Christiane Jatahy mistura no palco de Avignon crise do Brasil e filme Dogville: “Estamos vivendo um pesadelo”

Áudio 07:21
A diretora de teatro Christiane Jatahy durante o 75° Festival de Avignon
A diretora de teatro Christiane Jatahy durante o 75° Festival de Avignon © RFI

A diretora Christiane Jatahy apresenta na 75ª edição do Festival de Avignon “Entre Chien et Loup”, a sua mais nova produção. A peça, inspirada no filme “Dogville”, leva ao palco uma reflexão sobre a capacidade dos seres humanos de aceitar as diferenças diante de um contexto de recrudescência do extremismo. A situação política brasileira aparece como pano de fundo de uma história que Jatahy apresenta como universal.

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Silvano Mendes, enviado especial a Avignon

O projeto de Christiane Jatahy é um dos destaques da programação oficial do Festival de Avignon. Celebrada na cena teatral europeia, a diretora, que passou pelo evento do sudeste francês com sucesso em 2019 com a peça “O Agora que Demora”, continua seu percurso que mistura no palco linguagens e suportes.

Com “Entre Chien et Loup”, que poderia ser traduzido como "Crepúsculo", ela dialoga novamente com o cinema, ao se inspirar no filme “Dogville”, do dinamarquês Lars Von Trier. No palco de Avignon, o personagem de Tom e sua pequena comunidade lançam uma experiência: mostrar que são capazes de acolher e aceitar uma estrangeira e, principalmente, não repetir os erros do passado. Não se trata de uma adaptação literal de “Dogville”, e sim de uma espécie de tentativa dos personagens de Jatahy de evitar o fracasso da humanidade que Von Trier mostrou nas telas.

A ideia por si só já é interessante. Mas a diretora vai além, e acrescenta uma leitura política e contemporânea na história. A estrangeira acolhida é Graça, uma brasileira interpretada por Julia Bernat que deixa seu país fugindo de um regime autoritário e das milícias que, segundo a personagem, atuam junto com os políticos atualmente no poder.

Cena da peça "Entre Chien et Loup", da brasileira Christiane Jatahy, apresentada no 75° Festival de Avignon
Cena da peça "Entre Chien et Loup", da brasileira Christiane Jatahy, apresentada no 75° Festival de Avignon © Christophe Raynaud de Lage / Festival d'Avignon

“Evidentemente é uma ficção, mas ao mesmo tempo fala do risco de uma ascensão fascista e de um crescimento de uma extrema direita que, infelizmente, não é só no Brasil”, explica a diretora. “A gente também vive isso em muitos lugares do mundo. É sobre o Brasil, mas também é universal”.

É verdade que frases chocantes de Jair Bolsonaro são citadas durante a peça. Porém, mesmo se a situação política e social brasileira deu uma dimensão mais realista à trama, na saída do teatro vários eram os espectadores franceses fazendo a relação entre o que viram no palco e o contexto em outros países. “Poderia ser aqui”, lamentavam duas senhoras, ainda digerindo o impacto da peça, que mostra os piores lados dos seres humanos, inclusive quando eles “se acham cidadãos de bem”, com diz Graça em uma das cenas.

“A gente precisa dizer não !”

Com a peça “Entre Chien et Loup” Jatahy apresenta o que parece ser um de seus projetos mais engajados politicamente. A diretora, que não poupa críticas ao governo atual brasileiro, conseguiu sensibilizar o público de Avignon fazendo com que os espectadores se identificassem com a história, ao mesmo tempo que passava seu recado sobre o que pensa do Brasil atual.

“Eu acho que a gente está vivendo um pesadelo”, desabafa. “Esse governo é extremamente destrutivo, e está realmente atingindo fortemente muitas pessoas e muitas conquistas. E algumas situações poderão ser irreversíveis, como a questão da floresta amazônica e dos indígenas. Isso sem falar de toda a violência contra os LGBTs, os negros, os pobres”, enumera. “É de uma violência absurda e temos que tomar para a gente. É importante saber que depende realmente de uma ação popular. A gente precisa dizer não!”, convoca Jatahy, como sua personagem de Graça, para quem “não reagir é uma forma de cumplicidade”.

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