Cultura

Luiz Ruffato lança novo romance na França e diz que “estamos num beco sem saída”

Áudio 06:34
BIBLIOTHÈQUE BRÉSILIENNE
Remords
Luiz RUFFATO
BIBLIOTHÈQUE BRÉSILIENNE Remords Luiz RUFFATO © https://editions-metailie.com/

“O verão tardio” é sexto romance de Luiz Ruffato traduzido para o francês, o quinto pela editora Métailié. Na França, o livro, que chegou às livrarias neste mês de abril, ganhou o título de “Remords” (Remorso, em português) e bons elogios da crítica literária francesa.

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O mineiro Luiz Ruffato, radicado em São Paulo, é um dos escritores brasileiros contemporâneos de maior renome. Tanto no Brasil, quando foi lançado em 2019, quanto na França, “O verão tardio” é considerado uma metáfora do Brasil atual, governado pelo presidente Jair Bolsonaro. O romance conta o regresso de Oséias à sua cidade natal, Cataguases, no interior de Minas Gerais, após 20 anos de ausência. O narrador vai em busca de um passado reconfortante e se depara com um presente sinistro.

O conceituado crítico literário francês Sébastien Lapaque, do jornal Le Figaro, resume o romance de Ruffato como o “fim do verão brasileiro”. O livro dá “um panorama sombrio” e faz “uma descrição sútil e pessoal do desmoronamento do Brasil contemporâneo”, escreve Lapaque. “Uma imagem de desolação, de uma sociedade brasileira em decomposição e profundamente fraturada, gangrenada pela corrupção e pela violência”, completa Véronique Rossignol, da Livre Hebdo.

O título em francês, Remords, foi uma sugestão de Luiz Ruffato à editora Anne-Marie Métailié. “Eu gosto muito desse título porque, de alguma maneira, ele resume bem o clima do romance”, diz o escritor mineiro à RFI.

Ruffato conta que o livro, escrito entre 2016 e 2018, nasceu no momento da votação do impeachment, do “golpe parlamentar”, contra o presidente Dilma. “Eu vendo aquela quantidade de gente passando, desfilando na minha frente, dando votos com discursos mais absurdos possíveis, inclusive o nosso atual presidente defendendo a tortura, senti que ali estava um certo fim de uma era. Foi com esse clima de desalento que escrevi esse romance.”

Cataguases é a cidade natal de Luiz Ruffato e está presente em vários de seus romances. Em “O verão tardio”, ela é um microcosmo do Brasil, um país doente como o protagonista, Oséias.

“Nós somos um país doente pela violência urbana crescente, com um fundamentalismo cristão crescente, um aumento da miserabilidade enorme, uma deterioração muito grande das cidades, inclusive das questões ecológicas”, descreve o autor que acha que estamos “num beco sem saída”. “O caminho por onde imbicamos” foi a opção feita “conscientemente por 100 milhões de brasileiros”, isto é os 58 milhões que votaram em Bolsonaro, mas também os que votaram em branco, nulo ou não votaram nas últimas eleições presidenciais, lembra o escritor.

Mineirês

“O verão tardio” é um livro denso, intenso. A tradução para o francês é assinada pelo veterano Hubert Tézenas, que pela primeira vez trabalhou um texto do escritor. Mas apesar da experiência, o tradutor francês teve muita dificuldade de passar o “mineirês” de Luiz Ruffato para a língua de Molière.

“A língua dele (Ruffato) não é fácil. Pode parecer simples porque as palavras são simples. Com modéstia, ele chama essa língua de mineirês. Tem muito regionalismo, que não entendi”, confessa Tézenas, que teve um diálogo constante com o escritor durante toda a tradução para entender as expressões mineiras.

O escritor e tradutor francês, Hubert Tézenas.
O escritor e tradutor francês, Hubert Tézenas. © Captura de tela da fotográfa: Sylvie R. Robert

Em seguida, surgiu uma nova dificuldade. “Meu esforço para entender, decifrar, expressar o sentido, me levou a esquecer um pouquinho o lado musical, a noção de ritmo, de oralidade. A editora Anne-Marie Métalié disse: ‘está faltando alguma coisa. Você interpretou ao invés de traduzir. Isso não é muito agradável de ouvir para um tradutor. Mas ela tinha razão.”

Hubert Tézenas retomou o trabalhou, mexeu em todas as frases, fez quase uma segunda tradução. E depois do “sofrimento”, “a música voltou” e veio o “prazer final de tentar passar para o público francês um livro tão forte. Tudo o que eu espero é que esse livro encontre o merecido sucesso”, pede o tradutor.

“Eles eram muitos cavalos”

A versão francesa de “O verão tardio” chega à França coincidentemente no mesmo ano de comemoração de 20 anos da publicação de “Eles eram muitos cavalos”, o livro que deu fama nacional e internacional a Luiz Ruffato. As duas obras são ligadas pela descrição de um mesmo universo. “Todo escritor tem uma obsessão literária. A minha, acho, é essa de sempre querer propor uma reflexão a respeito de como é complicado viver, habitar, um não lugar. O não lugar é aquele de onde você partiu, onde você não é mais reconhecido, mas onde você está, você também não é reconhecido.”

Como lidar com essa questão? “Esse é o trauma brasileiro. Nós somos uma população que está aqui, mas originalmente não estávamos, ficamos nesse embate de nostalgia de um lugar de onde nos saímos, que não nos pertence mais, e a dificuldade de lidar com o lugar onde nós estamos, que também, de certa maneira, não nos pertence."

Desde o final de 2019, o escritor mineiro escreve um novo romance. A pandemia e “toda a tragédia que estamos vivendo arrefeceu os ânimos, mas o (novo) livro é quase uma continuação do clima de desalento e de certa desesperança em relação ao nosso futuro do Brasil”, antecipa.

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