austrália já é uma resposta às pretensões da China", defendeu.

"Aliás, se há estado que deve estar em particular cuidado e com algum receio neste momento é Taiwan porque, apesar de Joe Biden ter dito no início do seu mandato que queria apoiar uma aliança das civilizações democráticas, os EUA sairam do Afeganistão e deixaram que se instalasse um regime não democrático e isso é um sinal para os estados não democráticos de que têm alguma margem de manobra para prosseguirem com os seus fins geoestratégicos e um dos alvos da China é com certeza Taiwan", esclareceu.

A especialista defende ainda que esta aliança já fez uma "vítima", a França, uma vez que a mesma levou ao cancelamento do contrato para construção de doze submarinos de propulsão encomendados pelo governo australiano a França.

"Talvez as preocupações de Taiwan estejam na ordem do dia porque esta necessidade que os EUA sentiram de estabelecer uma aliança com o Reino Unido e a Austrália vai muito no sentido de garantir a estabilidade e o predomínio ocidental ao nível da segurança no mar da China e é nesse sentido que podemos interpretar esta aliança tripartida entre o Reino Unido, os Estados Unidos e a Austrália que já fez uma vítima, que era a França com quem a Austrália tinha um acordo de venda de submarinos nucleares”, defendeu.

A professora universitária não tem dúvidas de que se começam a desenhar novas alianças mundiais no que diz respeito à NATO.

"Os responsáveis franceses já disseram isso mesmo, que esta aliança entre a Austrália, os EUA e o Reino Unido, disse-o o ministro dos negócios estrangeiros francês, é considerada como uma quebra grave de confiança entre os aliados da NATO e, portanto, terá influência na avaliação do novo conceito estratégico da Organização do Tratado do Atlântico Norte", recordou.

Para a especialista, existem duas consequências muito visíveis desta aliança tripartida entre os EUA, o Reino Unido e a Austrália.

"Por um lado, poderá afastar os estados europeus da NATO, sobretudo se França conseguir convencer os estados europeus de que é necessário repensar o conceito estratégico da NATO, diminuindo a presença da União Europeia na organização. Em segundo lugar, e, consequentemente, o reforço daquilo a que chamamos a política comum de segurança e defesa", salientou.

"Poderá ser este o momento se houver consenso entre os estados membros e, nomeadamente, se houver um consenso entre a França e a Alemanha - o que não é fácil  - para que saia, digamos, um novo reposicionamento da União Europeia no Campo Internacional", disse ainda.

A docente falou também acerca do continente africano e sobre aqueles que na sua opinião serão os temas dominantes deste ano.

A questão africana é sobretudo uma questão de desenvolvimento dos povos. Eu penso que as questões que têm a ver com África vão ser lidas este ano muito na óptica, quer das contenções das migrações e dos fluxos migratórios para o sul da Europa, quer na necessidade de ler as questões dos conflitos étnicos e do subdesenvolvimento africano na óptica da necessidade de evitar que pandemias que grassam no continente africano possam vir depois a ter consequências nefastas", disse ainda.

A professora falou depois da vacinação da Covid-19 no continente africano. "O facto de não haver vacinação nos estados africanos aumenta a probabilidade de acontecerem mutações do vírus. A presidente da comissão europeia, Ursula von der Leyen, esta semana deu esse sinal, talvez seja interessante que as reservas de vacinas que existem nos países desenvolvidos sejam alocadas aos países em desenvolvimento. No continente africano, apenas 2% da população está vacinada", enfatizou.

Por fim, a especialista deu a sua opinião sobre os temas que considera que irão dominar o encontro dos chefes de Estado e Governo em Nova Iorque.

Penso que a cimeira vai ser no fundo marcada por esta questão do reposicionamento das alianças geoestratégicas, ou seja, saber quem são para cada bloco, para cada estado, para cada superpotência os seus inimigos. É preciso não esquecermos que os estados se definem não tanto por aquilo que são, como por aquilo que não são, ou seja, pelos seus inimigos", defendeu.

"Parece-me que vai haver uma espécie de desvalorização da aliança do Tratado do Atlântico Norte que pode, para os europeus significar uma reavaliação da sua política comum de segurança e defesa, tudo muito dependente da capacidade de França de gerar um acordo com a próxima liderança alemã e vamos ver se que forma é que os EUA se posicionam contra a China e também de que forma é que os Estados Unidos se vão relacionar com a Rússia, dado que no fundo a NATO é neste momento um dos 'calcanhares de aquiles' de Vladimir Putin e um dos elementos que impede a expansão territorial do presidente russo", defendeu.

Para Maria Ferreira, vai ser crucial perceber como é que os Estados Unidos da América se vão posicionar em relação à NATO.

"Será muito interessante perceber como é que os EUA se vão posicionar em relação à NATO, se vão continuar ou não, de alguma forma a segurar as pontas da defesa europeia. Se não o fizerem e se virarem só para a China isso vai criar um vazio de poder no continente euro-asiático que pode favorecer os russos e desfavorecer muito a União Europeia, dado que por muito que seja a vontade da França e da Alemanha em apostar na política comum de segurança e defesa, é preciso notar que as capacidades de defesa europeias são diminutas", salientou.

A posição dos EUA em relação à China também será muito importante, segundo a docente, para entender as futuras relações que se formarão doravante no mundo.

"As capacidades de defesa russa também não lhes permitem uma grande expansão ou grandes ambições militares e, portanto, tudo vai estar muito dependente das relações que os EUA vão estabelecer com a China e da perceção que os chineses têm dos EUA. Como é que ambas as potências se avaliam mutuamente e se se avaliam possuindo capacidades miliates reais ou virtuais", explicou.

"Aquilo a que estamos agora a chegar à conclusão, e os EUA com certeza também já o entenderam é que a China tem grandes capacidades militares, tem uma frota naval que lhe permite expandir-se militarmente e cria uma tensão enorme no mar do sul da China e uma tensão enorme para países como a Austrália e daí a necessidade que a Austrália tem de quebrar o princípio de pacto de sunt servanda que tinha com a França para o fornecimento de submarinos nucleares e de se virar para uma aliança tripartida com os EUA e o Reino Unido, que assim também tira consequências do Brexit e se posiciona geoestrategicamente definitivamente ao lado das prioridades norte-americanas e não ao lado das prioridades europeias", concluiu Maria Ferreira.

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