RFI Convida

Marcia Tiburi desvenda subjetivações coloniais brasileiras em 'Complexo de Vira-Lata'

Áudio 07:03
A escritora Marcia Tiburi
A escritora Marcia Tiburi © Captura de tela

O livro “Complexo de Vira-Lata”, da filósofa, escritora e artista visual Marcia Tiburi, nem bem saiu da editora Civilização Brasileira e já está em sua 2ª edição. Em tempos distópicos, com pandemia, inflação e falta de comida na mesa, a intelectual passa o pente fino no psicopoder da “humilhação brasileira”, a partir de moldes e subjetivações coloniais. Na busca pelo coletivo, Tiburi nos coloca frente a frente a nossos “algozes”, mesmo que sejam reflexos tímidos de nossa própria vira-latice*.

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RFI: Qual a função da humilhação enquanto tecnologia política?

Marcia Tiburi:  Vivemos dentro de um circuito, uma cultura da humilhação, que seria justamente o contrário de uma cultura do reconhecimento. Para se construir uma democracia, digamos, precisamos investir no reconhecimento. Por reconhecimento podemos entender os nossos laços de respeito, até de amor em relação ao outro. A humilhação é o desrespeito ao outro num processo de diminuição da importância do outro, do lugar do outro, um “apequenamento” do outro, para usar este termo da filósofa boliviana Silvia Cusicanqui.  A humilhação opera psicopoliticamente numa lógica da medida onde o outro é sempre minorizado, inferiorizado. Nesta lógica, aquele que humilha se coloca numa posição superior. Ao mesmo tempo, isso faz parte de uma cultura sadomaquista, então as coisas são mais dialéticas do que a gente gostaria que fosse.

RFI: Essa lógica poderia ser reconhecida quando se menosprezam os chamados discursos “identitários” – mulheres, negros, deficientes, pessoas LGBTQIA+ - no Brasil?

MT: Até a expressão minoria política é questionável. Claro que ela é coerente, de fato há uma carência de poder em determinados grupos sociais. Mas a minorização é um processo, você precisa ter alguém que se coloca numa posição superior para ela acontecer. A “elite”, na sua revolta contra os pobres, na sua guerra eterna contra os pobres, ou contra grupos desempoderados, ela vai chamar esse grupos de “minorias”. No Brasil, o termo “identitário” é aplicado às minorias políticas, e de grupos como mulheres lésbicas, mulheres, pessoas trans, etc. É uma forma de ocultar o identitarismo do homem branco capitalista. Falo bastante sobre isso na 15ª edição do meu livro “Feminismo em Comum”, que sai agora com alguns acréscimos. Vivemos numa consistente disputa terminológica e essa disputa incomoda os identitários brancos. Porque eles sempre foram donos das palavras, os operadores do poder epistemológico. Nós, mulheres, negros, pessoas heteromarcadas pelo chamado “identitarismo” incomodamos, porque, com todas as nossas diferenças, não nos estava autorizado participar de nenhum tipo de disputa no campo epistemológico. Essa é a primeira violência colonial, e estamos falando nesse caso de colonização mental, uma parte fundamental dos processos de colonização. Colonizam-se os territórios, os corpos, mas também é preciso colonizar a linguagem. A colonização é um projeto psicopolítico completo, performativo.

Capa do livro Complexo de vira-lata da filósofa, Marcia Tiburi
Capa do livro Complexo de vira-lata da filósofa, Marcia Tiburi © captura de tela

RFI: Do que se trata essa “hipnose colonial” que você aborda no livro?

MT: Minhas leituras da filósofa boliviana Silvia Cusicanqui me tocaram muito enquanto escrevia esse livro. Ela e outras filósofas feministas usam bastante esse termo da filosofia “mestiça”, no campo dos estudos de gênero. E Cusicanqui falava sobre o “estupor”,  uma cena muito importante em que um inca pergunta para um espanhol: vocês comem ouro?, por causa da ganância pelo ouro relatada até nas cartas do Colombo. E o espanhol responde: comemos. O estupor causado pela resposta perturbou a imagem que se tinha desses homens que tinham chegado em caravelas desse lugar inóspito, desconhecido pelos incas. Podemos pensar a hipnose como uma categoria política operada não apenas por governantes, mas por artistas da indústria cultural. O êxtase é uma potencialidade da nossa experiência estética e subjetiva e pode ser manipulado. Daí essa ideia da hipnose, de uma êxtase que pode ser manipulado. Esses governantes que manipulam a “hipnose” oferecem uma sensação radical de gozo, às vezes até um gozo triste, como o que acontece no fascismo. O que está em jogo é um aprisionamento dentro uma experiência subjetiva, ou seja, não poder se libertar dessa experiência, desse transe. O velho e triste exemplo do nosso Brasil, que vive dentro de ma hipnose produzida diariamente por um sujeito [Bolsonaro] e todos os seus comparsas que diariamente constroem performances que levam pessoas a esse... estupor.

*A expressão "Complexo de Vira-Lata" foi usada pela primeira vez pelo grande dramaturgo, cronista, escritor e jornalista brasileiro Nelson Rodrigues.

Para ver a entrevista completa, clique no video abaixo:

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