RFI Convida

Bolsonaro é “especialista em criar caos” e está começando a fazer o mesmo nas Forças Armadas, diz especialista

Áudio 06:48
João Roberto Martins Filho - Cientista Político - UFSCAR
João Roberto Martins Filho - Cientista Político - UFSCAR © Arquivo pessoal

A saída de Fernando Azevedo e Silva do ministério brasileiro da Defesa foi uma das principais surpresas do remanejamento do governo Bolsonaro. A destituição do militar, substituído pelo também general Walter Braga Netto, chama a atenção para as tensões entre o chefe de Estado e as Forças Armadas. Essa é a opinião de João Roberto Martins Filho, cientista político da UFSCar, Universidade Federal de São Carlos, especialista no assunto.

Publicidade

O professor, que presidiu a Associação Brasileira de Estudos de Defesa e atua em grupos de estudos sobre o tema, diz que a saída de Azevedo e Silva surpreendeu muita gente, pois todos estavam esperando apenas a troca de ministro no Itamaraty. Mas, ao mesmo tempo, já havia um desgaste acumulado nos últimos meses entre o chefe de Estado e as equipes da Defesa.

“Até agora existia uma espécie de acordo de cavalheiros. Os militares participaram ativamente da campanha de eleição de Bolsonaro, participam ativamente do governo, são os principais ministros no Palácio do Planalto, mas o Bolsonaro não interferiria com relação ao que diz respeito aos comandos militantes”, explica Martins Filho. “De um modo geral, desde a criação do ministério de Defesa, em 1999, nunca houve interferência. Mas nesse caso, há uma interferência. Ele está demitindo um general, criando uma crise militar”.

Na esteira da destituição do ministro, o ministério da Defesa anunciou, nesta terça-feira (30), a saída dos comandantes das três Forças Armadas, confirmando essa tensão. Serão substituídos os comandantes Edson Pujol (Exército), Ilqes Barbosa (Marinha) e Antonio Carlos Bermudes (Aeronáutica). Mas o ministério da Defesa não informou os motivos da decisão, sem precedentes na história do Brasil. Os analistas estimam que a dança das cadeiras é resultado do descontentamento dos três comandantes com a destituição do general Fernando Azevedo e Silva, relutante às tentativas do presidente de politizar as Forças Armadas.

“Bolsonaro é especialista em criar o caos. E ele está começando a criar esse caos também nas Forças Armadas”, comenta o cientista político da UFSCar, que fala de um risco para a estabilidade democrática do país. “Bolsonaro diz o tempo todo que o regime deveria ser ditatorial. Ele tem a ditadura como ideal e fica forçando essa barra para ver se a sociedade não tem resiliência para aguentar essa pressão.”

De olho em 2022

Mas o professor aponta que essas mudanças também se inscrevem em um calendário político preciso, já pensando no próximo governo. “É difícil fazer uma previsão [do que vai acontecer], mas isso deve consolidar o desembarque institucional do governo, no sentido de que já se começa a preparar uma alternativa para 2022, que seria uma opção de oposição a Bolsonaro, com um militar, um general, pelo menos candidato a vice-presidente. Talvez o ex-juiz [Sergio] Moro como candidato a presidente com, por exemplo, o general Santos Cruz. Essa é uma possibilidade”, prevê o cientista político. “Isso quer dizer que as Forças Armadas se afastariam do governo Bolsonaro e embarcariam numa outra tentativa de permanecer no centro do poder”.

Mesmo que isso venha a acontecer, ressalta o cientista político, o páreo não vai ser fácil, pois os dois outros principais candidatos na disputa em caso de uma tentativa de emplacar um candidato militar são pesos-pesados nas urnas. “De um lado há um candidato de extrema direita e, do outro, um candidato de centro esquerda, que é o ex-presidente Lula. E é muito difícil disputar votos com esses dois ‘puxadores de votos’. Mas o Lula, realmente, as Forças Armadas não querem”, insiste o especialista.

 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.