Venezuela é criticada por utilizar vacina cubana sem aprovação da OMS

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Detenta é vacinada na prisão de Los Teques, na Venezuela, em 2 de julho.
Detenta é vacinada na prisão de Los Teques, na Venezuela, em 2 de julho. Jesus VARGAS AFP

A decisão do governo de Nicolás Maduro de aplicar na população a vacina cubana Abdala contra a Covid-19 vem deixando cidadãos e a comunidade científica do país em alerta. Embora Cuba garanta que o imunizante tenha 92% de eficácia contra o novo coronavírus, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda não anunciou a aprovação do produto utilizado em milhares de venezuelanos.

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Elianah Jorge, correspondente da RFI em Caracas

De acordo com as estatísticas do governo venezuelano, cerca de 11% da população já foi vacinada com imunizantes de diversas origens. Entre os produtos aplicados no país estão a russa Sputnik V, as chinesas Sinopharm, VeroCell e a Abdala, uma das cinco vacinas elaboradas por Cuba. Em junho deste ano, a Venezuela recebeu o primeiro lote deste imunizante. 

De acordo com o governo venezuelano, foi assinado um contrato para a aquisição de 12 milhões de doses da Abdala. Essa é uma quantidade suficiente para atender a quatro milhões de cidadãos, tendo em vista que são necessárias três injeções por pessoa do imunizante cubano para garantir a proteção contra a Covid-19.     

No entanto, infectologistas garantem que a Abdala não deve ser parte de um plano de vacinação massiva por enquanto. O correto, segundo especialistas, seria aplicá-lo como parte de um ensaio clínico em voluntários. Para isso seria necessária uma autorização por escrito na qual a pessoa manifesta estar ciente de que está participando de um estudo científico e que a vacina ainda não tem comprovação autenticada pela comunidade internacional. 

Médicos cubanos que trabalham na Venezuela já aplicaram a Abdala em mais de dez mil pessoas. No último domingo (4), moradores do Forte Tiúna, área militar localizada em Caracas, que receberam a primeira dose da Abdala, afirmaram não ter sido notificados sobre a falta de aprovação da OMS sobre vacina, e tampouco assinaram qualquer documento dando aval para participar de possíveis testes.    

Publicação científica

Tanto a comunidade científica venezuelana como a internacional afirma que seria adequada a divulgação dos resultados da Abdala em alguma publicação médica para que este fármaco seja reconhecido pela OMS. 

“Seria muito importante que os produtores da vacina Abdala pudessem, se terminaram todos os processos das fases 1, 2 e 3 de testes, publicar estes resultados em revistas científicas para que, de forma pública, a comunidade científica possa avaliar e conhecer esses dados”, ressaltou Jarbas Barbosa, subdiretor da Organização Panamericana de Saúde, braço regional da OMS.

Caso Havana queira que esta vacina seja incluída no mecanismo Covax, será primeiramente necessário pedir a autorização para uso de emergência à OMS. Cuba é o primeiro país latino-americano a chegar à última etapa de desenvolvimento de imunizantes anticovid. A meta do governo da ilha, que já vacinou milhões de cidadãos cubanos, é exportar doses da vacina. 

Segundo autoridades cubanas, a Abdala tem 92% de eficácia contra o novo coronavírus. A OMS aceita imunizantes com resultados comprovados superiores a 50%.

De acordo com o Ministério de Saúde Pública de Cuba, as vacinas Soberana 02 e Abdala foram administradas em cerca de 2,69 milhões de cubanos como parte de ensaios clínicos, apesar das controvérsias internacionais.

Quem se candidatou a ser imunizado com o produto cubano foi Diosdado Cabello, o segundo homem forte do chavismo. Ele, que já teve Covid-19, afirmou não ter nada contra as demais vacinas, “mas esta [a Abdala] é um esforço do povo e do governo cubano”. 

Críticas à Abdala

Há poucas semanas começou em toda a Venezuela a segunda etapa da vacinação massiva. Além da Abdala, os imunizantes russo Sputinik V e chineses VeroCell e Sinopharm estão sendo utilizados. 

A ONG Médicos Unidos da Venezuela destacou a necessidade de não apenas informar, mas também de obter a autorização por escrito de quem aceitar receber a Abdala. A Academia de Medicina Venezuelana reforçou que o governo local deveria priorizar a importação de vacinas já reconhecidas em vez de medicamentos que requerem aprovação. Já o Fórum Cívico da Venezuela e representantes de outras instituições científicas exigiram na última quarta-feira (7) que a aplicação da Abdala passe por uma profunda e imparcial pesquisa.  

A Organização Panamericana de Saúde (OPS) recomendou às autoridades venezuelanas informar à população detalhes sobre o medicamento cubano. Mas até o momento não houve resposta do governo venezuelano a este pedido. Também não há informações sobre reações adversas em pessoas que receberam a Abdala. 

Maduro anunciou que pretende vacinar crianças e adolescentes com a vacina cubana até outubro deste ano, quando começa o ano acadêmico no país. Mas a Sociedade Venezuelana de Puericultura e Pediatria rejeitou que a Abdala seja aplicada em crianças já que não há comprovação internacional sobre sua segurança e eficácia. 

O presidente venezuelano argumenta que Cuba começou testes com a Abdala em menores de entre três a 16 anos. “É provável que até outubro o ensaio em Cuba esteja completo e é provável que possamos começar a vacinar crianças e adolescentes", afirmou o presidente. 

Mães e pais vêm se manifestando nas redes sociais. Eles têm medo de que o governo de Maduro vacine seus filhos – matriculados em escolas públicas – mesmo sem ter autorização ou consentimento de responsáveis.    

Críticas ao programa Covax

Enquanto a imunização com vacinas russas, chinesas e cubanas continua vigente, o presidente Nicolás Maduro faz fortes críticas ao programa Covax de distribuição de imunizantes. O Estado venezuelano teria completado o pagamento de milhões de dólares solicitados pelo mecanismo da OMS para que países em desenvolvimento tenham acesso às vacinas. “O sistema Covax falhou com a Venezuela”, disse o presidente.     

A vice-presidente Delcy Rodríguez, que integra a Comissão Presidencial contra a Covid-19, foi orientada por Maduro nesta semana dar um ultimato ao programa. “Ou nos mandam a vacina ou nos devolvem o dinheiro”, sentenciou o presidente. Caso o valor destinado ao Covax seja devolvido, Maduro afirmou que já sabe onde comprar doses de imunizante “porque já conversamos com instituições mundiais e multilaterais”.

Apesar das divergências políticas, no mês passado Maduro chegou a pedir ao presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, para desbloquear US$ 10 milhões  para a Venezuela conseguir pagar as vacinas do Covax. A Fundação Gavi, que administra a distribuição dos imunizantes do programa junto com a OMS, confirmou ter recebido o pagamento feito por Caracas.

Enquanto isso, pessoas de diversas idades fazem filas para receber as vacinas que estão sendo aplicadas na Venezuela. Boa parte desses indivíduos não contam com recursos para se tratar da Covid-19. Diariamente elas vão aos pontos de vacinação, mesmo sem receberem a convocação oficial, para tentar serem imunizados. 

O governo venezuelano anunciou que nas últimas horas foram identificados 927 novos casos da doença, com a morte de 14 pessoas por Covid-19. Desde março do ano passado, foram contabilizados quase 282 mil casos da doença na Venezuela. ONGs alertam que o número de infectados no país pode ser muito maior que o informado pelas autoridades locais. 

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