Esportes

Operação na França visa dar mais visibilidade na mídia aos esportes femininos

Áudio 06:00
O Mundial de futebol na França em 2019 foi um exemplo do sucesso relacionado ao esporte feminino.
O Mundial de futebol na França em 2019 foi um exemplo do sucesso relacionado ao esporte feminino. AFP

Neste domingo (24), Dia internacional do Esporte Feminino, a França se mobiliza para dar mais visibilidade a todos os esportes praticados pelas mulheres. Trata-se de uma iniciativa que visa sensibilizar principalmente os meios de comunicação para valorizar e divulgar as modalidades femininas, que estão muito longe de ter o mesmo espaço dos eventos esportivos com a participação dos homens.

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A criação de uma data dedicada ao esporte feminino surgiu em 2014 após uma reflexão do Conselho Superior do Audiovisual (CSA), entidade que regula e supervisiona as atividades das emissoras de rádio, tevê e outros veículos de comunicação da França, sobre a pouca midiatização dos eventos esportivos de mulheres.

A iniciativa logo obteve a adesão de vários ministérios, como o dos Esportes, Educação e Juventude, e dos Direitos das Mulheres, além de conquistar apoio dos comitês nacionais olímpicos. Primeiramente, a data ganhou o nome de “24 horas de esporte feminino”, mas finalmente foi mudada para “Esporte feminino sempre”.

A preocupação em garantir mais visibilidade partiu de uma situação considerada desproporcional: em 2012, o CSA constatou que apenas 7% das transmissões nas redes de televisão na França eram dedicadas aos esportes praticados por mulheres.

Houve evolução nos últimos anos, e o maior exemplo foi o entusiasmo gerado do público francês, tanto nas arquibancadas dos estádios quanto nos torcedores que acompanharam pela tevê e rádio, pelo Mundial de futebol feminino de 2019. Essa foi a primeira vez que a convocação das atletas e jogos da seleção tricolor foram exibidos nos principais canais e em horário nobre.

A maior rede de televisão do país, a TF1, chegou a registrar 11 milhões de telespectadores, um recorde, na partida das quartas de final entre França e Estados Unidos, equipe que terminou campeã da competição.

Outros eventos esportivos femininos também registraram forte audiência nos últimos anos em importantes canais de tevê, como o campeonato europeu de handebol em 2018, quando mais de 5 milhões de telespectadores pararam na frente da principal emissora do país para ver a final entre França e Rússia, e outros 4 milhões na final do ano passado entre França e Noruega.

O Torneio de Seis Nações de rúgbi em 2020 também foi considerado um sucesso de audiência. Os resultados confirmaram a boa estratégia adotada pelo governo francês de dar um impulso para aumentar a presença das modalidades femininas nas telas, nas ondas do rádio e nas plataformas digitais. A ministra do Esporte, Roxana Maracineanu comemora os avanços, mas destaca que ainda é preciso fazer muito mais pelo esporte feminino.

“A transmissão de esportes femininos dobrou nos últimos 10 anos. Mas continua ainda muito pequena, com cerca de menos de 20% das transmissões quando comparando com as dos esportes masculinos. Hoje em dia, podemos ir bem além disso”, declarou a ministra.

Roxana explica que o governo favorece a divulgação das imagens, mas enfrenta um obstáculo: a transmissão que fica a cargo das emissoras e “depende da boa vontade de seus dirigentes”.

“É claro que a crise sanitária tornou ainda mais complicado porque, por um lado muitas competições não aconteceram e, por outro, atualmente as emissoras têm menos recursos e os esportes femininos às vezes têm que concorrer com os esportes masculinos. Esse é um trabalho também do Conselho Superior do Audiovisual (CSA) e é por isso que eles são nossos parceiros nesta operação para propor às emissoras imagens tanto de atletas mulheres quanto de homens”, afirmou.

Disparidades

A operação “Esporte feminino sempre” tem seu ponto alto neste domingo, quando todas as principais emissoras de rádio, tevê, e plataformas das redes sociais se comprometeram não apenas a transmitir competições, como divulgar reportagens e documentários que falem das diversas modalidades dos esportes femininos, do trabalho das atletas, além de propor discussões de temas relacionados ao universo esportivo, como a economia e até postos direção.

Na França, a paridade ainda está longe quando se fala em direção de federações esportivas olímpicas. Das 36 do país, apenas duas têm mulheres como presidentes: a Federação de Esportes no Gelo, comandada por Nathalie Péchalat, e a Federação de hóquei, dirigida por Isabelle Jouin.

Outro dado preocupante divulgado recentemente foi a pesquisa da empresa de Sport Business Club que revelou que um em cada dois franceses não sabe citar o nome de uma esportista francesa.

Por outro lado, alguns dados desfazem imagens equivocadas amplamente difundidas na sociedade, como a de que os homens se interessam mais por esporte do que as mulheres. Na rede social Strava, onde qualquer um pode publicar suas performances esportivas, as atividades das mulheres cresceram 30% e, neste período de pandemia, as mulheres teriam se dedicado muito mais ao esporte, com uma alta de 357% de deslocamentos em bicicletas comparados a 2019.

Pandemia atrapalha evolução

Apesar de mostrarem mais disposição para enfrentar a pandemia de maneira mais esportiva, a Covid-19 veio frear a evolução da image dos esportes femininos nos meios de comunicação. Nathalie Sonnac, especialista em esporte feminino e membro do Conselho Superior do Audiovisual francês, afirma que a pandemia deixou um campo de ruínas que precisa ser reconstruído.

"A Covid foi uma catástrofe para o esporte em geral e em particular para o esporte feminino. Muitos perdem parcerias e patrocinadores. Na Inglaterra, por exemplo, muitos clubes já perderam seus patrocinadores. Temos muito medo disso. Constatamos no CSA que, durante a Covid, tinha muito menos comentaristas mulheres experts nos programas de televisão. Tememos que a situação não volte ao normal tão cedo e infelizmente está durando muito tempo. Por isso, vai ser preciso reabilitar o esporte amador e também o esporte professional. Vai ser um caminho longo”, constata.

A operação “Esporte feminino sempre” contribui para sensibilizar o público de que é preciso continuar prestigiando os esportes amadores e profissionais, particularmente neste momento em que as incertezas sobre o futuro de clubes e atividades esportivas colocam à prova as perspectivas das atletas.

No entanto, não faltam meios de prestigiar e dar apoio. Na França, há sites dedicados exclusivamente para esportes femininos. Enquanto isso, muitas vozes se levantam para defender que essa visibilidade não pode ficar restrita apenas a uma operação como a deste Dia Internacional do Esporte Feminino.

Afinal, o país se prepara para mostrar uma outra grande evolução durante as Olimpíadas de Paris, em 2024: o evento deve entrar para história como os primeiros jogos olímpicos a ter o mesmo número de atletas homens e mulheres.

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