"Conflito institucional é um desastre para os negócios", criticam empresários

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Empresários começam a demonstrar insatisfação com a crise entre poderes alimentada pelo presidente Jair Bolsonaro.
Empresários começam a demonstrar insatisfação com a crise entre poderes alimentada pelo presidente Jair Bolsonaro. EVARISTO SA AFP

Empresário do agronegócio defende manifesto que pede fim de ataques a instituições democráticas. No mesmo dia, o presidente Jair Bolsonaro convocou apoiadores a irem às ruas no feriado da Independência e "mostrar quem manda".

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Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

É pragmatismo. Sobrevivência financeira. É assim que muitos empresários que apoiavam o governo Bolsonaro têm justificado a adesão a movimentos que pedem a paz entre os poderes e o fim da crise institucional, leia-se, que o presidente da República segure a onda golpista.

A dianteira partiu inclusive de um dos maiores pilares da atual gestão. O agronegócio não é homogêneo e conta com empresários ainda muito governistas, em especial produtores voltados para o mercado interno. Mas um grupo de peso da agroindústria decidiu não esperar outros setores e se posicionar diante da escalada de atritos envolvendo o governo federal.

“A estabilidade institucional é a garantia de que você poderá comprar, estocar, investir, vender, exportar com tranquilidade. Porque quando um grupo propõe uma ruptura, numa ação de embate com outros poderes, com pedido de impeachment de juiz do STF, ou então ameaça com greve de caminhoneiro, esse tipo de discurso é um desastre para os negócios”, afirmou à RFI Christian Lohbauer, presidente executivo da Croplife, associação que reúne empresas e instituições que atuam no desenvolvimento de sementes, mudas e cultivos.

A carta do agronegócio afirma que “é o Estado Democrático de Direito que nos assegura essa liberdade empreendedora essencial numa economia capitalista, o que é o inverso de aventuras radicais, greves e paralisações ilegais, de qualquer politização ou partidarização nociva que, longe de resolver nossos problemas, certamente os agravará”. Além da Croplife Brasil, são signatários do texto a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Associação Brasileira dos Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma), Associação Brasileira dos Industriais de Óleos Vegetais (Abiove), Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) e o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg).

Empresários têm cobrado também políticas efetivas do governo para a retomada do crescimento, sob alegação de que até aqui a atual gestão não mostrou a que veio, inclusive sem avançar em reformas estruturantes importantes. Há também alguns setores que temem perder vendas no exterior diante da atual imagem negativa do país na área ambiental.

Já Antonio Alvarenga, da Sociedade Nacional da Agricultura, ponderou à RFI que o desempenho do governo acabou aquém devido à situação sanitária advinda com o coronavírus. “A pandemia afetou demais nossa economia. Foram duas ondas devastadoras que obrigaram o governo a adotar medidas para resguardar a população menos favorecida e arcar com gastos extraordinários na área da saúde. Apesar de tudo, não houve desabastecimento, as exportações continuaram em bom ritmo, os mercados financeiros funcionaram normalmente. Agora a economia começa a reagir.”

Pressão sobre empresários

Os produtores rurais da agroindústria decidiram tornar pública a preocupação com o atual cenário político depois que um manifesto assinado por mais de duzentos segmentos, inclusive a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), voltou para o forno por pressão do governo. O conteúdo, que acabou vazando, é leve, não nomeia o presidente ou outra autoridade, e pede harmonia entre os poderes e respeito às instituições democráticas. Mas tem peso político importante ao mostrar a insatisfação do setor produtivo, que avalizou o governo até aqui, marcando posição num momento em que Bolsonaro vê seu apoio popular cair.

O presidente da Caixa Econômica, Pedro Guimarães, chegou a ameaçar banqueiros de perderem negócios com o governo. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP/AL), cobrou recuo diretamente a Paulo Skaf, da Fiesp, um recém ex-bolsonarista com pretensões eleitorais, que capitaneou a elaboração do manifesto. Por ora, a informação é de que o texto está suspenso, mas com muitos empresários cobrando sua divulgação.

Andrew Storfer, da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, disse à RFI que toda essa movimentação mostra como a crise institucional atinge a economia a ponto de jogar para baixo as projeções para o ano que vem. “O setor produtivo vê com preocupação essa situação de crise entre as instituições. Esse movimento inclusive com manifestos, que começou com o agronegócio, mas teve também discussão com vários outros segumentos, mostra essa preocupação. Esse nível de antagonismo que estamos vendo se reflete num certo desânimo do setor produtivo e que faz com que com as expectativas de crescimento para o ano que vem não sejam tão boas, mas sim pior que se projetava antes”.

Insensível ao apelo de parte do PIB brasileiro, opresidente Jair Bolsonaro não parece disposto a levantar a bandeira branca nessa guerra institucional. Ao contrário, tem elevado a tensão ao convocar para o feriado da Independência apoiadores a irem às ruas numa demonstração de força contra ministros do STF.

“Chegou a hora de nós, no dia 7 de setembro, nos tornarmos independentes para valer. Não aceitamos que uma ou outra pessoa em Brasília imponha sua vontade. Vocês mostrarão que quem manda no Brasil são vocês”, disse o presidente se dirigindo a uma multidão aglomerada que o acompanhava.

Um esquema reforçado de segurança está sendo montado em cidades como Brasília e São Paulo para receber as manifestações.

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