Economia

Comércio justo de guaraná na Europa garante sustento de comunidades indígenas da Amazônia

Áudio 05:46
Presidente do consórcio dos Produtores Sateré Mawé
Presidente do consórcio dos Produtores Sateré Mawé © Sérgio Wara

Quando pensamos no preço de um produto, nem sempre incluímos a origem, o transporte, o saber de um cultivo ou os danos causados ao meio ambiente. Mas uma faceta da economia ganha cada vez mais força, propondo um comércio justo e equilibrado. Nesse setor, o que está em jogo não são apenas os preços das matérias-primas, mas a conscientização e os programas sociais por trás da sua venda.  

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Valorizar e reconhecer o impacto da distribuição de produtos da floresta Amazônica é um dos pilares das atividades da empresa francesa Guayapi, fundada nos anos 1990, e uma prática que vem ganhando força no mercado. O conceito se destaca quando os países precisam enfrentar juntos a crise climática. A ideia, contudo, não é nova. Nasceu nos anos 1960, como explica Bastien Beaufort, diretor da empresa.

“Na época da Guerra Fria entre o comunismo e o capitalismo, numa conferência internacional, cerca de 80 países, principalmente da região tropical do mundo, defenderam uma terceira via, propondo um comércio justo e não ajuda” financeira, contextualiza. O empresário cita os dois objetivos centrais da prática: “ter uma forma de comércio mais justa para os pequenos produtores do mundo garantirem um salário digno e tentar mudar as regras do comércio internacional”.

O comércio justo se normalizou nos anos 1970 nas cooperativas de café do México. E desde então, se espalhou pela Europa e o resto do mundo.

Waraná virou guaraná

O guaraná foi a primeira planta da Amazônia que a Guayapi introduziu no mercado europeu. “A gente encontrou, através de uma antropóloga, o povo Sateré Mawé, que vive na Amazônia central e que é conhecido como o criador da cultura do guaraná, que eles chamam waraná, e traduzem como princípio de todo o conhecimento”, afirma.

“A nossa ideia no comércio justo é permitir que o produtor possa cultivar o guaraná de forma tradicional, sem desmatar, que ele possa ter vários outros produtos nas suas roças, florestas, e não ter que apostar numa só commodity”, continua Beaufort.

Preço justo

Porém, é na hora de estabelecer o preço da matéria-prima que o comércio justo faz a diferença. No caso do guaraná em pó, os valores pagos aos produtores ficam bem acima do mercado brasileiro. “A gente compra a 50 euros o quilo de guaraná em pó do consórcio dos produtores Sataré Mawé, que é um preço muito mais alto do que o preço médio para o guaraná convencional no Brasil”, diz Beaufort. Cerca de 15 vezes mais, se compararmos aos R$ 20 o quilo, pagos localmente.

PhD da Universidade Sorbonne em Geografia e urbanismo, Bastien Beaufort acredita que o consumidor está disposto a pagar mais caro se for informado dos benefícios sociais e ambientais que compõem o preço. “Quando o consumidor tem essa informação, eu posso assegurar para você que ele vai sempre escolher o produto mais justo e que vai cuidar do meio ambiente e dos produtores”, diz. “Há vários programas sócio-ecológicos que o consumidor, como cidadão, sabe que vai apoiar."

Embora esteja crescendo, o comércio justo ainda representa apenas 0,5% de todas as transações comerciais internacionais. “Ainda somos uma gota de água no oceano do comércio mundial”, compara o empresário francês.

“No caso do guaraná, há uma dominação das grandes multinacionais da bebida para extrair o princípio ativo da planta do guaraná e colocar numa fórmula que tem muita água, gás, açúcar e extrato de guaraná”, diz. “Esse produto final está baseado num sistema de monocultivo, com sementes híbridas, riscos de desmatamento e os produtores ainda não recebem um preço justo”, observa.

Bastien Beaufort, diretor da Guayapi.
Bastien Beaufort, diretor da Guayapi. © Alexandre Asmodé

Da reserva indígena para o mercado europeu

Para os 18.000 Sateré Mawé que vivem em 120 comunidades nos arredores de Parintis, a 300 quilômetros de Manaus, no estado do Amazonas, a garantia do comércio justo significa a chance de preservar seu território de quase 800 mil hectares.

A Terra Indígena Andirá-Marau é a base do Consórcio de Produtores Sateré Mawé (CPSM). “Hoje, a gente tem uma parceira comercial que é a Guayapi que fez com que o waraná (guaraná) Sateré Mawé seja reconhecido na Europa como suplemento alimentar", explica à RFI Sérgio Garcia Wara, presidente do consórcio. "E hoje, a Guayapi não trabalha somente com a comercialização do produto. Mas sim em ajudar a sermos autogestores do nosso território", completa.

Os indígenas exportam 11 produtos para a Europa. Entre os projetos mantidos pela parceria estão o reflorestamento de áreas degradadas e o cultivo de abelhas silvestres. “A riqueza, para nós, é ter acesso às plantações, ter comida saudável, ter floresta, poder caçar, ter um rio limpo onde a gente possa pescar. Essa é a essência do projeto", acrescenta Wara. "O dinheiro faz parte sim, mas só complementa o que hoje a gente precisa”. 

Potencial verde

Além do guaraná, Bastien Beaufort cita outros produtos originários da Amazônia, lugar que ele define como “uma das maiores riquezas botânicas do mundo”. Entre as plantas que ganharam destaque nas civilizações e que saíram de lá estão: tomate, tabaco, cacau, “mas a gente esqueceu essa origem porque essas plantas são muito globalizadas”, explica.

“Porém, até hoje há plantas pouco conhecidas do resto do mundo e que são muito interessantes, como a acerola, o açaí,” cita, além de espécies ainda menos divulgadas como “a carqueja e a unha de gato”.

Para ganhar escala, o comércio justo deverá extrapolar a área das commodities, como café, cacau e banana, em que vem sendo cada vez mais empregado. “No futuro, o comércio justo vai se expandir. Ele vai entrar no âmbito dos transportes internacionais, com energias renováveis”, aposta Beaufort. “Há várias aplicações, que ainda são como sementes, mas que amanhã vão dar frutos porque a filosofia se expande”, diz.

Resistência à crise

Apesar da crise sanitária, o comércio justo e os produtos da agricultura orgânica são dois setores que estão em pleno crescimento na França e resistiram à pandemia, destaca Bastien Beaufort. “Os cidadãos tomaram consciência que o seu consumo pode ter um impacto produtivo para a sociedade, isso é comprovado por estudos sociológicos”. Então, “o aprendizado dessa crise é que o comércio justo é uma forma de autonomia para os consumidores, que vão comprar de uma maneira consciente, que vão tomar conta da própria saúde e vão beneficiar os produtores”.

“Os produtores não podem ser dependentes de um mercado mundial que tem preços baixos, que tem agrotóxicos que destroem o meio ambiente e é baseado num só produto, cotado em bolsa. Eles devem poder morar no seu ambiente original, com uma variedade de produtos e com autonomia alimentar” conclui Beaufort.

Para assistir ao vídeo da entrevista na íntegra, clique na foto principal.

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