Fotografia como ato de resistência marca presença brasileira nos Encontros de Arles

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"Jogo de Paciência", o universo imagético de Ana Sabiá.
"Jogo de Paciência", o universo imagético de Ana Sabiá. © Ana Sabiá

Os Encontros de Arles, o maior evento internacional do calendário fotográfico, voltam a dominar a pequena cidade no sul da França, famosa por suas ruínas romanas. O festival foi cancelado no ano passado por causa da pandemia. A fotografia brasileira está presente sob o signo da resistência.

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Por Patricia Moribe

“Um olhar sobre o Brasil” é uma iniciativa das associações Iandé e Photodoc, ambas voltadas para a divulgação da fotografia, com quatro eventos programados. “O tema é o ritual fotográfico como resistência ao colapso”, diz Gláucia Nogueira, da Iandé. “A gente acredita muito na criatividade brasileira, na resistência, e neste momento tão difícil, o evento é um folego, uma maneira de discutir e ampliar o debate do que acontece hoje no Brasil”.

O primeiro é a exposição “Jogo de Paciência”, em torno do isolamento, da fotógrafa Ana Sabiá, na galeria Huit Arles. Já um encontro híbrido sobre “rituais fotográficos, rituais de hibridização”, vai juntar as artistas fotográficas Ângela Berlinde e Daniela Paoliello.

Ângela Berlinde participa há vários anos do festival de Arles como leitora de portfólios, curadora e artista. Seu livro “Transa, Baladas do Último Sol”, nasceu em 2020, em plena pandemia. “É uma reflexão sobre dez anos de trabalho de processo artístico, criativo e de investigação”, nas idas e vindas entre Portugal e Brasil. “Procurei mergulhar nesse arquivo para buscar formas quase poéticas, a partir da cartografia que me levou a habitar nos últimos anos essas duas terras que são já conectadas pelo expansionismo da história moderna”.

ENCONTRO « EN APARTÉ » entre as fotógrafas ÂNGELA BERLINDE e DANIELA PAOLIELLO sobre o tema
RITUELS PHOTOGRAPHIQUES / RITUELS D’HYBRIDATION.
ENCONTRO « EN APARTÉ » entre as fotógrafas ÂNGELA BERLINDE e DANIELA PAOLIELLO sobre o tema RITUELS PHOTOGRAPHIQUES / RITUELS D’HYBRIDATION. © Daniela Paoliello (esquerda) e © Ângela Berlinde (direita).

Uma mesa redonda reunirá os fotógrafos Cao Guimarães e Rosangela Rennó, com mediação de Christine Barthe, do museu Quai Branly, em Paris. Na mesma ocasião, Andrea Eichenberger apresenta a “Pequeno Inventário Iconográfico do Brasil Contemporâneo”.

“Eu comecei a perceber que objetos da vida cotidiana recebiam uma conotação política, como a coxinha, que passa a representar pessoas conservadoras, de nível de vida elevado”, conta a fotógrafa. O contraponto vem com a mortadela. Essas fotos foram realizadas em estúdio. Para cada imagem um sociólogo, antropólogo ou historiador foi convidado a fazer um texto em forma de verbete.

“Acho que é uma forma interessante de falar sobre as transformações sociais e políticas pelas quais o Brasil vem passando porque parte de vários pontos de vista”, explica Eichenberger.

Andrea Eichenberger apresenta em Arles o "Pequeno Inventário Iconográfico do Brasil Contemporâneo”.
Andrea Eichenberger apresenta em Arles o "Pequeno Inventário Iconográfico do Brasil Contemporâneo”. © Andrea Eichenberger

No dia 8 de julho, a Iandé e a Photodoc promovem a projeção do trabalho de 30 fotógrafos. A seleção foi feita por 15 curadores de festivais no Brasil. "O objetivo é a valorização da fotografia brasileira, através dos festivais de fotografia do Brasil", diz Gláucia Nogueira.

Os Encontros de Arles acontecem de 4 de julho a 26 de setembro de 2021.

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