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Instituto Socioambiental recebe prêmio da UE por ações contra a pandemia em áreas remotas do Brasil

Áudio 07:04
Rodrigo Junqueira,  secretário-executivo do instituto SocioAmbiental ISA
Rodrigo Junqueira, secretário-executivo do instituto SocioAmbiental ISA Carol Quintanilha / ISA - Carol Quintanilha / ISA

No momento em que o Brasil enfrenta recordes dramáticos de mortes pela Covid-19, uma iniciativa brasileira venceu um prêmio de Direitos Humanos da União Europeia. O projeto do Instituto Socioambiental (ISA) foi recompensado pelas ações junto a povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos no combate à pandemia e suas consequências sociais e econômicas.

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O ISA trabalha há 27 anos mobilizando a sociedade civil e governos para apoiar minorias pelo Brasil – uma experiência que, no enfrentamento do coronavírus, se mostrou valiosa. “São as pessoas que estão na frente, nesses territórios, senão a comida ou o item de saúde não vão chegar. Eles não aparecem simplesmente lá. Tem alguém, uma ação humana que leva isso”, destaca o secretário-executivo do instituto, Rodrigo Junqueira.

O instituto afirma que quase 70 mil pessoas são potencialmente beneficiadas em cinco territórios do Pará, Amazonas, Roraima, Mato Grosso e São Paulo, num total de 50 milhões de hectares de floresta. Ele relata que, até o aparecimento da Covid-19, a entidade não tinha experiência com emergências sanitárias. "Quando chega a pandemia, nós somos obrigados imediatamente a recompor um plano emergencial para que a gente consiga enfrentá-la, para manter as comunidades isoladas nos seus territórios, mas com as consequências de isso traria para elas”, conta Rodrigo.

Desinformação afeta vacinação de indígenas e quilombolas

O plano foi dividido em quatro frentes: direito à informação, direito à saúde e à vida, direito à alimentação e à renda. Nos primeiros meses da crise, os focos foram a segurança alimentar e sanitária, com medidas de precaução como higienização, uso de máscaras e distanciamento social. Agora, as energias se concentram no esclarecimento dessas populações quanto à vacinação.

Rodrigo diz que a campanha de imunização avança nas comunidades indígenas e muitos já tomaram as duas doses da vacina, "apesar da proliferação das fake news e do nosso líder máximo dizer que quem tomar vacina tem que tomar cuidado porque vira jacaré". É por isso que a atuação para combater informações falsas continua um eixo importante do ISA – seja por mensagens e áudios de WhatsApp – inclusive nas línguas indígenas –, podcast, caminhões de som ou materiais pedagógicos impressos.

"A disseminação das fake news levou alguns povos a não se vacinarem”, relata o secretário-executivo. Agora, ressalta Rodrigo, o problema é convencer muitos dos que se imunizaram de que ainda não podem voltar a ter uma vida normal.

“Essa questão é o maior desafio, porque sabemos que não é assim. Aliás, poucos sabem que não é assim, inclusive pessoas com letramento”, aponta. "Vocês podem imaginar qual é o desafio de alguém que já está há um ano dentro da sua aldeia ou na sua casa e saber que ainda não pode sair e circular.”

Atuação da sociedade civil é que faz a diferença

Outro aspecto trabalhado é a cobrança política e jurídica em Brasília, para garantir, por exemplo, auxílio emergencial e barreiras sanitárias para esses povos. "É um trabalho complementar porque são as populações mais esquecidas, minorias pouco atendidas e pouco valorizadas pela nossas sociedade e pelas políticas públicas”, lamenta Rodrigo. "É a saúde das pessoas. É da vida delas que estamos falando. Não é de outra coisa.”

A operação emergencial do ISA envolveu mais de 45 parceiros nos territórios beneficiados, desde associações locais até universidades, passando pelos governos municipais, estaduais e federal.

“Com o governo federal, infelizmente a gente não pode contar. Com os governos estaduais e municipais, há uma cooperação, mas o que mais conseguimos realmente mobilizar é a sociedade local”, observa Rodrigo. "O Brasil quebra recordes atrás de recordes, chegando a duas mil mortes por dia, algo inimaginável um tempo atrás. Estamos numa situação em que comemoramos esse prêmio da União Europeia, recebemos muito bem, mas a luta continua e ainda mais agora."

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