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Ricupero: se eleito, Joe Biden tende a "relevar" torcida de Bolsonaro por Trump

Áudio 09:50
Rubens Ricupero, embaixador, ex-ministro da Fazenda
Rubens Ricupero, embaixador, ex-ministro da Fazenda © Captura de tela
Por: Lúcia Müzell
21 min

O mundo acompanha ansioso a divulgação dos resultados das eleições nos Estados Unidos, que mais uma vez passam pela Justiça. Em entrevista à RFI, o diplomata e ex-ministro Rubens Ricupero analisa o que esse imbróglio revela sobre a democracia americana, a fidelidade incondicional dos eleitores de Donald Trump e pistas para a pacificação do país, em um contexto em que a polarização política permanece extrema.

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Ricupero, que foi embaixador nos Estados Unidos, ainda aborda a influência do processo americano nas próximas eleições presidenciais brasileiras, em 2022, e o futuro da relação entre Washington e Brasília. Para ele, a torcida aberta de Jair Bolsonaro por Trump, apesar da tendência de vitória de Joe Binden, “é um erro muito grande".

"Tomar partido de um lado é antagonizar o outro. Não tem sentido. Um país estrangeiro deve procurar manter um relacionamento com todos, sem discriminar entre uns e outros”, frisa o autor de A Diplomacia na Construção do Brasil (1750-2016) e outros livros de referência na área.

"Mas não acredito que isso vá ser levado muito a sério por Biden, porque ele é um homem sereno, experiente. Uma vitória do Biden pode ser vista pelo governo Bolsonaro como uma ameaça, mas também como uma oportunidade. A verdade é que a relação com Trump não trouxe, até agora, nenhum benefício concreto ao Brasil", ressalta.

RFI: A maior democracia do mundo se encontra, de novo, num impasse para a definição do presidente, por conta de um sistema eleitoral complexo. Esse sistema abre margens para dúvidas sobre os resultados?

Rubens Ricupero: O sistema é anacrônico. Foi criado no final do século 18 para garantir os direitos das minorias, mas hoje se transforma em uma ameaça de que as minorias acabem ditando a sua lei. O sistema do colégio eleitoral significa, na prática, que os votos de estados de pequena população valem mais do que os votos dos cidadãos que moram na Califórnia ou em Nova York.

É difícil reformá-lo, porque seria necessário mudar a Constituição e isso é quase impossível nos Estados Unidos. Nos últimos 30 anos, sobretudo, esse sistema tem causado episódios frequentes como este, que colocam em dúvida a qualidade da democracia.

Além do precedente negativo do ano 2000, em que a eleição foi decidida pela Suprema Corte – por uma decisão apertada, de 5 votos a 4 –, já houve várias ocasiões em que o candidato que teve a maioria popular perdeu a presidência por não ter a maioria do colégio eleitoral. É, de fato, estranho para o nosso conceito atual de democracia, em que cada ser humano deve contar como um voto, e cada voto deve ser igual a qualquer outro.

A democracia americana é forte o suficiente para atravessar os percalços que temos visto desde a votação?

Um senador republicano do Estado de Utah declarou recentemente que a Constituição americana não falava em democracia. Falava em liberdade, prosperidade, mas não em democracia. Há, nos Estados Unidos, um movimento significativo de pessoas, sobretudo brancas, que sentem que, com o aumento das minorias negras, latinas e asiáticas, não está longe o dia em que os brancos não seriam mais maioria no país. Então, há problemas latentes.

É uma democracia que está sendo questionada, com muitas tensões – o que não é um privilégio só dos americanos, digamos a verdade. Se a gente olhar, no mundo, é difícil um lugar em que não haja um movimento, maior ou menor, de contestação da democracia, tal como nós entendemos. A França teve o fenômeno dos coletes amarelos, de contestação das elites e da direção do país.

Biden declarou, na campanha, que pretende fazer uma cúpula para a democracia, para a qual ele convidará os dirigentes das grandes democracias do mundo para discutir três temas: a tendência crescente do autoritarismo, os direitos humanos e a luta contra a corrupção. A situação está complicada. Eles têm instituições muito sólidas, mas elas não são melhores do que os homens que têm a responsabilidade de fazê-las funcionar.

Os ministros da Suprema Corte têm adotado posições ideológicas e partidárias. Isso põe em risco sua isenção numa situação de contestação. Em 2000, aconteceu isso. Al Gore perdeu a eleição por uma diferença de 530 votos na Flórida. A contagem foi suspensa e a Suprema Corte confirmou o resultado, sem retomar a contagem.

Independentemente dos resultados finais, essa eleição, por estar tão apertada entre os dois candidatos, confirma a extrema polarização política nos Estados Unidos. Como o senhor vê o day after? Já há vários registros de violências entre os apoiadores…

A principal lição a extrair dessa eleição é que, contrariamente à expectativa que se tinha criado, ela não significou uma reversão, uma mudança grande em relação à última eleição. Até certo ponto, ela foi uma espécie de reprise, um replay, embora os democratas tenham conseguido recuperar alguns estados como Wisconsin, Michigan. O avanço democrata foi muito menor do que se esperava.

Uma vez mais, as pesquisas se enganaram redondamente. A mídia e a imprensa em geral voltaram a subestimar a força do Trump. Uma coisa admirável em Trump é que ele conseguiu resistir – apesar de ter feito um mal governo e do péssimo desempenho americano face à pandemia. Ele não só manteve a maior parte da sua base, como até aumentou um pouco com o voto popular. O aumento da participação favoreceu a ambos.

A sociedade americana não se curou nesses quatro anos – ao contrário, as divisões permaneceram iguais ou piores. Trump nunca demonstrou nenhum desejo de ser o presidente de todos. Ele continuou o presidente de um grupo. Temos uma sociedade que está praticamente rachada ao meio, fraturada. A prova disso é que, em alguns Estados, a diferença é de poucas centenas de votos.

Os apoiadores de Trump se mostraram muito convictos na escolha, apesar da gestão da pandemia. Como explicar essa fidelidade incondicional? 

A primeira pergunta é por que se chegou a essa polarização. Até agora, ninguém deu uma resposta satisfatória. Há respostas parciais, como o impacto da globalização nos empregos industriais. Olhando os estados que perderam mais emprego, ou por competição da China, ou por indústrias que se tornaram obsoletas, como a do carvão, a exemplo de West Virginia, a vitória de Trump é de 70 a 30. Ele ganhou em todos os condados de lá.

Ou seja, não há dúvida de que existe um problema social, que não sei se os democratas conseguiram identificar. Trump, com todos os seus defeitos, teve essa intuição e se identificou com essas pessoas. É por isso que elas são fiéis a ele.

No governo, ele não conseguiu traduzir isso em medidas efetivas. Não fez com que os empregos voltassem da China, nem reverter os empregos do carvão. Mas mesmo assim, as pessoas são fiéis a ele porque têm essa identificação, sentem nele uma empatia que não sentem nos outros candidatos.

Se a vitória de Joe Biden se confirmar, como os democratas poderão abrir diálogo com essa ala mais à direita da sociedade e da política americana, que idolatra Trump?

A primeira coisa que Biden vai ter que fazer – e ele está consciente disso, como mostrou no discurso de ontem (quarta-feira, 4) – é curar as feridas, unir o país. Esse não é o momento de jogar lenha na fogueira. Ele vai ter que fazer um apelo que quer ser o presidente de todos, os que votaram e os que não votaram nele. Isso é a condição sine qua non.

Ele vai ter um mandato difícil, porque os democratas não conquistaram o Senado, e na Câmara eles devem manter a maioria, mas reduzida. Ele vai ter de negociar e mostrar muita flexibilidade. E o segundo ponto é que ele vai ter de fazer gestos concretos em direção a essa população que se sente alienada. Em parte, ele poderá fazer isso por meio da ala mais à esquerda do partido democrata – que não é a dele. Ele é mais centrista e conservador, mas tem a vice, a Kamala Harris. Eles deverão prestar atenção nesse grupo, sobretudo na área social e econômica, além de levar em conta os evangélicos, por causa da pauta de costumes.

Como iniciar uma pacificação da sociedade americana?

É uma tarefa desafiadora. Creio que Biden tem, do ponto de vista temperamental, melhores condições para ser um fator unificador do que Trump. Ele é conciliador: foi senador de 1973 até 2009. Foi um período longuíssimo, em que ele adquiriu muita experiência, inclusive de trabalhar com maioria republicana. Aliás, pouca gente lembra que, quando ele entrou na vida política, ele começou como republicano. Trump nunca revelou sequer interesse em conciliar o país.

No Brasil, Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, já se pronunciou dando eco às acusações de fraude na eleição americana. Podemos entender isso como uma advertência sobre como o comportamento de Trump em relação aos resultados poderá influenciar a eleição brasileira de 2022?

Acho que sim. É um indício claro de que pelo menos esse grupo mais extremado tem essa tendência. O próprio Bolsonaro dizia na campanha que achava que as urnas eletrônicas seriam fraudadas. Mesmo depois de eleito, continuou dizendo que não venceu no primeiro turno porque tinha havido fraude. Disse que tinha provas, mas nunca as apresentou. Então, não há nenhuma novidade nisso.

O próprio chefe da família já disse isso e não será surpresa para ninguém. Ele, tal como Trump, é previsível nessas reações. Todo mundo imaginava que Trump teria essa reação e foi o que aconteceu. É preciso sempre esperar o pior.

O próprio presidente Jair Bolsonaro torce abertamente pela vitória de Trump – disse que "a esperança é a última que morre", apesar de os resultados apontarem para a vantagem de Biden. Pode ser um erro político, no caso de vitória do candidato democrata?

Não há dúvida de que é um erro muito grande. Ele não é o primeiro presidente brasileiro a manifestar preferência por um candidato numa eleição fora do Brasil. Infelizmente, esse tipo de comportamento é recente e é lamentável. No passado, não só era a linha invariável do Brasil, diplomaticamente, como era a dos presidentes e dirigentes nacionais. Sempre foram muito rigorosos em mostrar isenção.

Tomar partido de um lado é antagonizar o outro. Não tem sentido. Um país estrangeiro deve procurar manter um relacionamento com todos, sem discriminar entre uns e outros. É claro que é possível ter uma preferência pessoal, mas é algo que não deve ser manifestado, sobretudo de uma maneira desafiadora como essa [de Bolsonaro].

Não vai ajudar, embora eu não acredite que isso vá ser levado muito a sério por Biden, porque ele é um homem sereno, experiente. Ele vai relevar isso como alguma coisa do jogo político interno brasileiro.

Como fica a sequência das relações entre os Estados Unidos e o Brasil?

Uma vitória do Biden pode ser vista pelo governo Bolsonaro como uma ameaça, mas também como uma oportunidade. A verdade é que a relação com Trump não trouxe, até agora, nenhum benefício concreto ao Brasil. Ela serviu apenas para que Trump extraísse concessões unilaterais do Brasil, em matéria de etanol, por exemplo. Não impediu que ele aplicasse barreiras ao alumínio e ao aço brasileiros. Ele fez até comentários desairosos sobre a maneira como Bolsonaro enfrentou a pandemia. Ou seja, até agora, não se vê o que o governo brasileiro ganhou com esse alinhamento.

No caso do Biden, seria uma oportunidade para o governo brasileiro reexaminar sua linha política, tanto da diplomacia, quanto na questão da Amazônia, do meio ambiente, da política de gêneros – e não por causa dos Estados Unidos, mas sim do interesse do próprio Brasil. A linha que o governo está seguindo colocou o Brasil num isolamento total. Hoje em dia, as posições que o Brasil defende em Genebra também são apoiadas por outros quatro ou cinco países muçulmanos fundamentalistas. É um isolamento quase absoluto no mundo.

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