Cultura

Ignorada por 150 anos, personagem negra de pintura de Manet atrai novos olhares

Áudio 08:32
"Olympia", foi criada em 1863 pelo pintor francês Édouard Manet e faz parte da coleção permanente do Museu d'Orsay, em Paris.
"Olympia", foi criada em 1863 pelo pintor francês Édouard Manet e faz parte da coleção permanente do Museu d'Orsay, em Paris. De Agostini via Getty Images - DEA / G. NIMATALLAH

Todos os espaços culturais e artísticos da França continuam fechados devido à pandemia de Covid-19, mas muitos museus oferecem visitas on-line ou disponibilizam suas obras virtualmente na internet. É o caso do museu d'Orsay, que, na tentativa de levar a arte até a casa das pessoas durante a crise sanitária, destaca algumas de suas obras emblemáticas, como "Olympia", de Édouard Manet. Apontada por muitos historiadores como a fundadora da Arte Moderna na pintura, recentemente ela ganhou uma releitura devido a uma personagem que por mais de 150 anos foi esquecida.

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A principal figura desta célebre pintura de Manet de 1863 é a que leva o nome da obra, "Olympia", pseudônimo frequentemente adotado pelas prostitutas de luxo de Paris nesta época. Nua, deitada em um sofá, ela usa apenas uma flor no cabelo, um colar, uma pulseira e calça um tamanco. Com um olhar provocador, ela encara diretamente o público. Segundo os historiadores da arte, a ruiva estaria observando um cliente.

Durante mais de um século e meio, Olympia e a modelo que serviu de base para a criação desta personagem, a francesa Victorine Meurent, na época com 19 anos, atraíram todos os holofotes. Esse não foi o caso da outra figura desta obra: uma mulher negra, encarnada pela modelo Laure. Vestida de rosa claro e com lenço amarrado na cabeça, ela aparece em segundo plano, no escuro, com um buquê de flores nas mãos.

Frequentemente descrita como "a criada" pelos historiadores da arte na França, pouco se sabe até hoje sobre a modelo Laure, nem mesmo seu sobrenome, embora ela ocupe um espaço físico importante nesta tela de Manet. Nos últimos anos, ela passou a chamar a atenção de pesquisadores e foi graças à iniciativa da historiadora da arte americana Denise Murrell que essa personagem ignorada durante mais de um século e meio passou a dividir parte dos holofotes com Olympia.

"Denise Murrell ficou intrigada com essa ausência de estudos sobre a figura da criada negra e decidiu fazer uma tese sobre essa personagem e a representação dos modelos negros na pintura. Essa tese, em seguida, virou uma exposição, primeiro em Nova York e depois em Paris, em 2019", afirma Isolde Pludermacher, conservadora de arte do Museu d'Orsay.

Segundo registros da época resgatados durante a pesquisa realizada por Denise Murrell, Laure morava na capital francesa e posava para pintores. Ela foi identificada em outras duas telas de Manet: "Retrato de Laure", de 1862, e "Crianças nos Jardins das Tulherias", pintado entre 1861 e 1862. Em "Le Baiser Enfantin", de Jacques-Eugène Feyen, ela aparece sorridente e com traços mais definidos, próximos à de uma fotografia, como mandava o movimento naturalista.

Jacques-Eugène Feyen, Le baiser enfantin (1865).
Jacques-Eugène Feyen, Le baiser enfantin (1865). © Wikipédia

"O Modelo Negro": grande sucesso em Paris

Pioneira no mundo das artes, a exposição "Le Modèle Noir" (O Modelo Negro), obteve um imenso sucesso em Paris, em 2019. Foi através desta mostra que o público pôde descobrir mais detalhes não apenas sobre Laure, mas sobre a representação das pessoas negras na pintura, tirando-as do anonimato.

"A partir disto foi possível estudar e estabelecer hipóteses, comparando com outros documentos, e entendendo também como as pessoas negras, especialmente as mulheres negras, se inseriam na sociedade do período. Na época em que 'Olympia' foi criada, fazia aproximadamente 15 anos que a escravidão tinha sido abolida na França e em suas colônias da época. É interessante notar que essa pintura mostra como uma modelo negra sobrevivia nesses ambientes artísticos e como as relações sociais podem ser lidas a partir desta presença", observa Felipe Martinez, professor de História da Arte do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp).

Este novo olhar sobre "Olympia" e a emergência da personagem para a qual Laure serviu de modelo não ocorre por acaso. A emergência de movimentos negros e feministas nos últimos anos em todo o mundo, clama por novas reflexões também acerca da arte.

"Quando a gente observa o trabalho que foi feito em torno da modelo Laure - de identificação, de interpretação, de hipóteses de relações sociais daquele período em Paris - a gente vê também que a história da arte ajuda a entender outros elementos que estão presentes fora do campo artístico", salienta Felipe.

Segundo ele, essa é uma prova de que a percepção de uma obra de arte é sempre histórica. "A visão que teremos daqui para frente de 'Olympia' sempre vai levar em conta a Laure, como personagem, junto com a Victorine. No futuro, a gente também vai levar em conta a história do olhar, que temos nos dias de hoje, sobre esse quadro. E assim será para as exposições e livros que forem escritos pensando nessa obra. Ao meu ver, a história da arte só se enriquece quando caminha neste sentido", reitera.

Portrait de Laure
Auteur : Édouard Manet
Date : 1862
Technique : huile sur toile
Dimensions : 61x50cm
Portrait de Laure Auteur : Édouard Manet Date : 1862 Technique : huile sur toile Dimensions : 61x50cm © Wikipédia

A história de um escândalo

Exibida pela primeira vez no Salão de Pintura e Escultura de Paris, em 1865, "Olympia" suscitou um verdadeiro escândalo na capital francesa. Na época, Manet recebeu uma avalanche de críticas e a pintura teve de ser retirada do evento por ser considerada vulgar e imoral. Graças a curadores, o quadro escapou até mesmo de ser destruído.

"O nu feminino era aceito naquela época, mas era preciso que fosse idealizado e que correspondesse a um personagem mitológico ou histórico. Não era possível mostrar, na pintura, a representação de um corpo real, o que não é o caso no quadro de Manet", explica Isolde Pludermacher.

De fato, não é uma deusa que Manet pinta em "Olympia", mas uma cortesã. Não apenas o nu "real" choca os críticos na época, mas a atitude e olhar provocador desta personagem - uma subversão dos códigos artísticos da época.

"É evidente hoje que a inspiração desta pintura foi 'Vênus de Urbino', de Ticiano, que Manet copiou, alguns anos antes de pintar Olympia, quando estudou em Florença, na Itália. Isso faz parte da grande ousadia de Manet: não somente ele trata, em um grande formato, de temáticas contemporâneas consideradas vulgares - como a sexualidade e a prostituição - mas, além disso, faz uma paródia dos grandes mestres da Renascença", ressalta a conservadora de arte do Museu d'Orsay.

O que certamente Manet não poderia imaginar é que hoje, mais de 150 anos desta polêmica em torno de "Olympia", Laure sairia do escuro do segundo plano para para atrair os holofotes sobre sua presença e representação.

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