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Venezuela: beatificação do “médico dos pobres” leva esperança em tempos de Covid-19

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Beatificação do "Médico dos pobres" José Gregorio Hernández.
Beatificação do "Médico dos pobres" José Gregorio Hernández. AP - Ariana Cubillos

Conhecido em toda a Venezuela como o médico dos pobres, José Gregório Hernández (1864-1919) será beatificado na manhã desta sexta-feira (30) em uma igreja de difícil acesso na capital, Caracas. O lugar foi estrategicamente escolhido para evitar aglomerações durante a pandemia. As expectativas em torno dos milagres do agora beato vão desde a cura aos pacientes atingidos pela Covid-19 à política.

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Por Elianah Jorge, correspondente da RFI em Caracas

O Papa Francisco tem expectativas em torno de José Gregório Hernández. Ele espera que o médico dos pobres, como é conhecido o novo beato venezuelano, facilite uma possível reconciliação entre o governo e oposição. Para o pontifice, “a beatificação do doutor Hernández é uma benção especial de Deus à Venezuela, e nos convida à conversão rumo a uma maior solidariedade”.

Há décadas a grande maioria dos venezuelanos aguardava o anúncio, que antecede a canonização. Em todo o país é comum ver estátuas ou imagens de José Gregório em hospitais e em quartos de doentes. A população, amedrontada pela pandemia, considera a beatificação outro milagre.

Em seu escritório e protegida por duas imagens de José Gregório Hernández, a administradora Isabel Lucy destaca a importância da celebração neste momento. "É um milagre que estejamos passando por esse processo de beatificação. A pandemia atingiu muito o setor da saúde e aqueles que não têm recursos para arcar com os tratamentos. A fé é um dos grandes remédios que temos hoje em dia. Essa beatificação é um grande alívio e uma grande ajuda”, ressalta.

Terno e bigode

Vários murais espalhados em todo o país mostram um homem de bigode, com expressão serena e vestindo terno negro. Essa é a imagem que representa José Gregorio Hernández, de acordo com fotos do médico que morreu aos 54 anos, em 1919, atropelado em Caracas.

Por promessa feita na hora do parto ou por devoção de algum familiar, é muito comum encontrar em toda a Venezuela homens com o nome do beato.

A fama de José Gregorio começou graças às consultas gratuitas em doentes de baixos recursos. O doutor venezuelano também doava remédios aos mais carentes. Daí surgiu o carinhoso apelido de "o médico dos pobres".

Entre a agitada vida de médico, filantropo e a de professor na então principal universidade venezuelana, Gregorio encontrou tempo para fundar a Academia Nacional de Medicina. Foi pioneiro em patologia, bacteriologia e fisiologia experimental. Também combateu a epidemia da gripe espanhola.

Na memória popular, várias dádivas são atribuídas a José Gregorio Hernández, mas foi em 2020 que o Papa Francisco reconheceu um desses milagres. Uma jovem de 10 anos sobreviveu sem sequelas após ser operada para retirar uma bala na cabeça. A mãe dela, na hora da cirurgia, pediu a José Gregório que salvasse sua filha. Em seguida, sentiu uma mão em seu ombro e ouviu que “tudo estaria bem”. Assim o milagre foi reconhecido e a beatificação concedida pelo Santo Padre.

Apenas 150 participantes

A esperada cerimônia da declaração de beatificação de José Gregorio será em uma igreja de difícil acesso localizada dentro de um colégio católico em Caracas. O lugar remoto foi escolhido estrategicamente para impedir a aglomeração dos milhares de fiéis do médico. Essa foi a forma encontrada para barrar os contágios pela Covid-19.

Um dos organizadores da celebração pediu que cada fiel transformasse suas casas em pequenos templos para comemorar a tão esperada beatificação. A cerimônia será transmitida pelos canais estatais.

Quem presidirá a cerimônia será o responsável pelo núncio apostólico na Venezuela já que o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, cancelou a visita a este país por causa da pandemia. Todas as 150 pessoas que estarão na cerimônia fizeram testes para constatar que estão livres do novo coronavírus. Entre elas estará a jovem venezuelana cujo o reconhecimento da graça alcançada levou à beatificação de José Gregorio Hernández.

“A cerimônia será austera, sóbria, simples mas carregada de muita espiritualidade”, de acordo com uma das organizadoras da celebração.

As relíquias do médico dos pobres serão levadas a cada uma das dioceses do país em reconhecimento à importância de José Gregorio aos venezuelanos.  

Sopro de esperança e fé

Após uma análise que avaliou a pobreza, a inflação, o Produtor Interno Bruto e o desemprego, a Venezuela foi classificada como o país mais miserável do mundo, de acordo com o Índice Anual de Miséria de Hanke.

Além da pobreza, que acomete cerca de 80% da população, a situação do país é agravada com a alta de infectados pela covid. De acordo com o presidente Nicolás Maduro nas últimas horas foram registrados 1.238 novos casos da doença.

Uma internação para o tratamento da covid não sai por menos que US$ 10 mil (cerca de R$ 53 mil) em um hospital particular. Já uma cartela de remédios contra o vírus custa cerca de US$ 150 dólares na mão de revendedores. Sem ter como pagar pelo tratamento contra a covid, as pessoas das camadas mais carentes da sociedade recorrem à fé, a orações e a promessas ao médico dos pobres.

A beatificação de José Gregório é vista como um sopro de esperança aos mais necessitados e em um país que parece estar à espera, literalmente, de um milagre.

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