Linha Direta

Rússia financia expansão de usina nuclear em área sísmica da Hungria e irrita austríacos

Áudio 07:03
Em protesto ocorrido em Budapeste em abril de 2014, ativistas da ONG Greenpeace protestaram contra o projeto de expansão da usina nuclear Paks II na Hungria.
Em protesto ocorrido em Budapeste em abril de 2014, ativistas da ONG Greenpeace protestaram contra o projeto de expansão da usina nuclear Paks II na Hungria. AP - Balazs Mohai

Relatório de agência ambiental austríaca adverte para o perigo da expansão da usina nuclear de Paks, no centro da Hungria. Segundo o documento, a usina de Paks, que produz mais de 50% da eletricidade consumida pelos húngaros, está localizada em cima de uma falha sísmica ativa. O projeto conta com o apoio financeiro da Rússia.

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Letícia Fonseca-Sourander, correspondente em Bruxelas

A Hungria pretende expandir a usina nuclear de Paks, a única em funcionamento no país, em 2 mil MW com duas unidades de 1.200 MW cada. O projeto controverso foi oficializado em 2014 quando a Rússia fechou um acordo com o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán.

O negócio envolve cerca de € 10 bilhões, valor do empréstimo de Moscou para viabilizar 80% do plano. O documento assinado pelo presidente russo, Vladimir Putin, e Orbán, que é um dos apoiadores mais fervorosos de Putin na União Europeia, descreve a transação como uma "cooperação para uso pacífico da energia atômica".

Porém, um relatório recente da Agência Ambiental Federal da Áustria soou o alarme ao divulgar que a usina nuclear de Paks, construída na década de 1970, está localizada bem em cima de uma falha sísmica ativa, a 100 km ao sul da capital Budapeste. Segundo a agência austríaca, “a potencial ocorrência de um deslocamento da superfície permanente no local não pode ser excluída de acordo com evidências científicas. A expansão da usina nuclear de Paks deve, no entanto, ser considerada inadequada”. Quanto ao estudo apresentado pela empresa responsável pelo projeto, autoridades austríacas revelam que a licença de construção “omite informações importantes”.

Gigante russa

A estatal russa de energia nuclear Rosatom será responsável pela construção de mais dois grandes reatores nucleares moderados à água (VVER) dentro da planta central da usina nuclear de Paks. Atualmente, a central opera com quatro reatores de água pressurizada VVER-440.

A Rosatom é uma corporação estatal russa que engloba mais de 250 empresas e instituições científicas, incluindo todas as firmas civis nucleares da Rússia, as instalações do complexo de armas nucleares, organizações de pesquisa e a única frota de propulsão nuclear do mundo com navios quebra-gelo e submarinos. A empresa ocupa posição de liderança no mercado mundial de tecnologias nucleares e implementa projetos em vários países.

A Autoridade de Energia Atômica da Hungria tem até o mês de setembro para aprovar a licença da Paks II. O governo húngaro espera que a construção comece no próximo ano e que o país possa iniciar o pagamento do empréstimo aos russos em 2031.

A União Europeia aprovou a expansão da usina nuclear de Paks em 2017. Porém, no ano seguinte, a Áustria processou a Comissão de Bruxelas, órgão executivo do bloco, por ter permitido o projeto. O caso ainda está pendente.

A estatal russa de energia nuclear Rosatom será responsável pela construção de mais dois grandes reatores nucleares moderados à água (VVER) dentro da planta central da usina nuclear de Paks, na Hungria.
A estatal russa de energia nuclear Rosatom será responsável pela construção de mais dois grandes reatores nucleares moderados à água (VVER) dentro da planta central da usina nuclear de Paks, na Hungria. REUTERS - EVGENIA NOVOZHENINA

Atual relação entre Hungria e Rússia

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, é o líder europeu que mantêm melhores relações com a Rússia. No poder desde 2010, Orbán é um admirador declarado de Putin e os dois se reúnem pelo menos uma vez por ano.

Os húngaros são extremamente dependentes do gás e petróleo russos. A Rússia fornece nada menos do que 80% do gás natural consumido na Hungria. Neste ano, a Hungria se ligou ao gasoduto Turk Stream, um projeto da gigante russa Gazprom destinado a transportar gás através do mar Negro para a Turquia e diversos países do bloco europeu.

Especialistas acreditam que o empréstimo contraído pelo governo de Budapeste para a expansão da usina nuclear de Paks vai aumentar a dependência energética dos húngaros em relação à Rússia. Orbán foi um dos poucos membros da União Europeia que criticou abertamente as sanções impostas a Moscou pela anexação da Crimeia e pela sua intervenção no conflito no leste da Ucrânia.

A Hungria fez parte da ex-União Soviética durante 47 anos. No entanto, na era pós-soviética, os húngaros nunca se mostraram muito fãs da Rússia. A chegada de Órban ao poder, um líder nacionalista ultraconservador e adversário dos países do oeste do bloco, atenuou essa oposição, já que Orbán se mostra bastante confortável com sua estreita amizade com Putin.

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