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Dia das Mães na Bolívia homenageia participação de mulheres na Guerra da Independência

Áudio 04:52
A ex-presidente Jeanine Áñez com os filhos
A ex-presidente Jeanine Áñez com os filhos © arquivo pessoal

A Bolívia comemora hoje (27) o Dia das Mães, numa data diferente dos demais países da região e que celebra a participação das mulheres na Guerra de Independência do país. Além das dificuldades comuns do cotidiano, muitas delas agora enfrentam as complicações impostas pela pandemia de coronavírus.

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Por Elianah Jorge, correspondente da RFI em Caracas

Graças às Heroínas de la Coronilla, como são conhecidas as mulheres lideradas por Manuela Gandarrillas na Batalha de Cochabamba, a Bolívia celebra hoje o Dia das Mães. Incentivadas pelo alto número de homens mortos no conflito, em 27 de maio de 1812 elas decidiram pegar em armas em defesa da terra e de seus familiares. O combate é considerado um dos mais sangrentos da Guerras da Independência da Bolívia. Mas foi só a partir de 1927 que uma lei oficializou a comemoração da data em nível nacional.   

A engenheira comercial Marcela Vargas explica que o Dia das Mães na Bolívia é tão importante quanto o Natal. “Isso faz parte da cultura boliviana. Agora, com a pandemia, temos de apenas enviar um presente, mas antes passávamos a data com elas”, comenta.

O Dia das Mães Bolivianas não segue a regra do segundo domingo de maio, e pode cair, como acontece este ano, em plena semana. Antes da pandemia, era comum que os locais de trabalho flexibilizassem a carga horária dos funcionários para que eles pudessem prestigiar suas mães, além de presenteá-las com o tradicional buquê de rosas.

Alguns enviarão presentes, outros driblarão a regra do isolamento social para estar com suas mães. No entanto, esta não é uma possibilidade para Carolina Ribera Áñez (1990) e para José Armando Ribera Áñez (1995), filhos da ex-presidente Jeanine Áñez. Em 12 de março deste ano, a antecessora de Luis Arce Catacora foi presa. Ela se encontra em uma prisão de máxima segurança em La Paz.   

Jeanine Áñez com seus filhos Carolina Ribera e José Armando Ribera Áñez
Jeanine Áñez com seus filhos Carolina Ribera e José Armando Ribera Áñez © arquivo pessoal

Áñez e cinco de seus ex-ministros, entre eles o de Governo e o da Defesa, foram acusados de terrorismo, traição e conspiração. De acordo com o atual governo, liderado pelo Movimento ao Socialismo (MAS), o grupo da ex-presidente estaria por trás do suposto golpe de Estado contra o ex-presidente Evo Morales. Ao todo, oito acusações pesam sobre Jeanine.

A ex-presidente considera sua prisão “um ato de abuso e de perseguição política” e dentro de um processo judicial que “não tem pé nem cabeça”. Em declarações exclusivas à RFI Brasil, Carolina Ribera, filha de Jeanine Anez, afirmou que este “será o primeiro ano que não poderemos passar com a minha mãe, a ex-presidente da Bolívia. Para nós é muito difícil como família, como filhos, a injustiça que ela está vivendo. O governo de Luis Arce Catacora tem minha mãe sequestrada há mais de dois meses”. 

Indignada com a situação de Jeanine, Carolina exige que, “neste Dia das Mães, a minha possa se defender em liberdade e que seja respeitado o devido processo (legal)”. Áñez substituiu Evo Morales após sua renúncia, em novembro de 2020, em meio uma crise após eleições denunciadas como fraudulentas.

“Ela está sendo culpada por crimes que não cometeu”, alega Ribera. A filha, com Covid-19, não poderá visitar Áñez neste Dia das Mães. Ela é uma das mais de 355 mil pessoas que testaram positivo desde a chegada da doença na Bolívia, no ano passado.

Nas últimas horas o Ministério da Saúde da Bolívia recebeu um lote com mais de 100 mil doses da vacina Pfizer. Desde 24 de fevereiro deste ano, a Bolívia já imunizou mais de 820 mil cidadãos com a primeira dose do imunizante, e pouco mais de 300 mil tomaram a segunda. O governo boliviano vem usando as vacinas russa Sputnik V, a chinesa Sinopharm, e a dos laboratórios AstraZeneca e Pfizer, através do mecanismo COVAX.

“Cuide da sua mãe”

Em La Paz, onde moram cerca de 750 mil pessoas, está sendo promovida a campanha “Cuide da sua mãe”. A meta dos organizadores é sensibilizar a população sobre importância da vacinação contra a Covid-19.

Porém as bolivianas precisam de mais políticas estatais em seu benefício. Há anos o país registra altos índices de feminicídios, grande parte deles causados por maridos ou companheiros. Até março deste ano, pelo menos 24 mulheres foram assassinadas na Bolívia. Os casos de feminicídio chegaram a 70 só no primeiro semestre de 2019. 

Na campanha presidencial de 2019, o presidente e então candidato Evo Morales chegou a anunciar um plano para conter o flagelo do feminicídio e classificá-lo como crime de lesa humanidade.  Recentemente, a vice-ministra da Comunicação, Gabriela Alcón, anunciou uma lei que, pela primeira vez, enquadra o feminicídio com penas de até 30 anos de prisão. 

“Esta é uma luta diária contra o machismo e o sistema patriarcal que faz com que outro mundo seja possível”, declarou Alcón. Ao longo de 2021, foi registrada uma média de 124 casos por dia de violência à mulher, de acordo com a Lei 348.

Em Cobija, capital no norte boliviano, foi lançada uma campanha de planejamento familiar e de promoção do exame Papanicolau para a detecção preventiva do câncer de colo uterino. 

Por sua vez, a organização Plano Internacional Bolívia promove uma campanha de conscientização no país para evitar a gravidez na adolescência. A página da ONG destaca que “as meninas não devem ser mães" e a importância de "as jovens poderem exercer seu direito à educação e tomar decisões informadas sobre suas vidas”.

De acordo com um levantamento divulgado em 2017 pelo Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), a taxa de natalidade entre jovens de 15 a 19 anos na Bolívia é de 116 para cada mil pessoas.

Descontos para agitar a economia

Uma das datas mais importantes do calendário boliviano não ficaria de fora dos interesses dos comerciantes. Há semanas supermercados, lojas de eletrodomésticos, roupas e artigos femininos oferecem promoções para o presente do Dia das Mães, com descontos de até 50%. “É nesta época que aproveitamos para vender e driblar as perdas (no comércio) geradas pelo confinamento da pandemia. Estou tendo bons resultados este ano”, explica o vendedor Juan Gutiérrez.       

De acordo com o Índice Global de Atividade Econômica (IGAE), divulgado pelo Ministério de Economia e Finanças Públicas, entre janeiro e abril deste ano a economia da Bolívia cresceu 5,3%, alavancada pelos setores de mineração, construção, hidrocarbonetos, indústria e comércio.

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