Vandalização de monumentos portugueses reabre debate sobre símbolos coloniais

Áudio 11:48
Padrão dos Descobrimentos foi vandalizado em Lisboa a 8 de Agosto de 2021.
Padrão dos Descobrimentos foi vandalizado em Lisboa a 8 de Agosto de 2021. © LUSA - ANTÓNIO COTRIM

Em Portugal esta semana reabriu-se o debate em torno de monumentos do período colonial.No domingo o emblemático Padrão dos Descobrimentos em Lisboa foi vandalizado com uma inscrição em inglês denunciando os malefícios das navegações.O acto, supostamente reivindicado nas redes sociais por uma estudante de arte de Paris, foi prontamente alvo de limpeza pela câmara municipal.

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O facto nem é inédito em Portugal, mas tocou agora um dos símbolos mais conhecidos do período da expansão e consequente ocupação colonial de outros territórios.

O sociólogo João Teixeira Lopes reagiu à rfi ao debate que se veio a abrir, de novo enfatizando a importância de um debate sereno sobre o tema, embora condenando o recurso ao vandalismo.

RFI: Em que medida é que isto é uma questão fracturante na sociedade portugusa: surgir um dia de manhã um monumento emblemático, porventura o ponto de partida das expedições, vandalizado... Falando-se em "cegueira por dinheiro, através das navegações e de um mar escarlate ?" Como é que acha que tal está a ser digerido pela sociedade portuguesa ?

João Teixeira Lopes: Na verdade, como é período de férias, o assunto não tem sido alvo de uma muito intensa polémica. No entanto ele surge num contexto que não é um contexto isolado. Se repararmos actos deste tipo têm acontecido em outros monumentos. Eu relembro-me o monumento do Padre António Vieira, e também tem acontecido em muitos outros países europeus que tiveram um passado colonial. 

O vandalismo, por si só, eu diria que é muito pouco interessante, como acto de protesto político. Ainda por cima quando ele não é assinado, quando há uma acção, digamos covarde como foi o caso desta pretensa activista francesa.

De qualquer maneira é interessante verificar que há hoje uma intensa disputa. E disputa é, mesmo, o termo ! Política, simbólica, sobre aquilo que são os símbolos do nosso passado e da nossa história [de Portugal].

E isto para um sociólogo é interessante. Porque leva-nos a perceber que o passado... ou, melhor, a ideia que nós temos do passado, a memória que construímos sobre ele é alvo de ideias muito distintas, de visões muito diferentes. 

RFI: Falava do Padre António Vieira: foi um dos principais defensores dos indígenas. Apesar disso foi um dos mentores da evangelização. Portanto, apesar de tudo, uma figura controvesa mas que, porventura, poderá ter sido utilizada demagogicamente nesta querela ?

É verdade, é verdade ! Sem dúvida nenhuma ! O Padre António Vieira, um magnífico escritor ! Toda a gente conhece os seus sermões e é alguém que também tem de ser compreendido no seu tempo. Muitas vezes estes actos são simplificações, e são também resultado de estereótipos e, mesmo, de alguma pulsão, digamos assim, da moda ! 

Mas eles, sem os querer de alguma forma justificar ou defender, porque eu não defendo nenhum dos dois... neste caso não defendo nenhum dos dois.

Embora perceba... perceba, e muito bem até ! Que, noutros países estátuas de esclavagistas tenham sido derrubadas ! Eu percebo bem que muitos daqueles que são bisnetos de escravos, se sintam ofendidos por os que mataram, torturaram os seus bisavós terem estátuas ! 

E parece-me até que muitos dos países compreenderam e estão a retirá-las. Acho que isso é legítimo ! Faz parte, como eu digo: o passado é um terreno de disputa ! 

Não é por acaso que se mudam os nomes dos monumentos ! Nós tinhamos uma Ponte Salazar, que agora é uma Ponte 25 de Abril ! E é importante perceber o contexto em que isto ocorre e as visões que estão em disputa.

E esta visão que nós temos hoje de que Portugal, ao contrário do que tanto foi dito, e nós fomos muito impregnando essa ideia, a ideia luso-tropicalista. Portugal não foi um país de tão brandos costumes quanto isso !

Foi um país que, ao colonizar, praticou também actos de enorme violência: massacrou ! Dizimou populações, como no Brasil, até com recurso ao que hoje se chamaria de guerra biológica ! Porque utilizou a propagação de doenças para dizimar populações indígenas ! Tudo isso tem que ser falado, discutido, alvo de debate ! 

Agora se me pergunta se a vandalização de monumentos é uma maneira interessante de o fazer... ? Acho que não, acho que é só estúpido e, ainda para mais, quando é feito desta forma anónima e covarde ! Não acrescenta, não acrescenta grande coisa.

Que o passado seja discutido, que o passado seja debatido, e que os próprios símbolos sejam discutidos ? Eu acho que isso é inevitável, nos tempos que correm. E faz parte do processo de auto-questionamento que qualquer país tem !

E acha que isso em Portugal poderia passar, então, por uma alteração da toponímia ? Fazia referência a nomes marcantes: Serpa Pinto ?

Sim, há hoje ainda nomes de colonizadores, alguns deles com um papel muito negativo, também estão ligados ao esclavagismo, ao massacre de populações. Na verdade houve já, com o 25 de Abril [revolução democrática portuguesa ou Revolução dos cravos em 1974] uma mudança de alguns desses nomes. Muitos deles persistem. Se isso for sentido, na população portuguesa, como uma questão... eu acho que deve ser debatida. 

Se me perguntar se eu acho que essa é que é a questão principal ? Não creio que seja, acho que seria muito interessante, por exemplo, nós debatermos hoje o papel que os portugueses tiveram nos massacres coloniais mais recentes dos anos 60 e 70 !

Como os que ocorreram em Moçambique, ou em São Tomé e Príncipe ou em Angola. Acho que seria bem mais interessante que isso fosse discutido.

Está a pensar em Batepá, por exemplo, em São Tomé [em 1953]?

Estou a pensar em Wiriyamu, em Moçambique [em 1972], estou a pensar na Guiné: houve vários, enfim ! Acho que isso sim seria importante ! Até porque nunca houve da parte do Estado português, nunca, uma posição !  Como aconteceu com a França, em relação à Argélia, por exemplo.

Nunca aconteceu com o Estado português uma visão auto-crítica ou mesmo um pedido de desculpas que, eu acho, que deve ser feito ! Acho que essa questão, sim ! É uma questão que acho que nós precisamos de...

Rever os manuais escolares ?

Rever os manuais escolares ! Quando os manuais escolares dizem que os portugueses em África apenas tratavam do comércio e da evangelização... evidentemente que estão a ocultar uma parte tremendamente da nossa História [História portuguesa] !

E nós não podemos só querer reivindicar a parte boa da História ! Nós temos que a reivindicar toda ! E temos que reivindicar aquela parte que é contestada, em relação à qual não há consenso. E colocar, então, os termos.

Há uns que consideram que a presença dos portugueses foi enriquecedora, há outros que consideram que a presença dos portugueses foi alvo de violência. As várias visões do mundo têm de estar presentes, não poder ser só a visão do colonizador !

Se nós [Portugal] somos um povo que colonizou temos também que trazer para os manuais escolares aquilo que são as perspectivas dos colonizados. E temos que trazer para os manuais escolares factos ! Os massacres são factos.

O tráfico de escravos !

O tráfico de escravos é facto ! Enfim, o dizimar de populações no Brasil usando as doenças que existiam na Europa é um facto. Em relação a isso nem sequer é uma questão de colocar nem em perspectiva, nem em debate. Esses são, mesmo, factos. Nós também não podemos cair num relativismo agudo ! Mas diria, para resumir, debater aquilo que é polémico, trazer os factos que são incontestados. Embora as interpretações variem sempre. E, acima de tudo, não esconder, não ter de novo uma visão tão complacente que, na verdade, esquece que a complexidade da história é constitutiva da própria História.

Foi praticamente meio século depois das descolonizações que este debate acabou por chegar a Portugal !

É verdade, é verdade ! Foi necessário meio século ! Por um lado porque o próprio 25 de Abril, no seu processo de descolonização, não quis tratar estes lados sombrios da própria descolonização. Portugal também apareceu nessa altura com o seu lado redentor.

Era o país que dava a independência às colónias, era o país que queria esquecer o passado opressor através de um novo lugar na História. E, por isso, não era conveniente discutir isto. E também porque as feridas estavam muito presentes e eram muito recentes !

As feridas da guerra colonial, os retornados ! Tudo isso era, na altura, incadescente ! Por outro lado convém também dizê-lo que temos hoje em Portugal uma questão muito significativa de desigualdade racial ! Todos os números o mostram.

Números que dizem respeito ao insucesso escolar, ao acesso à habitação, ao acesso ao emprego, ao acesso às profissões mais qualificadas. À ausência dos negros nas universidades: eu sou professor universitário no norte do país, no Porto, e tirando os meus alunos brasileiros, não há negros portugueses, praticamente, a chegarem à universidade.

E isso leva: essa consciência mais activista das novas gerações afro-descendentes leva a que estas questões venham ao de cima, num contexto internacional onde elas estão também a ser muitíssimo debatidas: veja-se o que aconteceu nos Estados Unidos, por exemplo.

Este Padrão dos Descobrimentos está, mesmo, no DNA dos portugueses. Será talvez, com o Mosteiro dos Jerónimos, com a emblemática Torre de Belém, que são monumentos muito próximos, se calhar um dos mais importantes desse triângulo ligado à expansão ?

Sim, é verdade, faz pârte daquela visão mais tarde chamada, já no século passado, de luso-tropicalista. É a visão...

Do Gilberto Freyre !

Do Gilberto Freyre, exactamente. Mas que durante muito tempo se quis passar, e o Estado Novo nisso foi, a Primeira República também, mas o Estado Novo muito particularmente, de que nós [Portugal] tinhamos sido um império exemplar e que a missão dos portugueses foi uma missão resplandecente, isto é: descobrir novos territórios.

Como se eles já não existissem, como se eles não fossem habitados ! Foi o de trazer a cultura e a luz a populações que eram incivilizadas ou bárbaras !

Essa visão que está ali bem patente no Padrão dos Descobrimentos, deve ser questionada !  Agora vandalizar o padrão... francamente acho que isso não... não leva a lado nenhum, não é interessante. E, ainda por cima, é anónima e covarde. Agora questionar os monumentos, discuti-los, tentar encontrar diferentes perspectivas sobre eles... isso eu acho que sim ! 

Se me pergunta se esse é o meu monumento ? Não é ! Não me revejo nesse monumento, como assim não me revejo noutro tipo de monumentos, como aqueles que existem na cidade do Porto, na Praça do Império. Monumento onde, até do ponto de vista estético, é sombrio ! Eu vejo sempre a morte quando olho para aquele monumento que é uma exaltação desse glorioso passado ! 

Que, na verdade, tem facetas gloriosas, mas tem facetas também absolutamente sombrias !

Houve um abaixo assinado em Cabo Verde para se tentar, precisamente, remover monumentos coloniais. O que é que acha que os portugueses sentem ao saber destas correntes, destes movimentos por essa África lusófona fora ?

Não é um tema que tenha sido muito debatido !  Mas com certeza que movimentos populistas, nacionalistas como o Chega [partido de extrema direita] vão fazer disso tema de campanha.

Na minha perspectiva pessoal eu compreendo que os cabo-verdianos questionem se querem ter no espaço público monumentos de pessoas que, eventualmente, simbolizem para eles opressão, escravatura, colonialismo, subjugação ? Acho isso perfeitamente legítimo.

Agora eu gostaria que o debate se fizesse com serenidade, que fosse uma ocasião para ampliar o debate. E não necessariamente para actos de vandalismo, ampliar o debate é preciso: não ocultar nada ! Pelo contrário desvendar, trazer novos ângulos sobre a História, qque é uma História comum, quer queiramos quer não. Colonizadores e colonizados partilham essa mesma História. Mas percebo perfeitamente que eles questionem a validade desses símbolos.

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