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Cultura

Nova geração de mulheres do rap francês rouba a cena com 'feminismo pop'

Áudio 06:56
A jovem Lous and The Yakuza, revelação do pop francês, em imagem de divulgação do novo disco, "Gore".
A jovem Lous and The Yakuza, revelação do pop francês, em imagem de divulgação do novo disco, "Gore". © Manuel Obadia Wills / Divulgação
Por: Márcia Bechara
13 min

Elas vieram da Martinica, do Congo ou de recantos distintos do território francês. Carregam histórias pessoais diversas, e às vezes épicas, como o caso de Lous, do grupo Lous and The Yakuza (foto), de apenas 24 anos, que antes de se tornar uma revelação do rap francês morou nas ruas de Bruxelas. Mas não importa de onde elas venham, todas carregam consigo a atitude do chamado “feminismo pop”, nas palavras de Carole Boinet, editora de música da revista Les Inrockuptibles, verdadeira referência para a indústria do disco na França. 

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A congolesa Lous, do já célebre Lous and The Yakuza, coleciona milhões de visualizações no Youtube em cada hit, além de centenas de milhares de seguidores no Instagram. Sua vida, no entanto, poderia render um filme. Se seu segundo single "Tout est Gore" chamou a atenção dos filhos de Madonna no início deste ano, catapultando-a para o reinado pop, Marie-Pierra Kakoma [seu nome na certidão de nascimento] chegou a viver nas ruas de Bruxelas, e enfrentou problemas com drogas e gangues de traficantes.

Quando Madonna compartilhou no Instagram um vídeo de suas filhas Stella e Estere dançando ao som de sua música, Lous respondeu no post: "Vivo para ver as meninas negras sendo inspiradas e animadas pela minha música". Rápida no gatilho, inteligente e esguia como uma sílfide, Lous incorpora hoje à sua cena elementos do pop, e interage em seus clipes como uma jovem diva fashion. Um feminismo de "quarta onda", jovem, pulsante, interessado pela autoafirmação e curioso sobre o mundo ao seu redor.

Lous and The Yakuza
Lous and The Yakuza © Manuel Obadia Wills

Lous and The Yakuza representa, além disso, uma presença feminina poderosa mas delicada, num circuito normalmente dominado por rappers homens. A editora de música da revista Les Inrockuptibles, Carole Boinet, não acredita que o machismo seja uma prerrogativa do rap, mas da indústria da música e do mundo em geral. Ela explica a diferença de universos temáticos entre as gerações de rappers francesas. "O interessante é observar a dificuldade que o rap tem, de maneira geral, de se abrir às mulheres, e o fato que as pessoas ainda se surpreendam com a existência das rappers", observa. "O que é normal, porque não existem muitas delas, na verdade", reflete a jornalista.

"Na França, isso está mudando, porque o feminismo ganha cada vez mais importância na sociedade. Vemos mudanças na mentalidade e uma tomada de consciência na cultura, na música e o no rap", diz Boinet. "Por exemplo, dos anos 1980 até o começo dos anos 2000, havia muito engajamento político sobre a violência policial, o abandono dos subúrbios, mas acredito que atualmente temos um outro tipo de engajamento, muito presente nas rappers, que fala sobre a reapropriação do corpo da mulher, sobre o direito a se autodefinir, a se dizer feminista", aponta. 

Reapropriação integral do corpo e da sexualidade

Para a jornalista francesa, a nova geração de rappers surge orgulhosa e descomplexada. "Elas não hesitam mais em se afirmarem, seja Lala& ce, por exemplo, lésbica, que fala verdadeiramente sobre sua homossexualidade em suas letras, o que é uma novidade no rap francês, seja Meryl ou Lous and the Yakuza, todas elas são influenciadas por isso que chamamos de feminismo pop", diz.

Outra integrante dessa nova geração do rap francês é Meryl, que rima com enorme facilidade sobre bases variadas, com atitude e grande carisma, uma verdadeira “bête de scène”. Originária da Martinica, Meryl desde cedo se interessou por melodias, locais ou internacionais. É o pai dela quem a ensina a reconhecer os instrumentos que ouve, mas foi Specta, rapper local, quem a apresentou ao rap. Aos poucos, ela começou a escrever canções e a colaborar com vários artistas. Chegando na França, deu início a uma colaboração intermitente em discos de artistas como SCH (a.k.a. Julien Schwarzer), Soprano, Timal ou Niska.

"Meryl é uma rapper interessante, veio da Martinica, não são muitas que chegam a Paris. Trabalhou bastante com artistas franceses e foi incentivada por esse meio. Ela faz um rap muito interessante, mais clássico, com toques do pop, com um pouco daquilo que se chama, de maneira errada, acho eu, de pop urbana, para definir, na verdade, uma espécie de pop que se mistura com o rap. Meryl rima bem sobre instrumentais pop", avalia Boinet.

Casey, old school engajada

Com uma carreira consolidada, a francesa Casey traz a revolta do que chama de “rap de filhos de imigrantes”, com temáticas que abordam sem firulas temas como o racismo e o passado colonial da França.

"Casey faz o que chamamos de 'rap engajado'. É um rap mais politizado, Casey é alguém que nunca teve medo de falar sobre temas políticos, ela denuncia injustiças. Mas não se trata da mesma geração. Casey vai fazer 40 anos, ela começou nos anos 1990 e ficou famosa no começo dos anos 2000. É um outro tipo de rap, menos próximo do pop", explica a editora da revista Les Inrocks.

Com milhões de visualizações de seus clips e suas músicas, a nova geração de mulheres do rap francês veio para ficar, com estilo, atitude e autoafirmação. "Acredito que o denominador comum entre essas mulheres seja a atitude", acredita a jornalista.

"Existe essa atitude muito marcada entre elas de autoafirmação, falam com muita liberdade sobre escolhas sexuais, opção sexual, defeitos, drogas. Isso é algo novo: não ter medo de serem quem são nem tentarem responder a um modelo pré-definido. É algo que vemos também em alguém como Angèle, como Lous and the Yakuza, de afirmar seu próprio universo, elas são bastante sinceras, transparentes", conclui.

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