Acessar o conteúdo principal
Cultura

Em meio à pandemia, festival coloca em contato artistas brasileiros e curadores internacionais

Áudio 07:59
Cartaz do festival "Brasil Cena Aberta" que acontece de 2 a 4 de dezembro 100% on-line.
Cartaz do festival "Brasil Cena Aberta" que acontece de 2 a 4 de dezembro 100% on-line. © Divulgação
14 min

“Porque somos fortes e vingativos como o jabuti”: esse é o lema da segunda edição do festival “Brasil Cena Aberta” que teve que se adaptar à pandemia da Covid-19. Durante três dias, de 2 a 4 de dezembro, o evento 100% online propõe uma programação intensa de espetáculos de dança, teatro, encontros e workshops, reunindo artistas da cena contemporânea brasileira com curadores internacionais.

Publicidade

O “Brasil Cena Aberta”, idealizado por Andrea Caruso Saturnino, visa, além da internacionalização com a venda de espetáculos brasileiros prontos, fomentar coproduções, colaborações e residências artísticas, como a parceria, desde 2019, com a Cité Internationale des Arts, em Paris. A segunda edição do festival começou a ser pensada antes da pandemia com a chamada de espetáculos que seriam selecionados por um júri internacional. Mais de 400 projetos, do norte ao sul do Brasil, foram inscritos.

Passado o susto com as restrições impostas pela Covid, os organizadores resolveram remodelar e manter o evento para apoiar a categoria de artistas e técnicos, que foram os que mais sofreram com essa pandemia, mas também para resistir ao desmonte que o setor cultural está sofrendo no Brasil. Por isso, conta Andrea Caruso Saturnino, escolheram a frase “porque somos fortes e vingativos como o jabuti”, como lema dessa edição 2020:

“Essa é uma frase do Manifesto Antropófago. A gente chegar até aqui tem uma resistência e uma força. Uma resistência a esse mundo da velocidade. A força do jabuti está também na sua lentidão. Essa é uma imagem pertinente para esse momento”, acredita a diretora-geral do Cena Aberta.

A programação do evento conta com dez espetáculos de dança e sete de teatro transmitidos diretamente do Teatro Cacilda Becker, em São Paulo. Uma das principais atrações são os encontros entre artistas e cerca de 30 programadores internacionais como a franco-iraniana, Maryam Karroubi, que colabora com o Théatre de la Ville de Paris, um dos mais importantes da capital francesa.

“Sou grata à equipe por ter mantido o festival. O Brasil é um país muito grande e para nós poder conhecer seus artistas e saber o que está sendo produzido é muito importante. A produção artística brasileira é muito interessante e criativa. Todas as possibilidades que temos para conhecê-la e entendê-la melhor são bem-vindas”, afirmou.

Karroubi pensa que a principal função do Cena Aberta é revelar novos talentos brasileiros, ainda desconhecidos no exterior. “Tem artistas brasileiros que têm uma presença marcante na França, como Christiane Jatahy, mas, pessoalmente, o que mais me interessa é dar visibilidade aos jovens artistas e novos talentos, e o Cena Aberta ajuda a fazer isso”.

Colaborações artísticas

O diretor francês Guillaume Durieux, que já montou uma peça brasileira na França, irá participar de um encontro sobre as “múltiplas facetas da tradução na cena contemporânea”. Ele vai dialogar com o dramaturgo Alexandre Dal Farra, autor da peça em um dos únicos momentos em que os teatros franceses foram autorizados a abrir durante a pandemia.

Cena da peça Abnegação que fica em cartaz até dia 3/10 no teatro Monfort em Paris
Cena da peça Abnegação que fica em cartaz até dia 3/10 no teatro Monfort em Paris © A. Brandão/ RFI

A produção de “Abnegação” foi francesa, mas Guillaume Durieux contou com a colaboração artística de Dal Farra para realizar a versão francesa. Ao invés de tradução, ele prefere falar em transposição. “O importante foi fazer uma transposição e dar uma dimensão mais universal à peça sobre a questão da doença do poder. No Brasil, o texto faz referência a um escândalo preciso (Petrobras), mas sem citá-lo explicitamente. Na França, tínhamos que ter um outro olhar. Por isso, não é uma questão de idioma. Não acho que o Alexandre seja um autor brasileiro e eu um diretor francês. Nós temos uma terra comum que é o teatro, isto é, o teatro inventa regras que nos reúne em um país comum que é o país do imaginário”, explica o diretor.

Desafios da pandemia

O Cena Aberta também será a oportunidade para aprofundar reflexões surgidas nesse ano atípico de 2020, como a adaptação da cena às imposições da Covid e a presença e influência das novas tecnologias nas produções teatrais.

Na opinião de Andrea Caruso Saturnino, a pandemia acelerou o processo de imersão virtual do setor que já estava em curso. “Isso já vinha engatinhando. Em algum momento, íamos chegar a essa mistura entre o virtual e o real. A pandemia acelerou. Há um ano, isso era impensável. A gente ganha muita coisa, ganha muita expansão, abertura de fronteiras. Isso possibilita encontros inimagináveis. Como que a gente ia chegar a um público tão longe da gente, com tantos trabalhos? É uma alegria ver todo mundo junto em prol do que está sendo feito no Brasil, discutindo e descobrindo artistas brasileiros. É uma dádiva”, diz.

Fica a saudade do contato com o público e o receio de que a explosão da oferta de eventos online na pandemia diminua a audiência do ato 2020 do “Brasil Cena Aberta”. Independentemente, a tendência veio para ficar. ”Obviamente, estamos sentindo falta do presencial. O teatro é a arte do encontro, lógico, mas eu tenho certeza que ao voltarmos a nos encontrar numa sala de teatro, nós não vamos deixar de fazer uma serie de coisas online. É um caminho sem volta”, pontua a diretora.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.