Cultura

Teatro brasileiro se reinventa em formato híbrido e virtual durante a pandemia

Áudio 07:18
Atrizes, atores, técnicos, diretores e produtores do teatro brasileiro se reinventam durante a pandemia no formato streaming. Na foto,Débora Falabella e Yara de Novaes no espetáculo "Neste Mundo Louco Nesta Noite Brilhante"; Alessandra Negrini em "A Árvore"; o autor Giovani Tozi e o ator Leonardo Miggiorin da peça "Não se mate", e o ator Gero Camilo (centro) e elenco na peça "A Procissão".
Atrizes, atores, técnicos, diretores e produtores do teatro brasileiro se reinventam durante a pandemia no formato streaming. Na foto,Débora Falabella e Yara de Novaes no espetáculo "Neste Mundo Louco Nesta Noite Brilhante"; Alessandra Negrini em "A Árvore"; o autor Giovani Tozi e o ator Leonardo Miggiorin da peça "Não se mate", e o ator Gero Camilo (centro) e elenco na peça "A Procissão". © Fotomontagem/ DR/ "Não se Mate" - Crédito – Priscila Prade

Há cerca de 3.000 anos, o teatro ocidental se exibe em frente de assembleias humanas mais ou menos curiosas, que se reúnem para assistirem a encenação de uma narrativa. Até que uma pandemia de coronavírus, aliada a modernos instrumentos de produção de conteúdo audiovisual, como o streaming e a internet, abriram espaço para a reinvenção dessa prática tão prosaica quanto milenar – uma subversão com tempero brasileiro, no meio de um verdadeiro deserto cultural. A RFI ouviu alguns artistas que participam desse novo capítulo da aventura do teatro, desafiado pela crise sanitária.

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Rainhas ou plebeus, eruditos ou operários, fadas ou vilões: todos sempre encontraram, desde a noite dos tempos, um lugar previamente marcado seja na plateia, seja na narrativa incorporada no palco, desde o nascimento do teatro ocidental na Grécia Antiga. Com a pandemia, tudo mudou, em pleno século 21.

Na França, a classe decidiu se organizar ocupando teatros na luta por melhores condições durante a pandemia. O país vem insistindo em manter festivais presenciais como o de Avignon, previsto para julho deste ano, não sem fortes críticas da própria classe artística francesa.

No Brasil, onde são raras as subvenções públicas ao ofício milenar do teatro (e das artes em geral), os artistas, técnicos e produtores decidiram se reinventar, criando uma nova linguagem, misto de teatro, cinema e televisão, e algo mais. Os artistas de teatro brasileiros, fragilizados pela pandemia e com pouco apoio cultural do Estado, mostram-se pioneiros nesse novo tipo de encenação virtual, uma maneira de manter acesa a chama dos palcos, e, muitas vezes, a de sua própria subsistência.

A atriz Débora Falabella, que acaba de finalizar mais uma temporada de espetáculos em streaming do Grupo 3 de Teatro, lembra que o desafio para os atores nesse formato extrapola a questão da interpretação. "Para mim foi um desafio não apenas para a atuação, porque acabamos sendo um pouco criadores desses formatos online. Tivemos que pensar juntos em como fazê-los", conta. "Minha experiência em teatro e TV contribuiu para que isso acontecesse, mas o grande desafio é entender o que é esse formato, que se situa entre algumas coisas. É um teatro em formato streaming que flerta com o cinema e a TV", diz Falabella, que integra o time principal do elenco de produções televisivas da Rede Globo no Brasil.

A atriz atuou na Mostra de Repertório online do Grupo 3 de Teatro no fim de março, com “Neste Mundo Louco Nesta Noite Brilhante”, “Contrações” e “Love Love Love”. Ela diz que o “grande desafio e angústia é tentar entender até onde vai o interesse do público por esses novos formatos”.  “Eu mesma às vezes me sinto cansada assistindo teatro através de uma tela. O desafio é entender como manter esse interesse, como manter esse perigo que o teatro ao vivo e presencial nos dá. É angustiante já que se trata de algo novo, mas para mim é desafiador porque tenho interesse muito grande em dirigir cinema e projetos que tenham a ver com o audiovisual”, afirma Falabella.

Colega de Débora no Grupo 3, Yara de Novaes, prêmio Shell e APCA de Melhor Atriz por "Love Love Love", acredita que essa nova linguagem oferece também um encontro com novas tecnologias e presenças. "Tem também essa experiência interessante de conhecer um pouco esses caminhos da tecnologia, esses softwares novos, essas dinâmicas, acho interessante como conhecimento", sublinha. 

A linguagem híbrida causa vertigem, mas também abre novos horizontes, como destaca a atriz: "O que mais me incomoda nessas experiências digitais é a ideia de um corpo 'desencorpado', um corpo que perde suas periferias, suas articulações, seus deslocamentos, seus suores, o seu gozo. A relação com o outro, além de ser excessivamente mediada pela tecnologia, pelo digital, se torna meio narcísica, especular no computador”, diz. 

"Fico um pouco desnorteada, você perde um pouco o outro, fica um pouco essa ausência. Como encontrar essa presença híbrida virtual e fazer com que ela tenha uma potência em seu corpo e não cair nesse lugar vazio, nesse vácuo, nessa solidão?", questiona Yara de Novaes. 

Para a premiada dramaturga Silvia Gomez, autora de “Neste Mundo Louco Nesta Noite Brilhante” e "A Árvore" (com Alessandra Negrini), entre outras peças do repertório brasileiro contemporâneo, o novo formato obriga a repensar protocolos e regras do próprio teatro. "O principal desafio de escrever teatro nestas condições tem a ver com a principal característica do teatro: o encontro. A essência do teatro, que é a sua presença. Durante o processo, em função dos protocolos sanitários, você acaba tendo menos encontros e interlocuções", destaca Gomez.

"Por outro lado, você se encontra, de repente, numa zona fronteiriça, que não está sob protocolos e convenções, nem do audiovisual, nem do teatro. Então, subitamente você se vê questionando o que são esses protocolos e regras", lembra a dramaturga, formada pelo icônico CPT de Antunes Filho.  

“O futuro vai dizer, mas será que ganhamos maior liberdade narrativa a partir destas condições? Eu sinto que escrevi com uma maior liberdade, sem querer abrir mão de estar escrevendo teatro, dessa ideia de uma presença efêmera, mas também absorvendo a possibilidade de trazer imagens para além daquela presença imediata”, diz. “Acho que essa zona fronteiriça, livre e sem manuais, poderá no futuro dizer se a gente conseguiu absorver essa liberdade e fazer dela alguma coisa”, acredita Gomez.

Para o diretor e produtor do Grupo 3 de Teatro, Gabriel Fontes Paiva, “é difícil concluir em termos de público para uma linguagem que acaba de ser criada”. “Até agora, tivemos um público muito grande em apresentações gratuitas, e um bom público também em salas fechadas [no pós-pandemia] em alguns momentos. É uma variação muito grande, às vezes com uma série de 500 apresentações simultâneas. O que dá para se afirmar é que ganhamos a possibilidade de falar com públicos de outras regiões. O teatro, por ser presencial, tinha a dificuldade de chegar em todos os lugares. Normalmente se faz uma temporada central e depois uma turnê por capitais. Neste novo modelo, tivemos público do mundo inteiro podendo assistir o que a gente faz”, afirma Paiva.

O ator Gero Camilo encara o mesmo desafio de Débora e Yara na primeira semana de abril. Ele apresenta, a partir desta sexta-feira (2), uma série de seis  apresentações da peça "A Procissão" até domingo, sempre às 20h em seu canal do YouTube. A peça mostra a trajetória de romeiros que seguem sua caminhada em busca da sobrevivência e da fé. Ao lado de Camilo nessa aventura online estão Tata Fernandes e Zé Modesto.

"O desafio do audiovisual para adaptarmos obras dramatúrgicas, num momento em que o teatro está com as portas fechadas por conta da pandemia, é uma inauguração de novas linguagens nas artes dramáticas, independente do teatro", considera o ator. "Isso vira um belo desafio para nós, assim como para o cinema, que também está com as suas portas fechadas e necessita nesse momento dos streamings para poder colocar suas obras em circulação. Essa aproximação com o audiovisual inaugura num novo instante", avalia Camilo, que possui uma longa trajetória no teatro, na TV e no cinema.

"Essa situação pandêmica nos afeta muitíssimo. No início da pandemia, diante de um tal desespero de causa, tivemos que nos adaptar aos novos formatos. Essa adaptação não é perene, ela é transitória; acredito que essa transitoriedade constrói a linguagem", sublinha Gero Camilo. "O cinema já fez isso, já causou essa transformação quando nasceu. Agora estamos em um outro desafio: como, entendendo o desenvolvimento audiovisual e tecnológico de uma linguagem dramática, podemos utilizar isso para sobrevivermos nesse momento em que temos que fechar as portas. Gosto de pensar que estou fazendo uma adaptação audiovisual do teatro", aponta.

"E, independentemente de tudo isso, o teatro se torna também um momento de vigília, para que logo possamos abrir nossas portas e, de novo, fazer desse momento presencial um momento catártico das artes dramáticas e do teatro", conclui Camilo.

Outra veterana dos palcos, das telonas e da telinha, a atriz Alessandra Negrini também embarca nesta aventura com brio. Em seu novo espetáculo, "A Árvore", a atriz se lança sem rede de proteção nesse novo formato, conseguindo cenas de extrema poeticidade, deslizando com destreza no texto inédito de Silvia Gomez, com direção de Ester Laccava e João Wainer, e produção de Gabriel Fontes Paiva.

"O que eu achei interessante foi justamente esse desafio do híbrido, buscar esse formato num solo, onde a presença da palavra é muito forte. Fizemos [a peça em] um teatro, usamos a iluminação do teatro, uma equipe dupla de teatro e cinema e essa ‘conversa’ foi muito interessante. Fiquei muito feliz de ter feito esse trabalho, acho que vale a pena as pessoas aceitarem esse desafio como ele se apresenta", avalia.

"Num momento como esse o que importa é a expressão, não o veículo, a mídia", diz Negrini. "Não senti como uma experiência angustiante, eu gosto muito do audiovisual, gosto muito de fazer cinema, e, para mim, foi a primeira vez em que pude estar do outro lado como produtora, idealizadora e criadora do projeto. Acho que estamos abrindo novos caminhos de produção. E claro que sinto falta dos palcos e da plateia, mas o foco é sempre a comunicação, o contato com o outro, chegar no outro", afirma.

"Eramos em Bando", novo trabalho do Grupo Galpão.
"Eramos em Bando", novo trabalho do Grupo Galpão. © DR

“A pandemia teve um efeito muito grave em todas as atividades do Galpão”, conta o ator e diretor Eduardo Moreira, da prestigiosa trupe sediada em Belo Horizonte. “Nós estrearíamos no ano passado no Festival de Curitiba um novo espetáculo, uma imersão na poesia brasileira de autores vivos. A peça já estava em seus ensaios finais e todos os compromissos presenciais foram cancelados. Diante deste susto que foi a pandemia, tivemos que nos reinventar e entrar nessa área do virtual”, relata.

“No ano passado produzimos esse filme, uma espécie de um documentário de um grupo de artistas tentando continuar esse trabalho, o ‘Éramos em Bando’, tipo um diário de um grupo de artistas tentando produzir numa plataforma digital, o Zoom. É quase um relato de um fracasso, uma impossibilidade de continuar trabalhando com o teatro”, relata. “No final do ano, fizemos um espetáculo online, o ‘Histórias de Confinamento’. Fizemos uma campanha, recebemos mais de 500 histórias em que as pessoas nos relatavam situações do confinamento”, conta.

Ele conta que, este ano, o Galpão prevê seis programas radiofônicos, além de um projeto de dramaturgias. Cinco dramaturgos foram convidados para escreverem projetos para serem desenvolvidos no virtual. “Vamos levando nesse sentido, com grandes dificuldades. A situação política e econômica no Brasil está muito difícil, especialmente para a cultura e a arte, mas a gente vai resistindo”, afirma o artista.

Enquanto o público não volta para retomar na caixa cênica a poderosa intimidade com os artistas de teatro, as peças online extrapolam fronteiras e atingem públicos e plateias inesperadas, dentro e fora do Brasil. Fica na boca aquele gostinho de quero mais – quem sabe, num futuro próximo, com vacina, encontro e aplauso.

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