Revolução das moedas digitais já está em curso e ameaça o sistema bancário tradicional

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Caixa eletrônico de Bitcoins é inaugurado em um centro comercial de San Salvador (24/06/2021).
A partir de septiembre, el bitcoin operará como moneda de curso legal  en El Salvador.
Caixa eletrônico de Bitcoins é inaugurado em um centro comercial de San Salvador (24/06/2021). A partir de septiembre, el bitcoin operará como moneda de curso legal en El Salvador. MARVIN RECINOS AFP

A decisão de El Salvador de se tornar o primeiro país a transformar o bitcoin em moeda nacional e os testes da China com seu yuan digital ascenderam a luz vermelha mundo afora. Não que os Bancos Centrais já não estivessem atentos à expansão acelerada dessas moedas, mas, agora, não há mais tempo a perder para reagir ao fenômeno, que ameaça o sistema bancário tradicional, tal como conhecemos hoje.

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O que acontece no pequeno país da América Central serve de exemplo, mas também de cobaia, de como toda uma economia pode repousar sobre uma moeda independente da autoridade monetária nacional. Até os impostos podem ser pagos com bitcoins no país.

"O caso de El Salvador é algo excepcional. Não consigo imaginar que isso ocorra em Estados que emitam a própria moeda. Não é um acaso que tenha sido feito em El Salvador, que usa o dólar americano”, avalia Camila Villard Duran, professora de política monetária internacional na USP. "Acho que a tendência é de restrição a que essas criptomoedas sejam usadas como moedas. O tratamento que se busca dar é de criptoativo, que não tenha um impacto sobre o funcionamento do sistema financeiro."

Bancos Centrais no foco

Os mais entusiastas da tecnologia não têm muitas dúvidas: cedo ou tarde, as moedas digitais e as criptomoedas acabarão revolucionando a forma como consumimos e guardamos o nosso dinheiro, sem intermediários, de maneira descentralizada e segura. Mas o caminho até lá ainda é longo.

"Os bancos centrais refletem se as wallets, as contas, serão criadas sob a sua supervisão, e, neste caso, os bancos comerciais poderiam ser descartados. A séria questão a saber é se os usuários vão preferir ter wallets de moedas digitais no lugar de contas bancárias. Neste caso, o papel dos bancos também seria questionado na criação monetária, a partir das contas correntes", explica a economista Nathalie Janson, especialista no tema e professora da francesa Neoma Business School. "Mas outros pensam que os bancos centrais não farão isso porque os custos de segurança digital e de data seriam altos demais, e o melhor seria passar pelos bancos como distribuidores da moeda digital”, pondera.

A Turquia, um dos países onde há mais bitcoins em circulação no mundo, experimentou a força das criptomoedas. Com a divisa nacional, a lira turca, em queda livre, milhares de usuários se refugiaram em criptomoedas, levando o país a proibi-las para evitar uma crise ainda maior.

"Evidentemente, ela é usada como meio de transação, mas por enquanto é mais limitada a países que enfrentam uma grande instabilidade monetária. É por isso que hoje ela é mais comum em países da África e da América Latina, onde tem hiperinflação e problemas de estabilidade da moeda”, frisa a especialista francesa.

Criação moedas soberanas digitais

De um lado, países como Egito, Bangladesh ou Bolívia tentam resolver o impasse à moda antiga, proibindo a utilização das criptos. Outros, como a China, decidiram restringir as transações mais valiosas em bitcoins, enquanto não avançam seus próprios projetos de moeda digital. Um yuan digital já está em testes, com cerca de 500 mil usuários.

Os planos de Pequim, acelerados para enfrentar a chegada da moeda do Facebook, a diem, deram um empurrão nos países ocidentais. "O primeiro grande desafio para os bancos centrais foi a criação do que a gente de stable coins, que buscam conter a volatilidade das criptomoedas em geral, com o projeto do Facebook. Elas procuram ter uma estabilidade do valor e poderiam ser uma verdadeira concorrência com as moedas emitidas por Estados ou instituições financeiras submetidas a regulação”, nota Camilla Villard.

Uma pesquisa da plataforma de blockchain Bison Trails indicou que 80% dos bancos centrais do mundo se interessam em desenvolver moedas digitais nacionais, chamadas de CBDC, na sigla em inglês. "O que nós estamos talvez vivendo é um momento histórico, de mudança do funcionamento do sistema financeiro. O business do banco vai ser totalmente revolucionado”, aposta a professora da USP.

Camila Villard Duran, professora de política monetária internacional na USP, realiza uma pesquisa no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Nantes, na França.
Camila Villard Duran, professora de política monetária internacional na USP, realiza uma pesquisa no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Nantes, na França. © Arquivo pessoal

Na semana passada, o presidente do Banco da França alertou que a regulação das criptomoedas se tornou “imperativa" para o bloco europeu, e deve ser feita em no máximo dois anos. Ele advertiu sobre a ameaça que elas representam para o enfraquecimento do euro e, em última análise, para a perda da soberania monetária.

"É um jogo geopolítico também, do lugar de cada moeda no plano internacional. Pelo princípio de que o primeiro que chegar será o primeiro a ter sucesso, se o digital yuan se lançar rápido no mercado das moedas digitais soberanas, ele poderá ter uma vantagem em relação ao dólar”, ressalta Nathalie Janson. “O Banco Central Europeu percebeu a mesma coisa e foi o segundo a acelerar as suas pesquisas nesse sentido.”

O projeto de real digital do governo brasileiro foi lançado no ano passado. Os planos de emissão de moeda digital, que pipocam pelo mundo todo, contam com o apoio do BIS, o Banco de Compensações Internacionais.

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