Cultura

Festival em Paris revisita vitalidade da obra documental de Pasolini

Áudio 06:30
Pasolini filma "Notas para uma Oresteia africana", documentario que integra a trilogia que o autor e diretor dedicou a Ésquilo com Édipo Rei (1967) e Medeia (1969).
Pasolini filma "Notas para uma Oresteia africana", documentario que integra a trilogia que o autor e diretor dedicou a Ésquilo com Édipo Rei (1967) e Medeia (1969). © DR

Os documentários de Pier Paolo Pasolini surpreendem por sua vitalidade e parecem conversar de maneira profunda com o público contemporâneo. Poeta, ensaísta, romancista e cineasta, Pasolini agora é homenageado pela Cinemateca do documentário do Centro Pompidou em Paris durante o festival Pasolini, Pasolinennes, Pasoliniens. Sua obra documental se traduz pelos appunti, método desenvolvido pelo multiartista italiano. Diretor forjado sob a égide do fascismo, sua obra documental é política, um panfleto crítico de sua geração, com ecos inesperados no século 21.

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“Disseram-me que tenho três ídolos: Cristo, Marx e Freud. Estas são apenas fórmulas. Na verdade, meu único ídolo é a realidade." A frase, atribuída a Pasolini durante as filmagens do premiado "O Evangelho Segundo São Mateus", reverbera o estado de espírito deste iconoclasta inconformista, que sempre detestou rótulos e etiquetas, um "deslocado entre deslocados". 

Grande figura artística e intelectual da Itália do pós-guerra, Pasolini perdeu a vida em um assassinato ainda envolto em mistério na praia de Ostia, nos arredores de Roma. A obra documental do italiano é homenageada no festival Pasolini, Pasoliniennes, Pasoliniens [em português, Pasolini, Pasolinianas, Pasolinianos]em Paris, antecipando as comemorações de seu centenário, que será celebrado em 5 de março de 2022.

Segundo o curador do festival, Arnaud Hee, em sua obra documental o artista italiano reverbera toda a sua polifonia criativa, onde podem habitar "todas as suas dimensões, poeta ou polemista, cineasta ou escritor". "Os appunti [apontamentos] podem ser traduzidos por 'notas' ou 'cadernos de notas'. É um método inventado por Pasolini. Uma forma inacabada de escritura documental, ou notas sobre filmes que não serão realizados, como na Palestina, ou não-completamente finalizados, como a Orestéia Africana. Os appunti são a verdadeira escritura documental pasoliniana, que têm um paralelo com sua dimensão literária, porque seu grande romance inacabado, 'Petróleo', retoma o princípio da escritura por appunti", destaca.

Embora a obra de Pasolini seja reconhecida em todo o mundo, boa parte de seu público não conhece sua produção documental. "Os documentários de Pasolini também são menos conhecidos na França, é um fenômeno global. Frequentemente, quando se trata de obras híbridas como a dele, misturando ficção e documentário, notamos que os documentários ficam mais escondidos, mais desconhecidos", admite o programador do Centro Pompidou.

O curador destaca a ruptura que Pasolini opera na linguagem dos documentários. "O documentário é uma escritura que tem menos margem econômica e a forma documental de Pasolini é algo muito espontâneo, de voluntariamente inacabado, algo que se assemelha a uma pesquisa filmada. Mas a obra de Pasolini não era nada marginal, ele estava no centro dos holofotes, era uma presença muito mediática e reconhecida", diz Hee.

Pier Paolo Pasolini em "Comizi d’amore", destaque do festival PASOLINI, PASOLINIENNES, PASOLINIENS!, em cartaz na Cinemateca do documentário de Paris até 21 de junho de 2021.
Pier Paolo Pasolini em "Comizi d’amore", destaque do festival PASOLINI, PASOLINIENNES, PASOLINIENS!, em cartaz na Cinemateca do documentário de Paris até 21 de junho de 2021. © DR Cineteca di-bologna/Fondo Angelo Novi

Mas não seria toda a obra de Pier Paolo Pasolini documental? O artista italiano passou a vida retratando lugares, personagens e sua linguagem, a partir de um aprofundamento vertical da realidade. Ao mesmo tempo, seus filmes traduzem o mundo moderno em ressonância com fábulas e mitos, para refletir sobre a sociedade. Mesmo se seu percurso fílmico se desloca para o exterior, tem-se a impressão de que este deslocamento serve a manter sua reflexão política sobre a Itália contemporânea.

"As formas documentais permitem a Pasolini um duplo movimento, que é o de toda a sua obra, ficções e documentários combinados: abraçar a realidade virando-a para conduzi-la ao imaginário, à mitologia, às tensões entre o arcaísmo e a modernidade", afirma Arnaud Hee.

O mergulho radical de Pasolini na linguagem documental e sua busca pelos lugares periféricos reflete seu olhar crítico sobre o mundo, como conta o curador do festival da Cinemateca do documentário de Paris. "Pasolini pesquisava alternativas. Ele considerava que a sociedade capitalista de consumo estava homogeneizando tudo, tornando tudo asséptico. Toda a sua pesquisa se concentrava em lugares considerados periféricos, onde se manifestava ainda uma forma de arcaísmo, como uma alternativa. Alguma coisa que resistisse, que opusesse resistência a essa homogeneização", lembra o programador.

"Notas para uma Oresteia africana", documentario de Pier Paolo Pasolini que integra a programação do festival do festival PASOLINI, PASOLINIENNES, PASOLINIENS!, em cartaz na Cinemateca do documentario de Paris até 21 de junho de 2021.

Depois de filmar a arquitetura iemenita, encenar a Orestéia de Ésquilo na África e gravar sua pesquisa de locações na Palestina, Pasolini se preparava para documentar a América Latina, antes de ser tragicamente assassinado em 2 de novembro de 1975. "Era seu projeto, na verdade, ele queria fazer uma espécie de Caderno de Notas para o Terceiro Mundo. Ele queria cobrir tudo, a América Latina e a América do Norte, numa espécie de cartografia mundial, ele queria completar essa cartografia", conclui o curador do festival.

O festival Pasolini, Pasolinennes, Pasoliniens fica em cartaz até 21 de junho.

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