Economia

Euforia nas bolsas mundiais: recuperação pós-pandemia ou bolha à vista? Analistas explicam

Áudio 07:35
O índice DAX das ações alemãs na bolsa de Frankfurt teve a maior alta da história no fim de março. (9 de abril de 2021)
O índice DAX das ações alemãs na bolsa de Frankfurt teve a maior alta da história no fim de março. (9 de abril de 2021) REUTERS - STAFF

Desde o começo do ano, as bolsas mundiais registram uma euforia desconectada da conjuntura econômica difícil por conta da pandemia de coronavírus. Enquanto os países se esforçam para relançar a atividade, apesar do impacto avassalador da Covid-19, os mercados de ações aceleram e ultrapassam os índices de antes da crise, como em Nova York, Paris ou Frankfurt.

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Lúcia Müzell, da RFI

Em fevereiro, o Nasdaq americano chegou a registrar altas recordes, acima de 14 mil pontos. No fim de março, foi a vez do DAX alemão ultrapassar pela primeira vez na história os 15 mil pontos. O otimismo exacerbado, puxado pela performance das empresas de tecnologia, levanta temores de uma bolha no mercado de ações.

O economista Gunther Capelle-Blancard, professor da Universidade Panthéon-Sorbonne, explica que o avanço da vacinação e o pacote trilionário de retomada nos Estados Unidos animam os investidores no país – e não só os profissionais. As estimativas mais conservadoras apontam que pelo menos 10% dos americanos beneficiados pela ajuda financeira do governo de Joe Biden pretendem aplicar na bolsa os US$ 1,4 mil que receberam.

"Um quarto do valor total da ajuda pode acabar parando nas bolsas, e não apenas em ações. Com a liberalização financeira, temos muitos outros produtos financeiros, que antes eram reservados aos profissionais e agora são cada vez mais acessíveis às pessoas físicas, como os Bitcoins”, diz o pesquisador. “Alguns desses novos produtos, como os ‘SPACs' (sigla para Special Purpose Acquisition Company), são pacotes vazios, digamos. Um grupo de indivíduos oferece um produto inexistente para coletar fundos, prometendo a ideia de que, mais tarde, essa empresa existirá.”

Economista Gunther Capelle-Blancard, professor da Universidade Panthéon-Sorbonne, avalia que o risco de uma bolha não pode ser descartado.
Economista Gunther Capelle-Blancard, professor da Universidade Panthéon-Sorbonne, avalia que o risco de uma bolha não pode ser descartado. © Wikipédia

Em confinamento, pessoas físicas entram na bolsa

A entrada de pessoas físicas no mercado financeiro, fenômeno recente no continente europeu, ajuda a explicar a disparada das principais praças europeias. Capelle-Blancard observa que esses pequenos investidores não prestam atenção nos fundamentos – eles seguem, num efeito manada, na direção de produtos de tecnologia em notoriedade.

"Um estudo sério da Autoridade dos Mercados Financeiros, AMF, mostrou que durante o primeiro lockdown, a atividade na bolsa por pessoas físicas aumentou quatro vezes. Há muitos novos investidores, leigos, os 'bolseiros', que estão entrando no jogo do mercado financeiro – e isso foi antes dos planos de retomada dos países”, destaca o professor. "Esses planos, via Bancos Centrais, geram muita liquidez nos bancos e essa liquidez alimenta essa bolha especulativa."

O Brasil também registra o ingresso espetacular de pessoas físicas no mercado de ações, embora num volume ainda insignificante em relação aos investidores de peso, que ditam os rumos da Bovespa. Em apenas seis anos, o número de particulares que aplicam na bolsa passou de 600 mil para 3,3 milhões, afirma Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating.

"Essa é uma mudança que essa geração vem tendo, afinal os juros caíram muito no Brasil. Antes era fácil ganhar dinheiro porque você deixava aplicado e nem se preocupava. Agora, vemos uma mudança de cultura, de estrutura do investimento, apesar da crise econômica que o país vive há mais de 10 anos”, constata o analista brasileiro.

Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating © Arquivo pessoal

Acompanhando a tendência mundial, os papéis de empresas de varejo que desenvolveram o comércio digital e as fintechs bancárias são os mais atrativos no Brasil atualmente, reflexo das transformações aceleradas pela pandemia, como a generalização do home office.

"Essa mudança da estrutura da economia global, que passa de força física para força intelectual, ou seja, para o uso da tecnologia em massa, vai fazer com que alguns ativos se valorizem mais que outros. Algumas valorizações assustam, mas temos que entender que faz parte do processo.  Elas ocorrem de maneira muito rápida porque tentam antecipar o futuro”, pontua Agostini. "No meu entendimento, não é uma bolha. É uma tentativa de recuperação dos ativos, lembrando que a bolsa brasileira tinha batido recorde no início de 2020, quando veio a pandemia e despencou, como aconteceu no mundo inteiro. Agora, está tentando se recuperar”, indica.

Bolhas do passado alertam sobre o presente

O francês Capelle-Blancard não tem tanta certeza. Ele lembra que as bolhas nas ações fazem parte da própria história dos mercados financeiros, por mais que os mecanismos de antecipação do fenômeno tenham evoluído.

"Podemos fazer paralelos com o passado, principalmente com a bolha internet dos anos 2000. Tínhamos o mesmo tipo de contexto. No caso da bolha imobiliária de 2008, era um pouco diferente porque os investimentos imobiliários eram feitos a crédito, com impacto muito maior.

Ele ressalta que o aumento da “financeirização" das economias nas últimas décadas intensificou os riscos da explosão de bolhas de ações, como mostrou a crise das subprimes de 2008. Se os mercados desabam, a economia de um país cai junto.

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