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Cultura

Exército francês contrata escritores de ficção científica para imaginar as "guerras do futuro"

Áudio 07:30
Escritores de ficção contratados pelos Exército francês devem determinar como serão as "guerras do futuro".
Escritores de ficção contratados pelos Exército francês devem determinar como serão as "guerras do futuro". © Fotomontagem fotos Wikipédia
Por: Márcia Bechara
23 min

A notícia pode surpreender, mas é muito real: o Ministério das Forças Armadas da França decidiu montar uma equipe de autores de ficção científica para ajudar a pensar sobre todos os cenários bélicos que o futuro nos reserva. O chamado "Red Team" será criado dentro da nova Agência de Inovação em Defesa (AID) que existe há um ano, com um orçamento de € 1,2 bilhões. A RFI ouviu os escritores brasileiros Ignácio de Loyola Brandão, Milton Hatoum, Julián Fuks, Marçal Aquino, Sheyla Smanioto e Xico Sá, que comentaram a iniciativa e sugerem suas versões da "Guerra do Futuro".

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Os partidários dessa nova abordagem das Forças Armadas na França defendem a experimentação como o que poderia se tornar um novo método de trabalho: escritores que antecipam ameaças reais, num roteiro digno de ficção científica. Uma primeira tentativa de colaboração entre o Exército francês e autores de ficção aconteceu há dois anos, durante o Utopiales: em 2020, a 20ª edição deste festival internacional de ficção científica abriria suas portas de 31 de outubro a 3 de novembro, em Nantes, se o destino não tivesse provocado um terrível plot twist e cancelado o evento presencial por razões sanitárias. Ah, o destino, essa matéria insensata dos ficcionistas...

No entanto, os franceses parecem aprovar a decisão. Mais de 600 membros do mundo cultural, científico e acadêmico se inscreveram para fazer parte desta equipe das Forças Armadas da França, que já tem nome de seriado - "Red Team" ["Time Vermelho"] - e será composta por  apenas dez pessoas. Um projeto amplamente divulgado quando foi lançado por Emmanuel Chiva, diretor da Agência de Inovação em Defesa (AID), filiada à Direção Geral de Armamentos (DGA), divisão importante do Exército na França.

Mas o "Red Team" não será formado apenas por escritores: roteiristas, cartunistas e até mesmo designers de ficção científica completam a equipe, todos trabalhando em estreita colaboração com especialistas científicos e militares, eles próprios agrupados dentro um "Purple Tieam" ["Time Roxo"]. Parece partida de RPG ["Role Playing Game"], mas é tudo verdade.

No último dia 4 de dezembro, a Ministra das Forças Armadas da França, Florence Parly, revelou os nomes dos dez escritores de ficção científica que compõem o famoso "time vermelho", cuja criação foi anunciada com grande alarde no final de 2019. Entre eles, encontramos roteiristas (Xavier Dorinson), autores de ficção cientítica (Laurent Genefort), biologistas e pesquisadores em sociologia da inovação (Virginie Tournay), professores de filosofia (Romain Lucazeau), estudantes de Design (Jeanne Bregeon) e cartunistas (François Schuiten).

Imaginário de guerra

Mas o escritor e roteirista brasileiro Marçal Aquino lembra que esse imaginário de guerra não é privilégios dos países do chamado primeiro mundo. "Se pensarmos nos exemplos que a literatura já deu, do seu poder de antecipação, visionário, temos o exemplo universal do romance '1984', do George Orwell. Mas aqui no Brasil, o Rubem Fonseca, em 1975, publicou um livro chamado 'Feliz Ano Novo' onde ele de certa maneira previa a que estado chegaria a guerra urbana. E o Rio de Janeiro na época era bem mais pacato. Foram necessários apenas 30 anos para tudo aquilo que ele disse naquele livro visionário se realizasse", afirma.

"O Exército está contratando profissionais credenciados a fazer previsões sobre o futuro, sobre as guerras do futuro", argumenta. "Com uma vantagem: o escritor usa como ferramenta a imaginação, que é muito barata, é grátis. Não vejo nada de extraordinário nisso, muito pelo contrário", diz. Quanto à "guerra do futuro", Marçal acredita que ela será "dominada pela tecnologia". "Uma guerra no futuro não será presencial. Nós vamos vê-la pela televisão, serão guerras tecnológicas, de domínios de mentes, de vontades, de domínio ideológico, sem necessariamente o conflito armado, como vemos até hoje", pontua.

"Essa iniciativa do Exército francês não é tão incomum", pondera o escritor Milton Hatoum. "Não é a primeira vez que um exército convoca intelectuais e escritores para falar de conquistas e de guerras. Quando as tropas de Napoleão conquistaram o Egito, por exemplo, intelectuais foram convocados para refletir e escrever sobre a cultura árabe e islâmica - o discurso dos orientalistas, brilhantemente analisado por Edward Said no livro 'Orientalismo' ", detalha Hatoum.

"Estudar o inimigo, o povo conquistado, é uma prática muito antiga. Mas a guerra do futuro, ou o mundo distópico, tudo isso foi imaginado por vários escritores. Por exemplo, o Isaac Azimov, que também era bioquímico, escreveu Planeta Infernal e tantos livros importantes. Também o Arthur Clarke, o Kurt Vonnegut, que escreveu um romance muito interessante, o Piano Mecânico, que fala de um mundo dominado pela tecnologia", lembra. "Um dos meus preferidos é o britânico H.G. Wells, que escreveu uma obra-prima chamada A Máquina do Tempo", diz.

"Já estão colonizando a Lua e Marte, mas a literatura que me interessa é a que trata das relações humanas nesse nosso planetinha destruído", contrapõe Hatoum. "A memória para mim ainda é fundamental, e a memória do futuro é o passado, a literatura do futuro também está no passado", retruca. "Tenho pouco interesse nas guerras intergalácticas, interplanetárias ou entre superpotências nesse neocolonialismo cósmico que está surgindo", afirma.

Para Ignácio de Loyola Brandão, um dos autores mais prolíficos do Brasil, e, desde 2019, imortal da Academia Brasileira de Letras, a literatura possui um compromisso com o tempo. "Ela não pode se omitir, é uma possibilidade de você antecipar coisas trágicas num futuro, ou até num presente. Ela dá uma espécie de luz ou sobre o passado, recorrendo à História, ou fazendo a história do presente, ou escrevendo a história do futuro dentro das Utopias", afirma.

"Não verás país nenhum"

Em 1981, Ignácio de Loyola Brandão publicava uma distopia originalmente brasileira intitulada "Não verás país nenhum", com direito a incêndios, caos e desespero numa São Paulo do futuro. "É muito curiosa a história desse livro. Uma vez encontrei Nelson Rodrigues, nos anos 1960, na redação do Última Hora. Ele estava escrevendo mais uma daquelas crônicas diárias que ele fazia, que eram fantásticas, do A Vida Como Ela É. Perguntei, tímido, Nelson, como você consegue escrever por dia uma crônica dessa? Ele me disse: olhando pela janela, meu filho...", lembra o escritor.

"Então nos 1970 quando comecei a abrir os jornais e a ver o noticiário, ouvia falar de aquecimento global, que a falta do petróleo não seria problema, mas a da água sim, quando os tsunamis começaram a devastar países, as comifas falsas nos restaurantes, Mc Donald's, começou a vir na minha cabeça essa ideia: e se vivêssemos numa época sem água, sem o Amazonas, comecei a exagerar à centésima potência tudo o que podia acontecer e então me veio essa ideia de um país sem água, sem florestas, onde o sol mata as pessoas e onde as doenças mais estranhas começam a acontecer", detalha.

Para Ignácio de Loyola Brandão, a guerra do futuro será "a mais curiosa" de toda a História. "Porque ela não vai matar ninguém. Vai parecer um filme fantástico ou uma comédia trágica. Não haverá mísseis, armas, aviões, navios. Tudo isso é passado. Nenhuma logística vai funcionar. A guerra do futuro, para mim será entre fantasmas. Não fantasmas de comédia, de desenho, de seriado. Nem entre duendes. (...) Quando estas batalhas vierem, ninguém mais estará vivo neste planeta. Estarão todos mortos pela Covid 1, 2, 3 (...), pelo medo, pela fome, pela miséria dos países africanos (...). Não existem corpos. essa guerra do futuro vai exigir estratégias desconhecidas", fabula o escritor.

Ignácio de Loyola Brandão: "A Guerra do Futuro"

O escritor Julián Fuks sublinha, com ironia, o estranhamento causado pela proposta do Exército francês. "A notícia em si é estranha, insólita, guarda alguma relação com a própria construção da ficção científica. Um exército contratar escritores já seria um fato próprio da ficção científica", argumenta. "Mas sua lógica não é disparatada, as ficções científicas sempre fundadas num sentido claro racional, compreensível, assimilável. Me parece curioso esse caso, porque faz todo o sentido, mas, ao mesmo tempo, é completamente extravagante", diverte-se o autor de "A Resistência".

"Basicamente, eu imaginaria uma guerra do futuro sem guerra. Uma guerra sem confronto imediato, direto, sem bombas, sem balas, aviéoes, uma guerra feita em outro limite, em outra instância, completamente diferente daquilo que a gente tem concebido como guerra até o momento", imagina Fuks. "Ao mesmo tempo, seria uma guerra que se daria numa instância virtual, dos símbolos, no mundo das palavras, e, no entanto, com um potencial destrutivo brutal, que é justamente o que temos visto", lembra. "No campo do simbólico, do cultural, aquém e além do físico, tem se dado a destruição de inúmeras vidas", afirma.

"Kafka"

"Fiquei muito curiosa com essa situação, porque pensando nos escritores que anteciparam guerras, eles o fazem no sentido de oráculo, de aviso. Então quando a gente vê um exército fazendo uma pesquisa nesse sentido, vira uma outra tecnologia, que não é de antecipação e oráculo, que não é como aquela que um escritor faz quando cria uma distopia, e sim uma tecnologia de criação de guerra. É muito curioso pensar nesse processo de invenção como prevenção, como alerta, e, por outro lado, um processo de invenção como criação de guerra, como estivéssemos construindo a máquina do Kafka, tentando adivinhar", analisa a escritora Sheyla Smanioto.

"Tentando imaginar [a guerra do futuro], pensei que já se trata de uma vanguarda contratar escritores para pensarem essa guerra. São inteligências diversas pensando essa realidade de vigilância, de controle, da intimidade do diálogo, da expressão, esse monitoramento do que está sendo dito pela internet, e você contrata escritores para trazerem um radar do imaginário, de vigilância do imaginário", avalia. "Fico um pouco lisonjeada, enquanto escritora, e por outro lado, não me autorizo a criar essa guerra do futuro, porque prefiro usar minhas tecnologias de imaginação para criar outras coisas", diz Smanioto.

"Très chic esse Exército francês buscando ficcionistas", diverte-se o escritor e jornalista Xico Sá. "Acho sensacional, já tivemos um 1984, livro que mostra que os escritores podem vislumbrar um pouco esse futuro. O melhor exercício de imaginação do futuro seria uma dobradinha entre cientistas e ficcionistas", acredita. Mas, segundo ele, não será preciso esperar muito pela "guerra do futuro".

"Basta pular para 2021 no Brasil, onde veremos uma guerra pela vacina. Está uma confusão dos infernos, o governo Bolsonaro com o seu negacionismo fazendo tudo para que a população não se vacine, numa guerra com os estados. Pouca vacina, muito negacionismo de parte do governo. Imaginava que antes teríamos a guerra pela água. Como bom nordestino cearense, que já briguei por alguns baldes d'água, achei que isso fosse acontecer em nível global e está para acontecer, 'breve neste cinema', mas antes, pode escrever, teremos a guerra da vacina no Brasil, num futuro não muito distante", acredita Xico Sá.

"Aqui no Brasil, ao invés de contratar ficcionista, o Exército está perseguindo, como foi o caso de Jão Paulo Cuenca, perseguido pela Igreja Universal. Ou ainda como a 'lista dos detratores', da qual orgulhosamente faço parte, lista através do qual o governo persegue jornalistas e influenciadores que discordam ou falam mal de suas ações", conclui o escritor.

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