Menos de 2% da população da Guiné-Bissau vacinada contra a Covid-19

Áudio 08:05
Cartaz do Ministério da saúde da Guiné-Bissau numa parede da capital guineense.
Cartaz do Ministério da saúde da Guiné-Bissau numa parede da capital guineense. RFI/Charlotte Idrac

A Guiné-Bissau está a enfrentar a terceira vaga da pandemia de Covid-19.Perante o aumento do número de casos o país voltou ao estado de calamidade, tanto mais que a taxa de vacinação não chega sequer aos 2%.Magda Robalo, alta comissária de luta contra o novo coronavírus, faz-nos o ponto da situação sem deixar de criticar a distribuição de vacinas à escala mundial.

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RFI: A Guiné-Bissau voltou ao estado de calamidade, qual é actualmente a situação do país relativamente ao novo coronavírus ?

Magda Robalo: A Guiné-Bissau, como muitos outros países, está, neste momento, a enfrentar a terceira vaga da pandemia com um aumento acelerado do número de casos. E também o aumento da mortalidade, por isso foi necessário propôr ao governo que se instaurasse o estado de calamidade, para reduzir as possibilidades de transmissão, de tentar conter essa terceira vaga o mais rapidamente possível.  

Isso traduz-se, por exemplo, na obrigatoriedade do uso da máscara nos transportes públicos e, mesmo, no exterior, não é ?

Exactamente, aliás a obrigatoriedade do uso da máscara nos transportes públicos e espaços públicos sempre fez parte das nossas medidas, independentemente de ser estado de calamidade ou não.

Simplesmente quando nós passamos ao estado de alerta há um nível de relaxamento por parte da população, no seu geral. E, quando se passa ao estado de calamidade, há mais restrições, nomeadamente, em termos de ajuntamentos, de abertura de discotecas, realização de festas, etc. para tentar imprimir na população o sentido de urgência e o sentido da imperiosidade de se praticar as medidas de prevenção para evitar um maior alastramento. 

Nós estamos neste momento com cerca de 300 casos, novos casos por semana, o que ultrapassa largamente as nossas capacidades em termos de se reflectir em número de pessoas hospitalizadas. Estamos a aproximar-nos de 20 camas ocupadas com doentes Covid o que, para a Guiné-Bissau, já é um número bastante elevado.

E que temos de conter esta propagação, sob pena de termos os nossos cuidados intensivos para a Covid a abarrotar e não temos capacidade de resposta. E isto também já se reflecte no consumo de oxigénio que tem sido bastante acelerado o que nos tem obrigado a fazer aquisições em espaços de tempo muito mais curtos.

Em que pé é que estamos em relação à vacinação ? Eu sei, obviamente, que chegaram doses norte-americanas da Janssen da Johnson and Johnson. Qual é a percentagem de pessoas vacinadas neste momento ?

Nós temos menos de 2% da população guineense vacinada neste momento. Esta doação que foi agora feita pelo governo dos Estados Unidos no sábado passado é a primeira grande doação de vacinas que a Guiné-Bissau recebe: 302 400 doses.

Até agora nós tinhamos recebido um total, de entre várias doações, de menos de 100 000 doses de vacinas. Recebemos 10 000 doses como oferta do Senegal, 28 800 doses como contribuição da Covax e 24 000 doses como contribuição de Portugal. Portanto nós estávamos com um stock de doses de vacinas muito, muito, muito limitado. O que não permitiu ter aquele arranque que nos fosse levar a uma taxa de cobertura próxima do satisfatório.

Agora nós recebemos esta quantidade que é bastante razoável estamos a trabalhar para receber ainda mais doses; resultantes do acordo CDC, o mecanismo AVAT e a Johnson and Johnson. Por isso estamos em crer que estarão reunidas as condições para, de facto, nós darmos início agora à nossa verdadeira campanha de vacinação contra a Covid-19 e esperamos que seja possível mobilizar a população. Também existe muita resistência à vacinação.

Mas seria, vai ser o nosso foco agora, muito rapidamente, administrar as doses de vacina. Não só para conter esta terceira vaga, como para prevenir uma próxima vaga ou, quando muito, tentar que ela seja menos mortífera e que haja menos casos do que temos agora.

Em muitos países africanos há, mesmo, sectores a negar a existência, mesmo, da doença ou, pelo menos, a relativizar o alcance e a mortalidade da mesma. Esta situação também existe na Guiné-Bissau ?

Também, também. É uma realidade: há sectores do país, segmentos da população que acreditam que a doença não existe e que nós estaríamos imunes ou que a doença não teria chegado ao nosso país. Isso faz parte da vasta gama de desinformação, de boatos, de rumores que existem à volta da Covid-19 e que nós temos combatido, na medida do possível.

Aqui, na Europa por exemplo, há já sectores ligados aos enfermeiros, médicos que já foram vacinados há mais de 6 meses que começam a levantar receios relativamente à duração dos anticorpos. De tal forma que há vários sectores a equacionar uma terceira dose. Não obstante a OMS ter pedido uma moratória. Eu sei que é uma situação que a deixa inconformada. O facto de se estar a equacionar já uma terceira toma da vacina, nomeadamente em países europeus. Quer comentar ?

Eu gostaria e quero que toda a gente possa estar vacinada. Eu não tenho nada contra uma dose suplementar, se ela se tornar necessária, para as pessoas que já apanharam as duas doses. A minha questão é: vamos vacinar e dar um "booster" às pessoas que já levaram a sua segunda dose quando ainda temos pessoas, no resto do mundo, que ainda estão à espera da sua primeira dose ? 

O imperativo moral coloca-se aí, a questão coloca-se aí. E, penso que é isso que está na base da "moratória" da OMS que diz "Vamos tentar fazer com que, pelo menos, o resto do mundo também tenha a sua primeira e a sua segunda dose, antes de pensarmos em dar doses de reforço a populações que já estão completamente vacinadas"... Que já têm uma imunidade de grupo que lhes permite abrir os seus países, reduzir as medidas de confinamento, abrir os restaurantes, as salas de espectáculo... Quando nós ainda temos populações que não receberam a primeira dose e, se receberam a primeira dose, não sabem quando é que vão receber a segunda.

Eu penso que este é o desiquilíbrio moral, esta é a pouca vergonha moral a que estamos a assistir com a questão das vacinas que urge resolver, que urge que os diferentes actores se concertem e que se possa reduzir esta falta de acesso a um bem público que salva vidas e que nos permitirá a todos livrar-nos da Covid-19.

Eu quero agradecer aqui a todos os países que nos têm apoiado, que têm apoiado todos os outros países que necessitam, mas também não me coíbo de lançar este apelo para que, mais cedo do que tarde, se possa reduzir este problema da iniquidade no acesso a um produto que salva vidas.

O dispositivo Covax só vos permitiria conseguir vacinar 20% da população, é mesmo assim ?

Esse é o compromisso do dispositivo Covax, de permitir a vacinação de 20% da população ! Isso foi o compromisso de início porque havia pouca produção de vacinas.

Eu espero que venha a haver uma revisão dessas metas porque é preciso vacinar, pelo menos 70% da população guineense para que consigamos, ter uma imunidade de grupo.

Por isso vamos continuar a trabalhar com outros parceiros, com Covax, e com outros parceiros, e com fundos próprios nós vamos trabalhar no sentido de cobrir 70% da população.

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