Esportes

Futebol virou grande negócio mas ainda inspira escritores no Brasil e na França

Áudio 07:46
Livors sobre esporte
Livors sobre esporte © Fotomontagem RFI

Desde Nelson Rodrigues e suas memoráveis crônicas de futebol, reunidas na coletânea “À sombra das chuteiras imortais”, o esporte mais popular do mundo continua inspirando escritores no Brasil, mas também em outros países. O jornalista brasileiro Eduardo Lamas publica o nostálgico “Contos da Bola”, pela editora Cartola, e o francês Olivier Guez “Une passion absurde et devorante” (“Uma paixão absurda e devoradora”) pela editora L’Observatoire.

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Olivier Guez e Eduardo Lamas não se conhecem, mas, além da paixão pelo futebol, têm muitas coisas em comum, a começar pela Copa do Mundo de 1982. Foi durante o Mundial na Espanha que Olivier Guez assitiu pela primeira vez a disputa planetária e descobriu que estava conectado com o mundo.

“O primeiro jogo que assisti, na TV na casa de meus avôs em Estrasburgo (leste da França) foi o França x Inglaterra. A seleção francesa não se saiu bem, mas comigo aconteceu algo impressionante. Deixei a sala onde estava, o círculo familiar, a cidade média onde morava, para integrar uma comunidade mundial, a comunidade dos apaixonados pelo futebol. Eu estava, de alguma maneira, linkado com o planeta”, lembra em entrevista a Pierre-Edouard Deldique da RFI.

A Copa do Mundo de 1982, e a seleção canarinho comandada por Zico, também marcou a geração do carioca Eduardo Lamas. “A seleção de 82 marcou a minha geração. 1982 é o meu auge como torcedor. Eu tinha 16 anos. É uma selação que marcou muito todos nós”.

Eduardo Lamas, autor de "Contos da bola".
Eduardo Lamas, autor de "Contos da bola". © Arquivo pessoal

“Uma paixão absurda e devoradora” é o segundo livro de Oliver Guez sobre o futebol que, segundo ele, é “uma cultura formidável”. Em 2014, pouco antes da Copa do Mundo no Brasil, publicou “L`Éloge de l’Esquive” (“O Elogio da Esquiva”), sobre o drible e o futebol arte brasileiro. Ele lamenta ser um dos poucos a escrever sobre o esporte na França, bicampeã mundial, que não é um país do futebol.

"O que me impresiona é que, ao contrário de países vizinhos e outras grandes nações sul-americanas, a França só ama o futebol quando a seleção nacional ganha. Há uma espécie de desprezo dos intelectuais do país com o futebol, considerado ópio do povo. Em outros países, vários escritores se interessaram pelo futebol, sem nenhuma vergonha. Por exemplo, o cantor Chico Buarque, que também é um grande escritor brasileiro, adora e joga futebol e isso não é nenhum problema”, salienta Guez.

Argentina de Maradona

Apesar de admirar o futebol brasileiro, a verdadeira paixão de Guez na América Latina é Argentina, terra de Maradona, tema de várias crônicas de “Uma paixão absurda e devoradora”. “Assistir um jogo de uma arquibancada na Argentina é um espetáculo excepcional. Um torcedor fanático tem que ter a chance de assistir um jogo em um estádio argentino”, sentencia o escritor francês.

Como Olivier Guez, Eduardo Lamas também sonhou, criança, em ser um craque da bola, antes de virar um torcedor apaixonado e transformar os jogos e momentos que viveu nas arquibancadas em ficção. Os Contos da Bola lembram o velho Maracanã, o maior estádio do mundo, a Copa de 1970 e outras vitórias, as peladas nas ruas, o entusiasmo de campeonatos estaduais, o futebol arte. Para o jornalista brasileiro, todo torcedor é nostálgico:

“O torcedor é em essência nostálgico. Embora ele esteja ali no dia a dia torcendo, acompanhando o noticiário, querendo saber quem o clube vai contratar, quem não vai, ele está sempre se referindo ao passado, aos grandes times, mesmo os mais jovens. Volta e meia, eles fazem nas redes sociais enquetes sobre os melhores jogadores de determinado clube, fazem a seleção dos melhores jogadores do mundo de todos os tempos."

"Futebol virou um grande negócio"

Tanto Olivier Guez quanto Eduardo Lamas criticam o futebol atual que se transformou em um grande negócio. O escritor carioca, hoje radicado em Florianópolis, diz que quase não vai mais aos estádios e tem dificuldades em criar no ambiente atual:

“Hoje em dia o futebol ficou profissional demais. Virou um grande negócio. Os clubes são empresas. Lógico que o futebol sempre traz muitas histórias interessantes, tanto dentro quanto fora de campo, mas hoje em dia eu não consigo criar muito com esse ambiente atual, talvez de uma forma mais crítica, sim", revela.

No entanto, Lamas já prepara o segundo volume de “Contos da Bola” onde as mulheres, praticamente ausentes do primeiro volume, marcarão presença:

"O futebol feminino está ficando cada vez mais forte. As mulheres estão muito mais presentes do que na época em que eu era torcedor. Para você ter uma ideia, o futebol feminino era proibido no Brasil até a década de 1970. Tinha muito preconceito porque naquela época, realmente, elas eram muito pouco presentes e quando uma mulher mais bonita aparecia na arquibancada os gritos não eram muito elogiosos, o que revela também um caráter bem complicado da nossa cultura machista", acredita o jornalista.

Eduardo Lamas tem também um projeto sobre música e futebol “Jogada de música” e escolhe para resumir a frutífera relação entre as duas artes no Brasil, o choro 1 a 0 de Pixinguinha, o primeiro de todos, composto em homenagem à vitória do Brasil sobre a seleção uruguaia no campeonato sul-americano de 1919.

Os livros "Une passion absurde et devorante”, de Olivier Guez, e "Contos da Bola", de Eduardo Lamas, também estão disponíveis em versão ebook nas plataformas digitais.

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